Isaltino Morais: “Hoje identifico-me mais com as políticas do PS”

Antigo autarca é de novo candidato à câmara de Oeiras, como independente. Em entrevista, explica porque se sente distanciado do PSD e se revê nas políticas de António Costa. Aborda a prisão e o facto de ser ex-condenado: “A marca fica sempre, mas sobre isso não há nada a fazer. O que importa é a minha consciência”.

A prisão é passado, mas continua a tirar-lhe o sono?
É passado. Na altura eu tinha muitos pesadelos, mas era na prisão. E mesmo quando saí, de vez em quando ainda tinha, mas eram sempre com o meu filho. Mas já passou. Para a frente é que é caminho.

E o rótulo e o estigma de ser um ex-condenado?
O que é importante é a minha consciência. A justiça nem sempre é justa. São cometidos erros. Eu sempre clamei a minha inocência. Uns acreditam, outros não acreditam. A marca fica sempre, mas sobre isso não há nada a fazer. O que importa é a minha consciência, que é livre. Sei muito bem aquilo que aconteceu. Tenho a minha consciência tranquilíssima. Nunca, mas nunca, cometi qualquer ato no exercício das minhas funções de que me envergonhe. Pelo contrário. E os cidadãos de Oeiras reconhecem o meu trabalho.

Mas há muitas pessoas para quem o Isaltino não é um exemplo…
As pessoas que são sérias, não criticam os outros se não tiverem provas. Quem é sério não faz juízos de ninguém se não tiver provas muito concretas sobre a desonestidade dos outros.

É viciado em poder?
Não. O poder não existe. Quando uma pessoa pensa no poder pelo poder, é uma visão muito egocêntrica. O que é o poder? O poder é efémero. O poder, numa autarquia, é fazer as pessoas felizes. É ter a capacidade para percepcionar aquilo que é mesmo necessário para as pessoas, para os cidadãos, aquilo que é fundamental para lhes dar conforto. E no fundo o que é que nós todos queremos? É ser felizes.

Faz algum sentido recandidatar-se contra um projeto político que foi o seu e combater contra o seu velho aliado e ‘delfim’, Paulo Vistas?
Não desculpe, eu não tenho nada a ver com o atual presidente da Câmara. O atual presidente da Câmara foi eleito em 2013, com uma lista com o meu nome, mas estes quatro anos já se encarregaram de mostrar que não há, do ponto de vista do projeto político, ideias para o concelho. Não temos nada a ver um com o outro.

Mas o projeto dele não é inspirado no seu? Não são coisas muito parecidas?
Não pode ser, senão eu não era candidato, com certeza. Se eu não sou candidato, é porque os cidadãos não se reveem naquilo que anteveem como projeto futuro para o concelho. São coisas distintas. Aliás, eu nem conheço o projeto do atual presidente da Câmara de Oeiras.

Quem é o seu verdadeiro adversário?
Na verdade, o adversário de qualquer político, e acho que era nisso que todos devíamos bater, é a abstenção. Mas se vamos identificar adversários, vamos ser sérios nessa matéria. Aquele que está mais bem posicionado, talvez seja o Partido Socialista. Por uma razão: porque o Partido Socialista neste momento, com a história da geringonça, está a viver um bom momento em termos políticos. Apesar de, de vez em quando haver uns percalços, mas certo é que as gentes do Partido Socialista estão entusiasmadas. E porque não houve uma atitude do candidato do PSD, no sentido de se posicionar. Mas é compreensível. O PSD também está a passar por uma fase muito difícil ao contrário do PS. E, portanto, não tenho qualquer dúvida de que as próximas eleições, vão ser ganhas por mim, ou pelo Partido Socialista.

E em Lisboa, Fernando Medina tem sido um autarca-modelo?
Não se é um autarca-modelo num ano ou dois, não é? É muito cedo, ainda. O Fernando Medina ainda não foi eleito presidente da Câmara. Sucedeu ao Dr. António Costa e, portanto, depois de ser eleito, e estar legitimado como presidente da Câmara, é que as pessoas poderão dizer se é um autarca-modelo ou não. Mas, numa avaliação absolutamente independente, acho que Lisboa tem melhorado.

A aposta do PSD em Teresa Leal Coelho é para ganhar? Há ideias, apesar do cartaz vazio?
Mas isso não é só o da Teresa Leal Coelho. A maior parte dos cartazes, se reparar, são todos vazios, de qualquer candidato, de qualquer partido. Olhem para os cartazes dos outros candidatos, e tem lá uma frase qualquer: ‘Por Lisboa’ ou ‘Lisboa Sempre’. O que acho é que a Teresa Leal Coelho foi escolhida muito tarde. O PSD cometeu um erro estratégico. Devia ter escolhido o candidato em setembro ou outubro do ano passado, prepará-lo devidamente, mostrava que tinha vontade de ganhar.

É, na sua opinião, um PSD sem rumo e sem ideias?
O PSD não tem uma estratégia, não tem um discurso novo. Mesmo a matriz social-democrata não existe. Hoje o PSD está muito reduzido ao núcleo duro, àqueles militantes que, como os sportinguistas ou benfiquistas mais fanáticos, ganhe ou perca, o clube ganha sempre. O PSD está um bocadinho assim. Mas em termos de impacto junto dos portugueses, ninguém sabe o que é o PSD hoje. Nem do ponto de vista ideológico, nem do ponto de vista de projetos.

A imagem de Passos Coelho está ‘gasta’?
Ele é novo. Não vou dizer que está gasto. Acho é que, neste ciclo, não há lugar para Passos Coelho. Agora, ele pode voltar mais tarde.

E fica até quando?
A nomenclatura atual do PSD, é a de que todos acham que ele está de pedra e cal, e que deve continuar, e que deve ser candidato a primeiro-ministro, e que vai ser primeiro-ministro. Eu acredito que Passos Coelho possa chegar até às eleições legislativas. Até por uma razão: por ausência de alternativa. Porque depois também há aqui uma dose de oportunismo significativa. Ninguém quer avançar nesta fase.

Acha que Passos Coelho já devia ter saído?
Do ponto de vista pessoal, olhando friamente e à distância, teria feito melhor se tivesse feito como Portas, teria saído. Mas isso tem a ver com a natureza das pessoas. Eu acredito que Passos Coelho pensa que está a fazer o melhor, portanto por razões patrióticas, pensou continuar. Até porque ganhou as eleições legislativas. O PSD, com ele, foi o partido mais votado. E nessa medida, é natural que tenha pensado, como pensou, a geringonça vai durar pouco tempo e nós vamos ter oportunidade de voltar.

Também achava que a geringonça não iria funcionar?
Sempre achei que ia funcionar. E enquanto o PSD não mudar de atitude, não tiver uma atitude mais social, com maior preocupação com a vida das pessoas, a geringonça mantém-se. Porque, na realidade, a geringonça foi formada, porque o Bloco de Esquerda e o partido Comunista acharam que o país estava a virar perigosamente à direita. Porque se o PSD fosse igual ao PS, não havia geringonça. Enquanto o PSD não der a volta, o PS está de pedra e cal.

Hoje identifica-se mais com o PS do que com o PSD…
Hoje identifico-me mais com as políticas do PS, do que com a atual perspetiva do PSD. Oeiras sempre teve políticas sociais-democratas, desde que eu fui eleito, desde 1985, e é por isso que Oeiras hoje é um concelho onde existe a classe média mais forte do nosso país e onde a coesão social é mais realizada. Oeiras é o concelho mais seguro da Área Metropolitana de Lisboa. E acho que é isso que os Oeirenses não querem perder.
E isso aplica-se às pessoas.

Identifica-se mais com António Costa do que com Passos Coelho?
Acho que sim, acho que António Costa ouve as pessoas. Engraçado que ele quando estava na Câmara de Lisboa, havia pessoas que criticavam algum distanciamento dele. Eu devo dizer o seguinte, curiosamente gosto mais dele como primeiro-ministro, do que como presidente da Câmara. A que não será alheia, também, a atitude do Presidente da República. Eu acho que eles se identificam muito bem, o Presidente da República e o Costa. O Passos Coelho e o Cavaco Silva estavam bem um para o outro. E eu acho que o Marcelo teve uma influência muito grande na abertura do António Costa. Toda a gente sabe que ele é um político hábil, um negociador, mas no relacionamento com as pessoas, havia quem dissesse que ela era um bocadinho distante e tal. Acho que como primeiro-ministro tem conseguido uma grande proximidade, e isso é bom. Identifico-me muito mais com ele do que com Passos Coelho, como é óbvio.





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