Fusões e aquisições seguem em alta

Operações até julho já igualam valores de 2016. Turismo, finança, infraestruturas e ‘telecoms’ estão entre os setores com maior potencial.

Stefan Wermuth/Reuters

O ano de 2017 está a ser de muito trabalho para as equipas de fusões e aquisições (M&A) dos grandes escritórios de advogados nacionais. Há mais transações, novos investidores no mercado e oportunidades em setores habitualmente mais “calmos”, como os media. Os advogados especializados em M&A ouvidos pelo Jornal Económico apontam o imobiliário, o turismo, a banca e as tecnologias como as áreas com maior potencial para estas operações.

“Os setores mais quentes continuam a ser o turismo, as infraestruturas de transportes já maduras e em operação, as energias eólicas em geral. Mas também os media e telecomunicações vão mexer muito, a banca vai continuar a alienar ativos ‘non core’, os fundos de recuperação vão vender mais e comprar menos. Mas o sector aeronáutico, o ‘oil & gas’, a saúde e os seguros também vão ser objecto de transações”, disse Diogo Perestrelo, sócio da PLMJ.
“Os sectores mais dominantes têm sido o imobiliário, turismo, financeiro, tecnologia, media e telecomunicações. A tendência será a que continuem a ser os sectores com mais potencial para operações de M&A”, defendeu Diogo Leónidas Rocha, sócio da Garrigues. Por sua vez, Jorge Brito Pereira, da Uría Menéndez – Proença de Carvalho, tem mais dificuldade em apontar áreas específicas.

“Não é fácil responder a essa pergunta porque existem razões diversas em concurso. Primeiro, os mercado regulados e o imobiliário foram os primeiros a ser impactados pelo ambiente financeiro de baixas taxas de juro e de aumento de liquidez e não é por isso de estranhar o aquecimento que estes mercados tiveram nos últimos semestres. Segundo, o mercado bancário europeu está sob uma forte pressão regulatória, sendo por isso de esperar que o actual ambiente de reestruturação se mantenha durante algum tempo. Terceiro, várias indústrias estão em processo de consolidação e são por isso muito apetecíveis para M&A”, disse. Brito Pereira concorda que, no caso português, o “aumento do turismo irá incentivar o aumento do investimento nas indústrias que aproveitam directamente esse ‘boom’”.

Valor das operações já é igual ao de todo o ano passado

Segundo o Transactional Track Record, em julho, o mercado português de M&A registou 37 operações, tendo movimentado 12 mil milhões desde o início de 2017. Um valor que representa um crescimento de 240% face ao período homólogo de 2016 e que é igual ao de todo o ano passado.

“Uma maior estabilidade da economia portuguesa tem atraído mais investimento privado, sobretudo estrangeiro. Para além das grandes transações de consolidação de mercado, muitas operações resultam de alienações realizadas por ‘private equity’ e ‘venture capital’, que aproveitam a melhor conjuntura de mercado e o aumento do investimento privado para saírem com retornos desejáveis”, disse Leónidas Rocha.

“Penso que esse aumento resulta do ciclo de crescimento económico – ainda que tímido – que Portugal atravessa, melhor economia mais confiança, mais confiança mais investimento, é o chamado círculo virtuoso”, disse, por sua vez, Diogo Perestrelo. “Mas também resulta de outros factores que têm dado visibilidade ao País: o crescimento do turismo, o regime fiscal para não residentes que tem atraído muitos estrangeiros com elevado poder de compra, a ‘web summit’, a segurança, o clima, a nossa gastronomia e até os nossos vinhos”, concluiu.

Brito Pereira destaca, por sua vez, a importância do facto de as empresas estarem hoje menos endividadas. “O aumento do M&A já se sente há alguns semestres e resulta de várias razões, em particular da redução significativa do custo da dívida, o que tem impacto directo na análise da atractividade dos investimentos e na própria valorização dos mesmos, no regresso a um mercado com forte liquidez, seja porque existiu uma forte desalavancagem da economia com a dívida média líquida das empresas a comprimir-se e tendo agora condições para aumentar, seja porque voltamos a ter investidores com acesso a fontes muito líquidas de financiamento”, disse o sócio da Uría.

Brito Pereira refere ainda a existência de “razões específicas nacionais relacionadas com a confiança dos investidores e com alguma recuperação da economia”.

Os advogados mostram-se otimistas quanto à evolução do mercado nacional, mas destacam a necessidade de assegurar um regime fiscal atrativo e estável. “Se os Governos – este e o próximo – conseguirem estabilizar o nosso regime fiscal sem alterações legislativas constantes e em paralelo criarem uma tendência de redução da carga fiscal, teremos a fórmula certa para captar mais capital estrangeiro para o nosso País”, disse Diogo Perestrelo. No mesmo sentido, Diogo Leónidas defende que “um dos vetores mais importantes na atração do investimento é a estabilidade regulatória, legislativa e sobretudo fiscal”.





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