Félix Morgado sobre Tomás Correia: “Se for considerado culpado a atitude certa é demitir-se”

"Desde agosto de 2015 o Montepio tem seguido os regulamentos em vigor", diz o presidente do Montepio Geral.

Cristina Bernardo

“Desde agosto de 2015, altura em que esta administração tomou posse, que o Montepio é um banco que tem seguido à risca os regulamentos do supervisor”, é assim que José Félix Morgado responde à TVI quando confrontado com a notícia do Jornal de Negócios de que o Banco de Portugal moveu um processo contra a administração liderada por Tomás Correia por ter, entre outras coisas, financiado o Grupo Espírito Santo numa altura em que já enfrentava dificuldades financeiras evidentes.

“Sempre procurámos cumprir os requisitos”, reforçou ao mesmo tempo que se esquivou a comentar abertamente as investigações em curso à anterior administração do banco em nome do “segredo de justiça”.

O presidente do Montepio escolhido pela Associação mutualista, uma vez que esta detém 100% do banco, disse que o Montepio está a cumprir o plano de recuperação iniciado em agosto de 2015. “Basta olhar para os números”, diz o banqueiro. “O Banco de Portugal já referiu que o novo modelo de negócio reforça a sustentabilidade do Montepio. Até setembro de 2016 o banco reforçou a sua base de capital e a sua liquidez, portanto não precisa de mais capital até ao fim deste ano”, disse, em entrevista à TVI.

“As pessoas podem estar descansadas”, diz o presidente do banco depois de notícias que davam conta de uma corrida aos balcões na sequência das recentes notícias vindas a público da exposição do Montepio a produtos financeiros da Associação Mutualista (que apresenta capitais próprios consolidados negativos de 104 milhões de euros).

O Jornal Sol anunciava no fim de semana que se tinha assistido esta semana a uma corrida aos balcões. Enquanto uns clientes optaram por fechar contas, outros preferiram transformar produtos mutualistas em depósitos a prazo.

Esta entrevista ocorre no dia em que Tomás Correia, em comunicado, diz que “se alguma vez se colocar a possibilidade de transitar em julgado algo a meu desfavor, em qualquer tribunal, por quaisquer actos ilícitos, abdicarei do exercício das minhas funções”, lê-se num comunicado do ex-presidente do banco e atual presidente da Associação mutualista, divulgado à imprensa.

Questionado sobre esta resposta do presidente da associação dona do banco a que preside, José Félix Morgado diz que “se [Tomás Correia] for julgado culpado julgo que se demitirá e essa é a atitude certa”, respaldando esta sua opinião no comunicado enviado às redações pelo seu antecessor na presidência do banco.

Banco de Portugal acusa ex-gestores do Montepio

O então administrador do banco, Tomás Correia (agora presidente da associação mutualista) e oito ex-gestores do Montepio foram acusados pelo Banco de Portugal depois de realizada uma auditoria forense, em 2014, que foi concluída já em abril de 2015. São acusados de várias contra-ordenações graves que passam pela violação das regras de concessão de crédito e de irregularidades a nível do controlo interno, e infracção de normas e limites a partes relacionadas.

Foram aprovadas por Tomás Correia pelo menos duas operações de financiamento que tiveram consequências para a Caixa Económica Montepio Geral (CEMG). O beneficiário foi Paulo Jorge Guilherme, filho do construtor José Guilherme, que obteve o crédito através do Finibanco Angola, para adquirir unidades de participação do Fundo de Participação da CEMG (que sustenta a violação das normas de partes relacionadas).

No caso do financiamento a empresas do Grupo Espírito Santo durante o primeiro semestre de 2014 ocorrem já depois de serem conhecidos os graves problemas das sociedades do universo Espírito Santo.

A caixa económica teve registar imparidades extraordinárias, nas contas desse ano, no valor de 140 milhões de euros, tendo apresentado prejuízos de 187 milhões de euros.

“Não é difícil contextualizar as notícias num momento em que se questiona a separação da Caixa Económica do património que pertence aos Associados da Associação Mutualista. É precisamente para nos batermos contra esse tipo de correntes, que em nada favorecem o bom nome do Montepio e dos trabalhadores e gestores que aqui trabalham, que levarei até ao fim o mandato que me foi confiado, ao serviço de todos os Associados do Montepio”, conclui Tomás Correia no comunicado.

Os gestores foram notificados na primeira semana de março e têm 30 dias para apresentar a sua defesa ao supervisor. Arriscam coimas de 4 milhões e a caixa económica arrisca pagar 10 milhões de euros por contra-ordenações especialmente graves.

 

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