A terceira maior economia da zona euro está mergulhada numa profunda crise de governação e sem uma postura convergente em matéria de política europeia.

Nos anos 80 do século passado, na sequência de uma vasta e profunda atuação do sistema judicial, a Itália viu o seu sistema partidário, herdado dos finais da Segunda Guerra Mundial e estruturado em torno de dois grandes partidos do sistema – a Democracia-Cristã e o Partido Comunista, e em vários outros partidos de pequena dimensão – completamente implodido e desarticulado, culminando uma série de investigações sobre corrupção, raptos, criminalidade económica, ligações à Máfia e um imenso catálogo de outros crimes impunemente associados aos mais diferentes níveis da governação do Estado. Era um sistema partidário viciado, instável, gerador de mais de sessenta governos em menos de meio século, responsável por largos períodos de falta de governo ou de governos interinos ou meramente em exercício de funções.

A intervenção judicial então verificada foi a um ponto tal que, a determinada altura, não faltou quem viesse denunciar a sua extensão temendo a instauração de uma verdadeira “República dos Juízes”, com os titulares do poder judicial a determinarem e condicionarem importantes opções da governação política do Estado. Não faltaram, inclusive, magistrados de renome e relevo a ocupar cargos e funções púbicas em nome de uma operação “Mãos Limpas”, que tanto se propôs combater a criminalidade violenta da Máfia quanto a criminalidade de colarinho branco e a mais conspícua corrupção que estava instalada no aparelho político.

É verdade que a partir da operação “Mãos Limpas”, o sistema político-partidário implodiu; os velhos partidos do sistema ruíram ou, pura e simplesmente, desapareceram. Em seu lugar surgiram novas organizações políticas e emergiram novas personalidades no mundo político – Silvio Berlusconi será, seguramente, o exemplo mais paradigmático dessa nova casta política que substituiu os anciãos políticos do sistema. E novos partidos viram, também, a luz do dia – sendo que, muitos deles, tiveram aparecimento efémero. A Força Itália, a antiga Liga Norte (atualmente apenas “Liga”) e o atual Partido Democrático serão os exemplos sobrantes dessa transformação do sistema político-partidário então verificada. Mais tarde, enfileirando na emergência das correntes populistas europeias com ascendência inorgânica, mas que evoluíram para partidos de afirmação relevante (como, por exemplo, o Podemos em Espanha), Itália foi confrontada com o surgimento do Movimento 5 Estrelas, ideológica e doutrinariamente difícil de qualificar e classificar, com exceção da sua assumida vertente populista.

Ora, as eleições legislativas do passado dia 4 de março acabaram por traduzir um resultado eleitoral que espelhou, plenamente, a irracionalidade e disfuncionalidade do atual sistema político-partidário italiano.

Desde logo quando penalizou de uma forma irremediável Matteo Renzi, o anterior primeiro-ministro, erigido praticamente em responsável por todos os males que afetam a República. É verdade que no exercício da sua função foram vários os erros cometidos, que acabaram por lhe custar a própria função. O menor deles não terá sido a convocatória do referendo constitucional perdido em 2016. O certo é que, em menos de dois anos, Renzi passou de grande esperança do centro-esquerda democrático europeu a responsável por todos os males de que sofre Itália.

Por outro lado, a vitória relativa do Movimento 5 Estrelas abre um período de incerteza e dúvida que, provavelmente, nem a repetição do ato eleitoral permitirá resolver. O Movimento fundado por Beppe Grillo venceu as eleições, com uma posição dúbia em muitas matérias, nomeadamente a postura europeia, mas parece que em termos eleitorais será à direita que se reúnem mais votos na câmara baixa do Parlamento de Roma. Sendo que essa maioria terá pouco mais que uma simples feição aritmética, posto que as divergências programáticas e doutrinárias não garantem a formação de uma frente governamental económica. Uma vez mais, são as questões europeias a estar no centro das divergências e dos desentendimentos. Por alguma razão, aliás, o único partido verdadeiramente europeísta candidato às eleições do passado dia 4 foi o partido liderado pela ex-comissária europeia Ema Bonino, que obteve uma votação meramente residual.

Temos, assim, a terceira maior economia da zona euro mergulhada em profunda crise de governação e sem uma postura convergente em matéria de política europeia, designadamente face ao próprio euro. Numa altura em a Europa da União se prepara para ter de enfrentar os novos desafios emergentes do Brexit (que ainda não dou por adquirido que possa vir a ser uma realidade), em que a aliança franco-alemã parece querer recuperar o protagonismo de motor político da União e em que se aproximam a passos largos as próximas eleições para o Parlamento Europeu, a UE dispensaria uma crise política e governativa numa das suas maiores economias. Para mais numa daquelas que se salvou in extremis de um resgate europeu apenas pela sua imensa dimensão.

Não são, por isso, boas notícias aquelas que nos chegam de Roma. E num espaço europeu cada vez mais interdependente, convém prestarmos a maior e a melhor atenção ao que se vai passando por aquelas bandas. Uma simples constipação em Itália pode provocar graves pneumonias em muitos outros Estados da União e da zona euro. Como país, infelizmente, não nos podemos considerar a salvo dessas eventuais consequências.




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