Crise dos refugiados: fintar a morte no Mediterrâneo

Doaa Al Zamel, refugiada síria de 19 anos, passou quatro dias e quatro noites sem comer, sentada numa bóia. Viu o noivo desaparecer nas águas, mas resistiu quando lhe entregaram duas crianças para proteger. Hoje vive na Suécia e quer estudar direito.

Antes uma morte rápida no mar do que uma morte lenta no Egipto”. As palavras são de Doaa para o noivo Bassem, após uma primeira detenção pela guarda costeira, quando tentavam escapar do Egipto em direcção à Europa.

A história de Doaa Al Zamel, refugiada síria de 19 anos, poderia ser a de qualquer uma dos cerca de um milhão de refugiados que, em 2015, arriscaram a vida para atravessar o Mediterrâneo com a esperança de alcançar uma vida segura na Europa.

A voz tímida e frágil de Doaa contrasta com a força que teve para sobreviver a quatro dias e quatro noites no mar, sem comer nem beber, após o barco clandestino onde seguia ter sido abalroado por piratas.

Proveniente de Daraa, a maior cidade do sudoeste da Síria, a poucos quilómetros da fronteira com a Jordânia e a sul de Damasco, foi obrigada a fugir com a família quando o conflito no país se intensificou. “Antes da guerra, de certa forma, tinha uma boa vida, não pode ser comparada com a vida depois do conflito”, conta ao Jornal Económico, num hotel em Lisboa, onde esteve para apresentação do livro “Uma esperança mais forte do que o mar”, de Melissa Fleming [Ver Caixa], sobre a sua odisseia.

Antes do agudizar do conflito, a jovem viu-se tentada pela participação em manifestações pacíficas em Daraa. Contra a vontade dos pais, juntou-se a ouros jovens sírios e transformou os protestos em acontecimentos sociais, onde partilhavam aspirações sobre o futuro. Porém, os confrontos entre manifestantes e militares tornaram-se cada vez mais violentos e Doaa viu-se obrigada a desistir. “Nós não tínhamos direitos na Síria, só tínhamos corrupção”.

A fuga da terra natal

Em novembro de 2012, um ano e oito meses após o conflito entre a oposição e as forças militares terem eclodido na Síria, a família decidiu partir para o Egipto, perante uma cidade que se esvaziava a cada dia. Doaa não queria partir. “Abandonar a Síria será como arrancarem-me a alma”, disse a jovem ao pai, enquanto via a terra natal ficar para trás.

Tal como a família Al Azamel, cerca de cinco milhões de sírios viram-se obrigados a abandonar o país em 2015, o que significa um aumento de um milhão de pessoas num ano, segundo o Relatório de Tendências Globais de 2015, do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). Outros 6,5 milhões de sírios deslocaram-se dentro do próprio país em busca de locais mais seguros.

Se a população total de refugiados no mundo – incluindo as diversas nacionalidades – fosse a população de um país, seria a 21ª maior do mundo.

Os países vizinhos são os maiores recetores desta vaga de refugiados, com a Turquia a liderar o destino de escolha da maioria das famílias sírias. No entanto, a família Al Zamel opta por dirigir-se até ao Egipto. É aqui que conhece Bassem, também ele sírio. O jovem de 28 anos que viria a ser noivo de Doaa, até ao início da guerra era dono de um salão de cabeleireiro. Também ele se viu obrigado a abandonar Daraa, mas decidiu juntar-se à oposição e combater pelo Exército Livre da Síria. Acabou detido pelos militares e só conheceu Doaa depois de ser libertado.

As condições de vida no Egipto para os refugiados deterioram-se e Doaa e Bassem, ainda noivos, decidiram enfrentar o Mediterrâneo com o intuito de iniciar uma nova vida na Europa, com a Suécia como destino. “Foi o meu noivo que tratou do processo com os traficantes. Falou com eles e pagou 2500 dólares por cada um de nós para nos levarem”, explica.

A viagem que se seguiu foi tão “dolorosa”, que todas as palavras lhe parecem agora insuficientes. Os dois jovens seguiram a bordo de uma embarcação clandestina, com demasiadas pessoas para o que conseguiria aguentar. A maioria das famílias eram sírias, mas existiam ainda palestinianos oriundos de Gaza e africanos do Sudão e Somália. Tentavam a sorte, tal como mais de um milhão de pessoas que chegaram à Europa de barco, em 2015. Só as crianças constituem 25% das chegadas totais à Grécia, Itália e Espanha, acompanhadas ou separadas das famílias, segundo dados do ACNUR. Cerca de 50% das travessias são provenientes da Síria, seguidas pelo Afeganistão, Iraque, Eritreia, Paquistão e Irão.

Naufrágio no Mediterrâneo

Vivia-se o início de um período negro em que sucessivas embarcações naufragavam durante a travessia. Em 2015, cerca de 3770 pessoas morreram ou foram reportadas como desaparecidas no Mar Mediterrâneo.

O barco onde Doaa e Bassem foi abalroado intencionalmente por um barco de pesca, enquanto piratas arremessavam tábuas de madeiras contra os refugiados e lhe gritavam ofensas. “Foi tudo tão rápido”, recorda. A embarcação clandestina que levava os refugiados acabou por afundar.

Doaa sobreviveu durante quatro dias e quatro noites sentada numa bóia. Foi aqui que acabou por ver o noivo a perder as forças e desaparecer na água. Foi, também, aqui que se agarrou ao que a fez resistir: salvar Malak, uma bebé de nove meses que um avô sem força lhe implorou para salvar. Depois de Malak, uma outra mãe entregou-lhe também Masa, com menos de dois anos.
Durante as horas intermináveis que passou no mar, Doaa viu desaparecer a pouco e pouco centenas de “companheiros de viagem”. A ajuda acabou por chegar quando um petroleiro que navegava em direção a Gibraltar a salvou.

A refugiada vive actualmente na Suécia, onde aprende a língua do país e quer estudar direito. “Gostava de um dia voltar à Síria, no futuro”. Diz que os “refugiados não são números” e que as regras comunitárias acabam por contribuir para perpetuar a visão estatística da opinião pública.



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