“Foi a crise de dívida soberana que afetou os bancos e não o contrário”, defende Faria de Oliveira

"Apesar da sua resiliência bem demonstrada durante a crise financeira global, o setor continha vulnerabilidades, nomeadamente a falta de uma almofada de capital, anticíclica", diz o presidente da APB na entrevista à Inforbanca.

Cristina Bernardo

Em entrevista à Inforbanca o presidente da Associação Portuguesa de Bancos (APB), Fernando Faria de Oliveira diz que “a razão de fundo que explica a situação do sector reside, nos efeitos da crise da dívida soberana, que se seguiu à crise financeira global. Foi a crise da dívida soberana que afectou os bancos e não estes que estiveram na sua génese”.

A crise soberana e a recessão provocaram “uma brutal destruição de capital e da rentabilidade da banca, diz o gestor da associação. Recorde-se que a rentabilidade dos capitais próprios do sector em 2016 foi em média negativo, de menos 8%.

A situação da banca, é, em primeiro lugar, um legado da crise financeira  global, disse Faria de Oliveira na entrevista, ao mesmo tempo que acrescentou às causas os efeitos do ciclo económico como causa da situação da banca  (elevado crédito malparado). A evolução do rácio de crédito malparado demonstra o elevado aumento desde 2010. Nesse ano, em setembro, o crédito em risco das empresas não financeiras pesou 21% do total quando em 2010 esse rácio era de 5,9%.

Na entrevista, o gestor destacou a degradação dos ratings que dificultou o acesso dos bancos ao mercado e aumento do custo do funding.

O contexto não ajudou os bancos, pois o novo quadro regulatório entrou em vigor no pico da crise, disse Faria de Oliveira. “O novo enquadramento regulatório e de supervisão do sector, configurado designadamente através da CRR e CRD IV, muito mais exigente em termos de capital, liquidez e redução do risco – coincidiu com o nosso Programa de Ajustamento Económico e Financeiro e com o período recessivo por que passámos (o PIB caiu 7,2% entre 2010 e 2013). ”

“Os bancos portugueses acabaram por ter de realizar um esforço bem maior para cumprir o novo quadro regulatório, de supervisão e de resolução. Mas vão cumprindo as suas obrigações,  através de um trabalho persistente em clima adverso”, diz Faria de Oliveira na entrevista.

“O ano de 2016 foi um ano muito trabalhoso para o sistema bancário, de limpeza de carteira de crédito com imparidades, e de estabilização da estrutura acionista nalguns bancos”, disse o presidente da APB num encontro com jornalistas.

O presidente da APB acrescenta ainda o reforço de capital de alguns bancos e o pagamento das dívidas ao Estado com o reembolso dos títulos de capital contingente”. “Foi um ano de arrumar a casa, através de provisões para imparidades e o pagamento das dívidas ao Estado”, reforçou. Para 2017, o presidente da APB diz que “já é um ano de recomeço e recuperação por parte do sistema. Há bancos que ainda estão em recuperação mas no geral há condições para a banca recuperar”.

Faria de Oliveira admite que apesar da limpeza ainda há muitos créditos em risco no sistema.

Em relação ao passado, o presidente da APB, disse que apesar da sua resiliência bem demonstrada durante a crise financeira global, o setor continha vulnerabilidades, nomeadamente a falta de uma almofada de capital, anticíclica”, diz o banqueiro na entrevista.

“Existia uma demasiada concentração de crédito em sectores não transacionáveis, nomeadamente no imobiliário e construção civil, dos mais afetados pela recessão com forte peso do crédito à habitação,  cujo stock, com forte descida do indexante Euribor, conduziria a uma queda da margem financeiro” diz à Inforbanca ao mesmo tempo que acrescenta que isso correspondeu a uma transferência de rendimentos dos bancos para as famílias, que beneficiaram da redução das prestações mensais previstas nos contratos”.

O presidente da associação que representa o setor bancário recusou a ideia de que as comissões líquidas do setor estivessem a gerar mais receitas. Num encontro com jornalistas, explicou que “as comissões líquidas do setor bancário caíram 12,6% de 2015 para 2016, passando de 3,1 mil milhões de euros para 2,7 mil milhões de euros”.

“Em Portugal o que aconteceu foi que durante um longuíssimo período a margem financeira dos bancos era suficientemente grande para subsidiar uma atividade que sempre deu prejuízo. Quando esse efeito diminuiu houve necessidade de procurar esta fonte de receita”, diz Faria de Oliveira  que garante que, face ao resto da Europa, as comissões bancárias cobradas são baixas.

(atualizada)

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