João Pina: “É preciso direcionar o medo para contar uma história”

A Operação Condor vai estar em exposição no Terreiro de Paço desde o dia 20 de Abril até 18 de julho. Da autoria de João Pina, de 36 anos, Portugal é o décimo país a receber esta exposição. Este é um trabalho que demorou nove anos a ser realizado e levou o fotojornalista a viajar por seis países: Brasil, Bolívia, Uruguai, Paraguai, Argentina e Chile.

Porque demorou tanto tempo a primeira exposição da operação Condor em Portugal?
Só se materializou há uns meses quando a EGEAC, ao saber que esta exposição ainda não tinha sido feita em Portugal, numa altura em que Lisboa é a capital ibero-americana da cultura. Esta exposição fazia todo o sentido acontecer neste momento. E tinha outra vantagem. Tinha ido para França e estava guardada no Porto. Agora, no espaço que escolhemos para o fazer estamos a construir tudo porque não havia nada lá dentro. É um desafio interessante.

Como é que foi a recetividade do público nos outros países?
Cada país é um país e destes cinco, menos a Bolívia, onde já mostrei, têm uma relação com o passado muito diferente. Tem sido muito interessante ver como é que são as reações e dependendo dos espaços também. No Brasil, estive no Paço das Artes em São Paulo e tinha um público muito jovem que era o que me interessava. No Rio, no Museu de Arte Moderna, é um público muito mais eclético. Mas as reações têm sido interessantes. Eu estou lá na inauguração, depois vou lá uma ou outra vez e não acompanho o resto da exposição porque a vida continua. Vejo mais pelos comentários que eles vão escrevendo e tem sido muito interessante ver como miúdos do liceu vão ver a exposição e deixam mensagens. Nota-se que há ali um público com avidez de saber.

E as pessoas retratadas?
As pessoas retratadas obviamente estão contentes. Quer dizer os militares não sei se estão contentes. As vítimas sentem que é uma forma de homenagem e também é um espaço onde elas podem falar das suas histórias. Eu tento sempre trazê-las e tenho conseguido nos países em que estão. Aqui é mais difícil.

Algum episódio o emocionou particularmente?
Não há um que me tenha emocionado mais e é muito injusto destacar uma história. Todas elas têm uma potência e uma riqueza muito grande. Para o livro escolhi dezassete histórias de vítimas e muitas outras ficaram de fora e isso é uma inquietação que tenho sempre. Na exposição é um bocadinho diferente, são 26. Há mais histórias na exposição e tento sempre encontrar um equilíbrio e contar a diversidade de experiências e de traumas. É difícil destacar um, sinceramente.

Demorou quantos anos a fazer este livro?
Nove anos, de 2005 a 2014. Já estou a trabalhar no próximo que já leva dez. O que eu vou fazendo é: começo coisas e depois vou seguindo. Não faço só isso, obviamente, senão morria de fome. Mas comecei o Condor em 2005, sem saber muito bem, porque é muito difícil. Como é que se retrata o passado? Requer muito estudo. Eu antes de começar a fotografar a sério foram para aí três anos, só a tentar entender as histórias. Ia falando com pessoas, fazendo uns retratos aqui e ali, mas até perceber aquilo que estava a fazer fotograficamente demorou. Há outras histórias que não demora tanto. Eu estou a fazer um livro sobre as favelas do Rio de Janeiro, mas que já abriu e evoluiu para muitas outras coisas. É muito mais imediato. Então o meu exercício é o contrário, como sair do imediato desta história e contá-la de uma maneira muito mais universal. Por exemplo, falando do Rio que eu estou a trabalhar desde 2007 e teoricamente termina em 2016. É um período que toda a nossa geração se vai lembrar como o período em que houve as Olimpíadas, o campeonato do mundo. Mas daqui a vinte ou trinta anos, como é que vamos pensar nesta cidade, neste espaço? E é esse exercício que eu me estou permanentemente a perguntar. Como no Condor, ao contrário, que é: isto aconteceu há quarenta anos, como é que nós conseguimos visualizar isto hoje? E então ir atrás disso.

Deslocou-se por vários países durante esses nove anos?
Sim, pelos seis envolvidos, mais Cuba, Estados Unidos. É o que está no livro. Conversar aqui ou ali, um ou outro arquivo, mas sobretudo foi no Cone Sul, foi nos seis países envolvidos.

Nestes países ainda se nota uma memória viva da Operação?
Cada processo foi diferente e cada momento político atual é também diferente. Se nós partirmos da Argentina, que foi onde me foquei mais, em que existiram trinta mil desaparecidos, mais centenas de milhares que tiveram que ir para o exílio, o número de famílias afetadas é gigantesco. No Brasil, onde houve grosso modo quatrocentos assassinados e duzentos desaparecidos, a mobilização da sociedade civil é muito diferente. E, com isso, vem tudo em arrasto, a cultura política, a cultura de cada um destes países. Usando os dois exemplos, a Argentina onde até hoje há julgamentos de crimes de leis da humanidade, onde a sociedade civil é muito politizada e o Brasil onde até há pouco tempo ninguém prestava atenção a política. Os resultados são muito diferentes. O reverso disso é na Argentina, onde jamais consegui falar com um militar. No Brasil porque existe impunidade, alguns militares sentem-se no direito de falar à vontade porque sabem que não lhes vai acontecer nada. Portanto, isto tem sempre dois pesos e duas medidas. Depois a Bolívia em que essas coisas estão completamente esquecidas, o Paraguai que é um caso muito paradoxal, em que na sociedade civil se fala muito pouco, mas institucionalmente foi muito tratado.

Conheceu portugueses na Operação Condor durante estes anos?
Curiosamente caiu-me no colo. No livro está o António Louro que é um português que foi preso político em Portugal Depois fugiu para a Inglaterra, depois França, depois incompatibilizou-se com o Partido Comunista e acabou por ir para o Rio de Janeiro.

Os arquivos históricos são acessíveis?
O grande arquivo sobre a Operação Condor foi encontrado no Paraguai em 1992. São três toneladas de documentos que qualquer pessoa pode aceder, ao contrário da Argentina, por exemplo, onde existe uma grande preocupação pelo direito de imagem das pessoas e das vítimas. Cheguei a arquivos onde encontrei centenas de imagens interessantes e depois de pesquisar, pesquisar e pesquisar, consegui encontrar uma em que consegui autorização. O processo, a aproximação à própria história é muito diferente em cada um desses países.

A fotografia funciona como uma forma de ativismo?
Não, para mim não. Quer dizer… teríamos que definir o conceito de ativismo. Eu tento dar voz a assuntos que para mim são particularmente caros, mas não tento pôr a minha voz no meio disso. A mim interessa-me que algumas histórias sejam conhecidas para que as pessoas entendam o que é que aconteceu, e que isso nos ajude a entender, enquanto mundo ocidental em decadência, os erros que já fizemos, para utopicamente tentarmos evitar no futuro. A história prova-nos que estamos sempre errados nesta aproximação, mas eu acho que é a forma humanamente possível de trabalhar estes assuntos e não ser cínico em relação a eles. Depois é muito fácil também cair-se na mercantilização da exploração da miséria dos outros e isso é uma coisa que a mim me toca, tento que isso não aconteça. Quando eu sinto que estou a ficar demasiado frio em relação a determinados assuntos tento afastar-me para respirar um bocado.

Onde é que vive?
Neste momento em lado nenhum. Vivi oito anos na Argentina, há um ano e meio decidi sair da Argentina e a ideia era estar três meses sem decidir onde é que estava a viver. Isto foi em setembro de 2015, estamos em abril de 2017. Não tenho uma base fixa, talvez tenha outra vez em breve, mas ainda estou a estudar onde.

E isso agrada-lhe?
Agrada-me claro, dá-me uma flexibilidade que ter uma casa montada, uma renda para pagar, alguém para prestar contas não me dava. Decidi que precisava de flexibilizar a minha estrutura e ser mais competitivo. Se há uma coisa que me interessa na Colômbia, não tenho problemas em comprar um bilhete e ir para a Colômbia. O Fidel morreu, eu no próprio dia estava em Cuba. O ano passado por exemplo, foi o ano em que o Brasil desmoronou e tive não sei se a felicidade, se a infelicidade, de estar por lá e portanto tive muito trabalho de imprensa o que me permitiu também continuar a trabalhar sobre o meu livro e andar a explorar outros assuntos. Este ano ainda estou a explorar o que quero fazer. Cada ano é um ano diferente e estou numa fase em que questiono muitas coisas da minha própria vida e da minha forma de atuar.

Como é que foi a experiência no Brasil?
O Brasil é onde eu tenho passado mais tempo. Conseguir ter acesso ao tráfico no Rio e ao dia-a-dia. Como uns miúdos a jogar matraquilhos e um deles tem uma metralhadora às costas porque é a função dele naquela sociedade – é fazer segurança para o dono do morro. O dono do morro naquele caso é um traficante mas representa muito o abandono das classes mais pobres do Brasil. O Morro do Dendê, no Rio de Janeiro, a 500 metros do aeroporto internacional do Galeão. É onde vivem cerca de 60 mil pessoas e onde o Estado não intervém. Portanto quem intervém é o narcotráfico com coisas boas e coisas más.

Foi muito dificil entrar neste morro e conquistar a confiança do líder?
Não foi muito dificil porque as coisas estavam calmas. Aquilo é um mundo muito paranóico. Não é só a polícia. Pode ser o teu aliado que vira teu inimigo. Eu consegui ter acesso ao Fernandinho (está na lista dos 10 mais procurados do Rio de Janeiro) através de um líder da comunidade, que continua a ser o dono do morro há 14 anos. Levaram-me a ele e pude entrevistá-lo, conversar longamente e explicar o que estava a fazer. E depois houve confiança para eu ficar a trabalhar.

Teve medo?
Claro que tive medo. Senão não estaria aqui, seria suicida. O medo faz parte daquilo que nós fazemos. Entra-se numa favela ou numa operação de polícia e o medo está sempre lá. Mas é direcionar esse medo para fazer alguma coisa com isso. E fazer alguma coisa com isso é contar uma história.

Além do Brasil, que outros países o marcaram?
Estive na Líbia durante a revolução. A tampa saltou e ninguém sabia para onde ia espirrar. Nós enquanto cidades ocidentais temos tendência em relativizar o problema quando o problema é dramático. O Afeganistão que não vou há muito tempo, desde 2010. Entre 2007 e 2010, havia pouca atenção porque a atenção estava toda virada para o Iraque e eu decidi começar a trabalhar no Afeganistão. Foi interessante, deu para experimentar uma série de coisas, como estar com militares portugueses e militares norte-americanos, estar a viver com eles, a reportar sobre o que eles estavam a fazer. Mas depois foi interessante o momento em que consegui sair disso e reportar sem estar só naquela realidade.

Como é que um fotojornalista convive com a realidade que vê nas favelas do Rio ou na Líbia, por exemplo?
Tento diversificar para outras coisas, que me permitem desacelarar aquelas partes do cérebro que vão à procura da adrenalina. O mesmo com os trabalhos que faço com memória histórica – são coisas que também me fascinam e me obrigam a sentar pessoas, conversar com elas dois ou três dias, entender a história e perceber o que posso fazer dali. O ano passado tocou-me fazer um guia de Havana. Fui para uma cidade muito bonita e podia ir para onde queria. Isso é um luxo e eu também gosto muito disso.

É filho de Joaquim Pina Moura, antigo ministro das Finanças. O seu pai sempre lidou bem com o facto de o filho ser fotojornalista?
Em vários momentos de forma diferente. No início com alguma preocupação. Eu comecei a trabalhar em 1999 e o meu pai, de repente, percebeu que eu trabalhava 80 horas por semana e ganhava o equivalente a 200 e poucos euros. Ele é economista e dizia-me ‘como é que isto é possível? isto não bate certo’. E pronto, depois as coisas foram evoluindo e correndo melhor. Mas os meus pais sempre nos ensinaram que eu e os meus irmãos tinhamos de decidir o que queriamos fazer da vida, ser felizes e viver disso.

O seu pai nunca o tentou levar para o mundo da economia e das finanças?
Não. Eu estudei gestão de marketing mas por auto recreação. Não sabia se fotografia ia funcionar. Ao mesmo tempo aprendi coisas que me são úteis até hoje: ‘ o que é um produto?’ ‘como projetar um produto?’, ‘como falar com um contabilista?’



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