John McCain: O republicano que afronta Donald Trump

O velho senador e o novo presidente não gostam um do outro. Isso não é segredo, mas o que terá levado McCain a fazer dois mil quilómetros para derrotar a votação sobre o fim do Obamacare?

Aaron P. Bernstein/Reuters

Em 1997, na lista das 25 personalidades mais influentes dos Estados Unidos publicada pela insuspeita revista ‘Time’, surgia pela primeira vez o nome do senador republicano John McCain – juntamente com a primeira mulher alguma vez nomeada secretária de Estado, Madelaine Albright (uma checoslovaca que os europeus haveriam de ficar a conhecer profundamente quando o Kosovo explodiu), o desportista Tiger Woods, o artista pop Babyface, o magnata húngaro George Soros, o também republicano Colin Powell (que a revista achava que chegaria a presidente), o personagem de banda desenhada Dilbert e um elevado número de ilustres desconhecidos para o resto do mundo. “Quando os senadores veem John McCain nas televisões, apertam os dentes e dizem uma oração”, escrevia a Time sobre aquele que já era conhecido pela alcunha de Republicano Rebelde – que ele próprio usava em várias ocasiões.

Donald Trump, que nunca apareceu nas listas da ‘Time’ senão quando ascendeu à posição de presidente dos Estados Unidos, sabia, por isso, que transformar John McCain num inimigo político era uma opção displicente e perigosa, ou então uma distração que não devia ter tido. Mas teve. McCain, que nunca deixou de fazer o que achava que tinha de fazer por ser republicano, transformou-se – à custa de ter conseguido contrariar o presidente na questão do Obamacare – na maior dor de cabeça de Trump. A substituição do Obamacare por outra coisa qualquer ou por coisa nenhuma foi uma das promessas mais fortes da campanha eleitoral de Trump, transformando-se numa espécie de atestado da capacidade de o novo presidente impor a sua vontade no Senado norte-americano.

Contando nessa câmara com uma maioria republicana, Donald Trump ficou visivelmente indisposto quando falhou a primeira tentativa de retirar o Obamacare do ativo. À segunda, a questão transformou-se numa novela e, depois de voltar a perder, numa vergonha para o presidente. Mais lá para a frente há-de haver uma terceira tentativa – e uma quarta e uma quinta, tantas quantas forem necessárias – mas os estragos já estão feitos.

Quem é McCain?

Nascido em 29 de Agosto de 1936 numa base aérea e naval junto ao Canal do Panamá (dado que o seu pai era militar), John McCain trilhou o percurso militar dos seus antepassados (o pai e o avô foram almirantes de quatro estrelas), tendo acabado por ingressar na Academia Naval dos Estados Unidos, em Annapolis. Ali se distinguiu como lutador de wrestling e de boxe, a que se somava uma lista razoavelmente longa de distúrbios com os colegas mais bem classificados do curso. Tornou-se piloto aviador e foi nessa condição que chegou ao Vietname, em Outubro de 1967.

Ficaria muitos anos nessa zona proibida da Ásia – a maior parte dos quais, quase seis anos, como pensionista do Hanói Hilton – depois de o avião que pilotava, um A-4E Skyhawk, ter sido abatido por um míssil. O Hanói Hilton era o nome por que era conhecida entre as tropas norte-americanas a terrível prisão vietnamita de Hoa Ló, onde John McCain foi barbaramente torturado, ao ponto de lhe terem infligido deficiências físicas para toda a vida.

Pouco tempo depois de ter regressado, em abril de 1973, na condição de herói de guerra, McCain tornou-se oficial de ligação entre a Marinha e o Senado – uma vez que não tinha condições de prosseguir uma carreira militar normal (o que o impedia de chegar ao posto a que o seu pai e o seu avô tinham ascendido). Foi nesse quadro que decidiu deixar o exército (em abril de 1981) e tentar a política – tendo sido eleito congressista do Partido Republicano em 1982, pelo Estado do Arizona.

Um percurso pouco ortodoxo

Nos 35 anos seguintes, McCain habituou os seus pares a que não estava habilitado para ser um mero votante às ordens do partido – assim como provou que conseguia, em termos ideológicos, movimentar-se da esquerda para direita e da direita para a esquerda, numa deriva que o torna difícil de encaixar nos limites propostos pela literatura política. Só assim se percebe (ou não) que tenha sido contra a instauração de um feriado federal em memória de Martin Luther King (1983) e que tenha visitado Augusto Pinochet (1985), no mesmo ano em que voltou ao Vietname e foi um dos mais destacados defensores do restabelecimento de relações com aquele país comunista.

Como congressista e senador, a sua evolução foi igualmente errática: aderiu ao chamado Reaganomics – uma teoria económica que defendia a redução dos impostos sobre o capital e a regulamentação, entre outras coisas – mas batalhou pela reforma do financiamento das campanhas eleitorais pelas grandes corporações (empresas, sindicatos e lobbies), que nunca passou nas votações do Senado precisamente por culpa dessas corporações; apoiou o financiamento dos Contras na Nicarágua, mas opôs-se às operações militares na Somália – para mais tarde ser um fervoroso adepto da intervenção no Iraque no pós-11 de setembro (de 2001), apesar de ter conseguido impor uma lei que impedia os interrogatórios demasiado vigorosos (nomeadamente em Guantánamo, possivelmente recordado o Hanói Hilton) e que George W. Bush quis inviabilizar.

Pelo meio, McCain foi acusado de pertencer (entre 1982 e 1987) ao chamado grupo dos Keating Five – cinco deputados, todos democratas menos o próprio – acusados de corrupção para apoiarem o Lincoln Saving Lean, uma instituição bancária que entrou em incumprimento e deixou um buraco de três mil milhões de dólares para ser pago pelos contribuintes. McCain, juntamente com o democrata (e astronauta) John Gleen, não chegaram a ser acusados, mas o Senado haveria de lhes criticar a perigosa distração pelas más companhias.

Terá sido por não ser de facto um republicano ‘de carreira’ que John McCain chegou a ser colocado na short list para a vice-presidência da campanha do… democrata Bob Dole (1996), estranha ocorrência política que se repetiria mais tarde, em 2004, com o também democrata John Kerry. Antes disso, em 2000, John McCain concorreu às primárias republicanas contra George W. Bush. Perdeu, e sentiu na pele todo o poder de fogo (amigo) de que a família que ‘deu’ dois presidentes aos Estados Unidos era capaz.

McCain foi alvo de uma campanha subterrânea em que foi sucessivamente acusado de ter gerado uma criança negra fora do casamento (o senador tem uma filha adotiva nascida no Bangladesh), de ser homossexual, traidor, pró-comunista e mentalmente instável (novamente por causa do Hanói Hilton), para além de ter uma mulher viciada em droga. Bush, o segundo, rodeado pelos mais altos dignitários do novo poder nos Estados Unidos (os evangélicos), acabaria por vencer.

E agora Trump

Oito anos depois, e tendo aprendido a lição, John McCain regressou – depois de ter defendido reformas ‘de esquerda’, como a lei da reforma da emigração (2007), que pretendia dar um tratamento e um trabalho honrosos aos que chegavam aos Estados Unidos, ou a lei (de 2004), que pretendia obrigar as empresas poluentes a redobrar cuidados – ambas recusadas pelo Senado. E trouxe os evangélicos consigo: convidou para sua vice-presidente a governadora do Alasca, Sarah Palin, membro destacado do Tea Party, grupo onde está acantonada a direita ultraconservadora e ultrarreligiosa. Não lhe valeu de nada.

Considerado um dos dez melhores senadores do país, mais uma vez pela ‘Time’, John McCain transformou-se numa espécie de ‘voz da consciência’ do Partido Republicano. Criou por isso um terramoto político quando, em outubro de 2016, retirou o seu apoio à candidatura de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos. “Queria apoiar o candidato nomeado pelo nosso partido. Não era a minha escolha, mas como candidato nomeado no passado, pensava ser importante (…). Mas o comportamento de Donald Trump esta semana, concluído com a revelação dos seus vexatórios comentários sobre as mulheres e as suas gabarolices sobre assaltos sexuais, tornam impossível que continue a fornecer um apoio, mesmo que condicional, à sua candidatura”, disse.

Trump, sempre descuidado, respondeu qualquer coisa que metia a frase “prefiro os que nunca se deixaram apanhar” – numa referência clara aos seis anos de McCain como prisioneiro no Vietname. O futuro presidente dos Estados Unidos esqueceu-se que, para além das deficiências físicas e da carreira arruinada, John McCain, durante aqueles anos, tentou suicidar-se e, depois disso, foi obrigado a escrever uma confissão de propaganda antiamericana – sobre a qual mais tarde escreveria no seu livro de memórias ‘Faith of My Fathers’ (1999) que “aprendi o que todos aprendemos ali: cada homem tem o seu ponto de rutura. Eu tinha alcançado o meu”.
Depois disso, em 1968, John S. McCain Jr., o seu pai, foi nomeado comandante de todas as forças dos Estados Unidos estacionadas no Vietname, e os vietnamitas, por razões propagandísticas, ofereceram ao jovem prisioneiro a sua libertação. McCain recusou, a menos que todos os homens feitos prisioneiros antes dele também fossem liberados – coisa que ele sabia impossível.

Não é, por isso, de admirar, que, há poucos dias e depois de lhe terem diagnosticado um cancro no cérebro (também já teve melanoma), John McCain tenha viajado dois mil quilómetros para comprometer uma das maiores vontades políticas de Donald Trump sobre uma lei, o Obamacare, que aparentemente nem sequer é do agrado do velho senador. Trump pode ter ganho um inimigo para a vida.



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