Grandes líderes, grandes vozes

Alguma vez pensou naquilo que o leva a votar num candidato? Ou naquilo que o faz gostar instantaneamente de alguém que ouve na rádio ou na televisão?

Talvez nunca tenha parado para pensar nos fatores da voz que criam uma impressão positiva ou, por outro lado, criam uma sensação de repulsa. O que será?

Imagine que é um recrutador de uma empresa e está perante três candidatos com potencial e experiências semelhantes. Ao ouvi-los falar, logo nos primeiros instantes, já captou informações implícitas sobre a idade, o género, a nacionalidade, o local de nascimento, o estatuto social, a saúde geral e o grau de competência.  Inconscientemente, já tem uma ideia formada sobre qual deles é o mais apto a ocupar o lugar. Ainda não sabe é explicar.

A cada instante, o seu cérebro (a parte mais primitiva) capta uma fotografia sobre: devo ou não confiar naquela pessoa? Pode ameaçar o meu bem-estar? Acredito nela? É competente? E parte desses fatores deve-se à voz. Fatores como o ritmo, volume, tom e dicção têm um enorme impacto em como a pessoa é percecionada pelos outros a nível inconsciente.

Políticos, líderes empresariais e oradores profissionais são exemplos de pessoas que têm mais atenção à forma como colocam a voz, pois é uma ferramenta central no seu trabalho. Se a voz não estiver adequada às exigências profissionais podem perder oportunidades ou mesmo comprometer as suas funções.

Ao longo da história existiram várias personalidades cuja voz se destacou da multidão por diversos motivos, seja na política, religião ou ciências, seja nos direitos humanos. Líderes como Churchill, Martin Luther King, Margaret Thatcher, Nelson Mandela, Mahatma Gandhi, Rosa Parks e, mais recentemente, o Papa Francisco e Malala Yousafzai são bons exemplos de vozes que, por se fazerem ouvir, tiveram grande impacto na humanidade.

Mas o que é que estes líderes têm em comum? Transmitem os “três Cês”: Confiança, Congruência e Competência. A sua voz não adormecia a audiência, pelo contrário, inspirava-a.

1. Confiança

Para transmitir confiança por vezes existe a falácia de que é preciso usar um tom de voz mais grave, voz mais projetada e bem colocada. Será? Rosa Parks, a mulher que iniciou indiretamente o movimento de direitos de igualdade racial em Montgomery, no Alabama, EUA, apenas disse um firme e gentil “não” ao recusar ceder o seu lugar num autocarro. E esse não – dito de forma não violenta – tornou-se um símbolo de um movimento.

Mahatma Gandhi também não necessitou de falar num volume forte ou agressivo para se fazer ouvir. Outro exemplo de uma voz que transmitia confiança era Churchill, cujos discursos pela rádio, plenos de inflexões de tom e expressividade, se tornaram numa das suas imagens de marca num tempo de incerteza e guerra. A confiança e a esperança que transmitia tinham o efeito de apaziguar milhões de britânicos apreensivos.

No caso de Martin Luther King, eternizado com o discurso “I Have a Dream”, o recurso a pausas estratégicas – pausas de elevada carga emocional com a duração mínima de 3 segundos –, bem como a estratégia da repetição, transmitiram confiança e inspiraram milhares de pessoas a acreditar no seu sonho (e de muitos outros que o seguiam). Um facto curioso é que Luther King não foi necessariamente o promotor das mudanças mais profundas, mas foi a sua voz que ficou para a história.

2. Competência

Vários estudos apontam para que a voz grave seja a mais valorizada no que diz respeito à perceção de competência. A explicação é que quando uma voz transmite uma emoção forte, por exemplo, raiva ou medo, torna-se mais aguda, estridente, nasal, sendo geralmente desagradável a ponto de causar incómodo aos ouvintes. Uma voz grave é um sinal de elevados níveis de testosterona, o que pode significar força física, aspeto muito valorizado em lideranças mais tribais.

É um facto que os homens têm a voz mais grave do que as mulheres por uma questão fisiológica, pois têm a laringe mais larga, mais baixa, e pregas vocais de maior dimensão. São também o género que domina as posições de liderança, seja na política, seja nas empresas. Porque será?

O estudo realizado na “San Diego Duke University Fuqua School of Business”, com uma amostra de 792 CEO revelou-se uma das primeiras tentativas para avaliar se o tom de voz desempenha um papel importante no mercado de trabalho dos executivos de empresas. O tom de voz foi relacionado com 1.500 índices da bolsa, com o total de ativos geridos pelo CEO, a sua remuneração e o tempo de trabalho na empresa atual.

Os resultados mostraram os CEO com vozes mais graves lideram as maiores empresas que, por sua vez, geram mais dinheiro. Especificamente, a análise constatou que uma diminuição no tom de voz de 22,1 Hertz, traduziu-se num crescimento de 330 milhões de euros e, consequentemente, numa maior compensação (140.000€ por ano) e na extensão do mandato de aproximadamente mais 151 dias.

A comparação da voz das mulheres entre 1945 e 1993, revela que o tom diminuiu devido à entrada no mercado de trabalho maioritariamente masculino. As mulheres empenharam-se para alcançar a aceitação numa sociedade dominada por homens e, por isso, podem ter baixado o tom de voz para entrar nesse universo. Aliás, o caso mais famoso é o de Margaret Thatcher, representada no filme “A Dama de Ferro”, que foi aconselhada por Gordon Reece a reduzir a estridência da voz, o que conseguiu através de Coaching Vocal.

3. Congruência

A mensagem de um discurso deve ter conteúdo e acrescentar valor à audiência, caso contrário dificilmente será lembrado. A voz pode ter muitas qualidades, mas terá uma validade de curto prazo, provocando a sensação de “fala, fala, mas não diz nada”. Para ser congruente, um orador deve fazer corresponder a emoção à mensagem. Existem emoções autênticas ou fingidas quando se comunica. E, quem ouve, percebe inconscientemente se a emoção é autêntica ou não. Um bom orador transmite a emoção certa no momento certo: seja ela calma, serenidade ou esperança.

O caso de Malala Yousafzai e de Nelson Mandela são bons exemplo no que diz respeito à congruência da mensagem e emoção correspondente. Eles sofreram realmente na pele o motivo pela qual deram a sua voz. E isso torna a mensagem única, pessoal e tocante.

É também fundamental que o tipo de voz escolhido seja condizente com o conteúdo da mensagem e com a postura corporal. Caso contrário, a “fotografia” capturada nos primeiros segundos em que ouvimos alguém fica imediatamente associada a algo que “não bate certo” e, por isso, gera menos confiança. Logo, menos votos e menos seguidores.

Da próxima vez que falar com alguém, lembre-se: qual é a marca vocal quer deixar?




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