Há que aproveitar as potencialidades do turismo religioso, nomeadamente pela valorização de itinerários, que promovam o aumento da estada média e, de caminho, a curiosidade pelo país.

Há uns anos, pedi a alguns amigos expatriados que fossem a agências de viagens e, de forma tão vaga quanto possível (sem restrições de preço, de época do ano, de tipo de turismo, etc.), dissessem que queriam fazer férias em Portugal e me relatassem o que lhes havia sido proposto. Do Reino Unido chegaram as sugestões de Algarve e Madeira. Expectável. Em Boston, falaram dos Açores. Faz sentido. A surpresa veio de um amigo a viver nas Filipinas: apontaram-lhe Fátima.

Na verdade, eu não deveria ter ficado admirada. Afinal, a religião esteve associada aos primórdios do turismo. No Antigo Egipto, vários festivais religiosos funcionavam como atracção para devotos e não só. Na Grécia da Antiguidade, as pessoas deslocavam-se a eventos em honra dos deuses, de que os Jogos Olímpicos serão o exemplo mais conhecido. Com o declínio do Império Romano, a actividade turística na Europa por mero lazer sofreu um enorme revés e somente o turismo religioso subsistiu, traduzido nas peregrinações à Terra Santa, a Roma e a Santiago de Compostela e, com menor importância, ao Monte Saint-Michel e Cantuária. É assim que surge uma rede de albergues, estabelecimentos inicialmente geridos por mosteiros e abadias, cuja oferta aumentará em número, qualidade e diversidade, dando origem ao sector hoteleiro.

Segundo a Organização Mundial do Turismo, o turismo religioso é um segmento responsável por 600 milhões de viagens feitas por 300 milhões de turistas. Destes, cerca de 6 milhões vão a Fátima. De facto, depois de, nos séculos XVI e XVII, a religião – ou melhor, a Inquisição – ter sido uma das explicações para a ausência de Lisboa (ou qualquer outra cidade portuguesa) no roteiro do Grand Tour, no século XX, a Basílica de Nossa Senhora do Rosário é o centro de uma das mais importantes cidades-santuário da Europa, lugar de turismo religioso de dimensão internacional. Por ocasião da vinda do Papa Bento XVI, a Confederação do Turismo Português estimava que a vertente religiosa representava 10% do total das receitas do turismo. E, no passado fim-de-semana, a vinda do Papa Francisco para o centenário das aparições terá sido provavelmente um dos fenómenos à escala internacional que as projecções do Banco de Portugal referiram ir favorecer o desempenho das exportações de turismo.

Como afirmam Joana Prazeres e Adão Carvalho, o turismo religioso é uma opção estratégica de desenvolvimento para muitos destinos. A secretária de Estado do Turismo parece concordar e disse querer fazer dele uma aposta. Em Fátima, é-o decididamente. Aliás, uma visita ao site da Pordata permite-nos verificar que Ourém está no lote dos municípios com maior intensidade turística. Trata-se de um segmento cujas potencialidades há que aproveitar, nomeadamente pela valorização de itinerários, que promovam a redução da sazonalidade, o aumento da estada média e, de caminho, a curiosidade pelo país. Mas não fiquemos à espera de milagres!

A autora escreve segundo a antiga ortografia.

 

Disclaimer: As opiniões expressas neste artigo são pessoais e vinculam apenas e somente a sua autora.

 

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