França de Macron é um mau presságio para Schulz

A afundamento do PS francês, a eleição de Emmanuel Macron para o lugar de François Hollande e os resultados nas eleições regionais na Alemanha complicam a vida para o confronto com Angela Merkel, em setembro.

Há cinco anos, a frente socialista europeia estava perante um cenário de elevado potencial: o socialista francês acabava de ganhar as eleições para a presidência e assumia o papel de líder do grupo de bloqueio às políticas liberais e excessivamente austeras do diretório de Berlim. Era só uma questão de tempo: Hollande seria o anfitrião das políticas da alternativa socialista, agenciaria outros protagonistas (como o italiano Mateo Renzi e, mais tarde, o grego Alexis Tsipras) e ficaria à espera que o SPD alemão arranjasse um candidato que tivesse aspirações legítimas de vir a derrotar a poderosa chanceler.

O SPD fez a sua parte: depois de uma espécie de novela mexicana em que os alemães não costumam ser pródigos, o líder do partido, vice-chanceler e ministro da Economia Sigmar Gabriel, teve a cortesia de se afastar, dando lugar ao ‘furacão’ Martin Schulz, líder dos socialistas da União Europeia e presidente do Parlamento Europeu. As sondagens deram nota da eficácia da escolha: Angela Merkel começou a afundar-se nas intenções de voto, primeiro moderadamente, depois sustentadamente e ainda no final do passado mês de fevereiro mantinha-se no segundo lugar, atrás de Schulz.

Mas os franceses não fizeram a sua parte. François Hollande constatou o que era óbvio: se se apresentasse a um segundo mandato corria o sério risco de ser o primeiro presidente da V República a não conseguir ser reeleito. Os socialistas entraram em regime de novela mexicana em que são tão pródigos e o candidato socialista ‘espalhou-se a todo o comprido’ na primeira volta das presidenciais francesas.

Acabava aqui o sonho de um eixo Paris/Berlim pintado com as cores socialistas e bordejado aqui e ali – Portugal não fazia parte dos planos iniciais, mas era bem-vindo – por camaradas do mesmo regimento.

Em março tudo mudou: Angela Merkel voltou a subir nas intenções de voto e ‘limpou’ as eleições regionais no estado de Sarre, unanimemente consideradas como um barómetro para as eleições nacionais de 24 de setembro. A CDU de Merkel é maioritária na região (que tem pouco mais de um milhão de habitantes) desde 1999, mas viu a sua posição largamente reforçada: atingiu os 40,4%, contra os 35,2% das eleições de 2012, e reforçou o número de mandatos de 19 para 24 lugares. O SPD baixou a percentagem, de 30,6% para 29,6%, mas manteve os mesmos 17 deputados.

Fracos indicadores, portanto, para Martin Schulz – que há umas semanas viu o agora novo presidente francês, Emmanuel Macron, a passear-se por Berlim a convite da própria Angela Merkel, numa demonstração clara de quem é que a chanceler pretende que lhe atenda o telefone quando liga para o Palácio do Eliseu. Refira-se que François Fillon também foi convidado para Berlim, mas isso foi antes de rebentar o escândalo dos favores privados em causa pública em que o gaullista se viu envolvido.

Os outros indicadores

Se acaso o Sarre é de facto um barómetro para setembro – ser ou não ser depende sempre do ponto de vista – vale a pena fixar outros indicadores fornecidos à navegação. Desde logo, o desaparecimento quase completo das esquerdas à esquerda do SPD: o Die Linke desceu dos 16% de 2012 para os 12,9% em março passado – tendo descido de nove para sete mandatos; e os Verdes caíram de 5% para 4,5%, uma queda pequena, mas que fez o partido perder os dois mandatos que tinha no parlamento regional.

Do outro lado do espectro político, a extrema-direita xenófoba concentrada no partido Alternativa para a Alemanha (AfD), que se apresentou este ano pela primeira vez, obteve 6,2% dos votos e conseguiu dois mandatos. O partido Piratas, uma espécie de anarquistas pós-modernos que era suposto terem aberto uma ‘sucursal’ em Portugal mas nunca chegaram a fazê-lo, também desapareceu do parlamento regional (com 0,7%), depois de, em 2012, ter conseguido quatro lugares (7,4%).

Esta semana, o barómetro passou para Schleswig-Holstein e as coisas pioraram ainda mais para Martin Schulz: o ‘seu’ SPD, que governou a região durante os últimos cinco anos, perdeu para a CDU de Merkel (33% contra 26%). Os Verdes conseguiram aguentar e a extrema-direita do AfD vai debutar também neste parlamento regional, dando mostras de poder vir a ser uma força de respeito no Bundestag a partir de 24 de setembro.

Pela frente há agora as eleições regionais da Renânia do Norte-Vestefália – região onde a alternância entre os dois maiores partidos alemães tem sido uma constante e que neste momento é governada por Hannelore Kraft (SPD) – que aí se encontra desde 2010, primeiro em coligação com os Verdes e desde 2012 com maioria absoluta.

Um mau resultado do SPD nesta região – as eleições são no próximo domingo – poderá querer dizer que Martin Schulz terá de refazer as contas. E se assim for, Paris (ou o eixo socialista Paris/Berlim) pode ficar, para ele, muito mais longe que o que previu quando aceitou o desafio de deixar Estrasburgo.

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