A insustentável voracidade do trabalho

Como contornar o absurdo de vivermos numa sociedade centrada no consumo, mas com uma população forçada a viver com cada vez menos rendimentos e a dar cada vez mais horas de trabalho?

A partir de 1 de janeiro deste ano, passou a existir o direito legal na França de ignorar os e-mails fora do horário de trabalho, numa tentativa de preservar o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional. A verdade é que nunca o desgaste de um trabalhador dependente foi tão grande como hoje, em comparação com as gerações anteriores. Embora as novas tecnologias tenham possibilitado uma conectividade global inédita e a capacidade de acompanhar e resolver problemas estando em qualquer ponto do planeta, o nosso mundo do trabalho ficou bizarramente preso no séc. XIX com a exigência, nos escritórios, de jornadas de 8 a 12 horas diárias de trabalho.

Há uma pressão acrescida no funcionário para ser produtivo, empenhado, rebentar com metas, ser criativo e disponível para quaisquer loucuras, mesmo que não concorde com elas. Sabemos que somos finalmente parte do mundo adulto quando colocam aos nossos ombros a pressão kafkiana de garantir os bons resultados da empresa, e não interessa qual o cargo que desempenhamos. Passamos a gerir os nossos dias em função de horários, tarefas infindáveis e remunerações.

A pior parte chega quando nos apercebemos de que fazemos parte de uma das seguintes fatias da população: 1) temos a sorte de ter um emprego decente, mas somos esmagados sob o excesso e as suas exigências, ou 2) temos a sorte de ter um trabalho, mas sem quaisquer direitos laborais reconhecidos ou progressão de carreira. Superado o choque de descobrirmos 1) ou 2), constatamos que as horas de trabalho sucedem-se e transformam-se em meses e anos e o tempo parece desaparecer por entre as nossas mãos, deixando-nos incapazes de usufruir as coisas boas que podíamos ter se grande parte da nossa vida não fosse dedicada ao trabalho.

Sem nos darmos conta, encerramo-nos numa prisão construída por nós próprios e pelas expectativas de outros. Quando um dia as consequências físicas ou psicológicas nos atingem em cheio, somos empurrados para as margens com um sentimento que não conseguimos sacudir de fracasso. É este o mundo do trabalho que desejamos continuar a alimentar e perpetuar?

A verdade é que poucos políticos (já nem falo de sindicatos) se atrevem a desafiar um sistema tão obsoleto, impotentes perante elevadas taxas de desemprego e a atual precariedade laboral. Ainda nos falta a capacidade ou o arrojo de dar o salto em frente. Que soluções podem o Estado ou as empresas oferecer face à escassez de emprego? Como contornar o absurdo de vivermos numa sociedade centrada no consumo, mas com uma população forçada a viver com cada vez menos rendimentos e a dar cada vez mais horas de trabalho?

Algumas medidas pioneiras como o Rendimento Básico Incondicional (RBI) estão a ser testadas em projetos-piloto no Canadá, Finlândia, Escócia e Holanda, permitindo uma redistribuição equitativa e incondicional de rendimentos públicos a toda a população, libertando-a da necessidade de se sujeitar a trabalho indesejado e insatisfatório. Este pode ser um caminho interessante para as próximas décadas, mas não o único.

Está ao nosso alcance deixar cair uma mentalidade conservadora e cautelosa em relação ao trabalho e começar a refletir num sistema centrado no bem-estar de cada um de nós, e não nas necessidades truculentas do capitalismo. Se encontrarmos uma solução para a questão fundamental do emprego, poderemos então redefinir a nossa sociedade e, quem sabe, libertá-la de um ciclo destrutivo e sem futuro.

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