Intromissão de Trump na crise iraniana pode radicalizar o regime

O pano de fundo da crise é, por um lado, a dissensão interna entre os moderados e os radicais e, por outro, a possibilidade de o acordo nuclear vir a ser rasgado. A União Europeia regressou ao silêncio do costume.

Kevin Lamarque/Reuters

Independentemente de se saber quem tem razão – se os que acham que a crise iraniana foi um ato interno espontâneo motivado pelas más condições económicas da população, se uma movimentação instigada a partir de potências externas – a intromissão dos Estados Unidos no conflito, nomeadamente pela diplomacia (via Twitter) do presidente Donald Trump pode levar à radicalização do regime. Num quadro em que, para além da espuma dos dias, está subjacente ao conflito um choque entre os moderados (liderados pelo primeiro-ministro Hassan Rouhani) e os radicais (comandados pelo aiatola Ali Khamenei) – que demonstram há anos tolerarem-se sem verdadeiramente se entenderem – a crise pode acabar com o sonho de abertura do regime que esteve no âmago do acordo nuclear alcançado em julho de 2015 depois de quase 20 meses de árduas negociações.

Em entrevista exclusiva ao Jornal Económico, o professor e investigador em assuntos internacionais da Universidade Portucalense, André Pereira Matos, afirmou que “a ingerência dos Estados Unidos e dos twitters de Donald Trump no conflito é contraproducente” e vai claramente contra as expectativas que o ocidente e em particular a União Europeia, geograficamente mais próxima do conflito, manifestavam face nomeadamente à reeleição de Rouhani para um segundo mandato em maio de 2017.

O agudizar do conflito iraniano interessa diretamente à política externa dos Estados Unidos que, por uma razão difícil de entender – que Matos Pereira diz ser resultado da falta de estratégia e do desconhecimento que caraterizam a postura de Donald Trump – estão interessados em rasgar o acordo nuclear e querem convencer a ONU em regressar à política de sanções contra aquele país do Médio Oriente.

Como era de esperar, os países amigos dos Estados Unidos na região apressaram-se a alinhar com a diplomacia norte-americana, bem visível pelas declarações públicas (via Youtube) do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, que desejou “sucesso [aos manifestantes contra o governo iraniano] na sua nobre busca pela liberdade”.
A tónica desta linha ‘norte-americana’ de análise do que se está a passar no Irão tem sido colocada quase em exclusivo na questão económica. De facto, o país atravessa uma fase de grande desemprego (principalmente jovem), de enorme inflação (apesar de este indicador ter descido dos 45% para os atuais 10%), de corrupção, de falta de alimentos e de medicamentos e de demora em fazer chegar os lucros da venda de petróleo à economia real. Mas, como chamou a atenção André Matos Pereira, sendo este um quadro económico negativo, o facto é que ele era bem pior no momento imediatamente anterior à assinatura do acordo nuclear – precisamente por causa da imposição das sanções por parte da comunidade internacional.

O filho pródigo

Se acaso fosse necessária outra prova das movimentações internacionais em torno da crise iraniana, bastaria chamar à coação o facto de Reza Cyrus Pahlavi – um dos cinco filhos do último Xá da Pérsia, Mohammad Reza Shah Pahlavi, derrubado pela revolução de 1979 – se ter apressado a comentar os últimos acontecimentos no Irão. Exilado nos Estados Unidos e autointitulando-se príncipe imperial do Irão, Reza Pahlavi alinhou também ele pela ‘versão norte-americana’, com a originalidade de não ter recorrido a nenhuma rede social para falar publicamente.

O descendente do último Xá da Pérsia (que foi acusado pelo regime dos aiatolas de ter entregue o império milenar ao ocidente) afirmou que a crise iraniana representa o desembocar lógico de um regime corrupto, que esteve sempre de costas voltadas para o povo e que nunca governou no sentido de o proteger.

Quem regressou ao silêncio do costume, como salientou André Matos Pereira, foi a União Europeia. Com alguma surpresa. É que os 28 representantes das diplomacias agregadas na União tinham conseguido muito recentemente – a propósito da decisão de Donald Trump conceder a figura de capital política de Israel à cidade de Jerusalém – assumir uma só voz perante um acontecimento internacional, dando mostras de que, afinal de contas, é possível que estejam todos der acordo.

Mas o intricado jogo de equilíbrios que está por trás das decisões e das declarações públicas de Federica Mogherini, vice-presidente da Comissão e Alta Representante da União para os Negócios Estrangeiros, não permitiram, desta vez, que a União Europeia assumisse uma posição clara sobre a matéria. O que, na ótica do investigador da Portucalense, não se percebe, até porque a União Europeia empenhou-se de forma decidida (e decisiva) nas negociações que resultaram no acordo nuclear. Por maioria de razão, se esse acordo for agora atirado para o lixo, é toda a União Europeia que fica a perder.

Os próximos dias

É difícil perceber-se para onde vai a crise iraniana. Mas Matos Pereira arrisca que, na medida em que o conflito se mantiver uma questão interna e a repressão não for a única forma de lhe responder, é possível que as coisas voltem ao normal. Mas talvez para isso falte uma coisa: a evidência de que o regime iraniano precisa de ter como uma certeza de que os seus parceiros internacionais – onde os Estados Unidos, por razões óbvias, não estão incluídos – estão apostados em manter os benefícios (para todos) do acordo nuclear.

De qualquer modo, os próximos dias são fundamentais para que se perceba se, internamente, o regime é ou não capaz de convencer os revoltosos de que consegue mudar a direção das principais linhas da economia iraniana.

Artigo publicado na edição digital do Jornal Económico. Assine aqui para ter acesso aos nossos conteúdos em primeira mão.



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