Eutanásia sim, mas devagarinho… é mais sustentável

O Estado deve garantir o acesso de todos a um sistema de saúde, mas claramente que a sua falência não ajuda ao objetivo. Ter de escolher entre dois pacientes não é cumprir o papel do Estado.

Há dias na CNBC foi apresentado um relatório intitulado “A revolução do Genoma”, da Goldman Sachs, onde a principal conclusão parece ser o facto de que curar doentes não é um bom negócio.

Foi dado como exemplo o tratamento da Hepatite C, desenvolvido pela Gilead Science, que obteve taxas de cura na ordem dos 90%. O resultado deste sucesso da investigação para a medicina fez com que as receitas da empresa estejam hoje em forte declínio. Depois de atingirem um pico de 12,5 biliões de dólares em 2015, as previsões para 2018 não ultrapassam os 4 biliões de dólares.

Como a hepatite C é uma doença contagiosa, a cura não só elimina os “consumidores” actuais como também futuros, já que os novos casos serão cada vez em menor número. Mas, por chocante que seja pensar no negócio da doença, as empresas que a ela se dedicam têm, objectivamente, de ter resultados para poder continuar o desejável processo de investigação e desenvolvimento.

Até que ponto faz sentido então investigar se depois a solução encontrada prejudica (financeiramente) quem a encontrou? Fará sentido investigar apenas determinadas doenças? Há prioridades entre doenças? Há valores ou valorizações diferentes? A frio até podemos achar que sim, mas certamente que quando alguém que nos é próximo é afectado, as nossas prioridades vêem-se desde logo alteradas.

Ao mesmo tempo, enquanto este estudo está num extremo do problema – em que curar em “unidose” destrói o negócio – no outro extremo estará a eutanásia – que também põe fim a um negócio. Mas a eutanásia deixarei para um próximo texto, porque entre estes dois extremos fica, ainda e também, muita matéria por discutir.

Com a evolução da medicina e dos próprios meios para a praticar, o consequente aumento da esperança média de vida e a eterna escassez de recursos financeiros, é já muitas vezes colocada a questão de como gerir a utilização dos meios ao dispor entre pacientes com realidades e idades tão diferentes.

Imagine-se que só temos uma ressonância magnética disponível – utilizo-a numa criança ou num idoso? Se só tenho uma dose de quimioterapia, utilizo-a numa mulher de 60 anos, sem filhos e cancro do estômago ou antes num homem de 40, com filhos e cancro de pulmão?  Eu, que tento manter uma alimentação saudável, tenho prioridade sobre um obeso? Há diferença entre obesos se na sua base estiverem questões médicas ou puro desleixo? Há diferença entre cancros se o paciente fumar?

Parece-me certo que a longevidade que todos aparentemente desejam, e a escassez de recursos que todos aparentemente recusam, colocará esta discussão, algum dia, sobre a mesa. Mas alguma vez teremos de escolher? Acho que sim. Alguma vez será possível chegar a um consenso? Não. A saúde não tem preço. O problema é que, na realidade, quando “a coisa aperta”, todos acham que a sua, ou dos seus, é mais valiosa que a do outro. E por isso nunca poderemos chegar a tal ponto.

Os custos diários de operação num hospital público em Lisboa ultrapassam o milhão de euros diário. O valor recebido nas taxas moderadoras ronda 1% deste valor. Que tal repensar o Estado, o sistema nacional de saúde, a sua gestão, definir prioridades e novos caminhos a trilhar?

Um dos caminhos será apostar (a sério) na prevenção. Mas quando, por um lado, os ginásios estão sujeitos a uma taxa de IVA de 23% e as mensalidades não têm qualquer direito a dedução em IRS (nem tão pouco o IVA) e, por outro, as medidas mais emblemáticas que o Governo conseguiu anunciar foi a proibição do sal na mesa dos restaurantes e da venda dos croquetes nos hospitais, parece-me que é tudo muito, muito curto.

Por outro lado, será apostar numa efectiva gestão profissional dos hospitais. Que não tem de ser feita por médicos mas por alguém competente para… gerir! Gerir meios e recursos de forma eficiente e eficaz. Com métricas objectivas para avaliar resultados. O Estado deve garantir o acesso de todos a um sistema de saúde, mas claramente que a sua falência não ajuda ao objectivo. Ter de escolher entre dois pacientes não é cumprir o papel do Estado. Listas de espera de anos não é cumprir o papel do Estado.

No ano em que as receitas de impostos atingiram o nível mais elevado desde 1995, com um crescimento que supera a evolução do PIB (Fonte: INE), em que vários profissionais (públicos) mantêm as greves, quando o peso do Estado já é enorme e o primeiro-ministro diz que o pretende aumentar, o desemprego regista valores aparentemente positivos mas que não se sentem na rua e os profissionais de saúde – médicos e enfermeiros – têm sido os que mais alertam para a falência do sistema… O melhor é começar a pensar em motivar o vizinho para deixar de fumar e começar a correr!

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.




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