Euro ou economia: o que vai pesar mais na balança do BCE?

Esta quinta-feira, os governadores do Banco Central Europeu (BCE) reúnem-se para discutir a política monetária da zona euro. Enquanto os analistas ainda não antecipam novidades sobre os estímulos monetários, a valorização da moeda única, a inflação e o crescimento económico serão temas incontornáveis.

Ralph Orlowski/Reuters

Uma moeda que disparou desde o início do ano e uma inflação que se faz difícil de chegar à meta têm sido as principais preocupações do Banco Central Europeu (BCE) nos últimos meses e deverão ser temas centrais na reunião de política monetária desta quinta-feira. Apesar de a instituição liderada por Mario Draghi reafirmar constantemente a robustez da retoma da economia da zona euro, o euro poderá atrasar alterações ao rumo do BCE.

A escalada do euro face ao dólar já atingiu os 13% este ano, com a moeda única a ultrapassar a “barreira psicológica” dos 1,20 dólares na semana passada. O gestor da corretora XTB, João Tenente, explica que quando foram conhecidos dados desapontantes do emprego nos EUA na sexta-feira, “vimos uma tentativa da Europa de controlar a forte desvalorização do dólar”.

Uma fonte do BCE deu a entender que poderia não haver alterações até ao final do ano, devido à valorização do euro. “Nota-se claramente um esforço para controlar a moeda, levando assim a que o euro desvalorize face ao dólar”, diz Tenente.

O banco central tem agendado até ao final do ano o programa de compra de ativos, para estimular a economia da zona euro, a um ritmo de 60 mil milhões de euros por mês. A instituição não vai querer uma retirada abrupta que poderia criar um choque nos mercados e com o fim à vista, a especulação aumenta em relação ao plano de retirada, o chamado tapering.

“Esta forte valorização da moeda única face ao dólar americano estava a criar algum desconforto, devido à perda de competitividade das empresas europeias. Nesta ótica, aguarda-se que a reunião desta quinta-feira não traga nenhuma novidade, esperando-se mesmo que as políticas monetárias permaneçam inalteradas. A única indicação que Mario Draghi poderá dar, é que só mais para o final do ano haverá diretrizes sobre a retirada de estímulos”, acrescenta o gestor.

Estímulos poderão ficar até ao final de 2018

José Lagarto, head of research da Orey iTrade, concorda que o programa de compra de ativos e as taxas de juro de referência deverão manter-se inalteradas. “Apesar de muito se falar sobre a retirada de estímulos ou de um abrandamento nos mesmos,  Mario Draghi deverá manter a habitual mensagem, não oferecendo qualquer dúvida, na continuação do atual programa de compra de ativos até ao final deste ano, como previamente estabelecido”.

No entanto, sublinha que Draghi poderá dar alguma indicação nas entrelinhas. “É expetável que, à semelhança do que aconteceu no ano passado quando reduziu para 60 mil milhões de euros por mês, possa vir a anunciar a criação de «comités para avaliar as opções que garantam uma transição suave» podendo apontar para a próxima reunião em outubro a divulgação dessa mesma avaliação”.

A expressão já foi utilizada anteriormente para sinalizar que a aproximação de mudanças e começar a preparar os mercados. Também os analistas consultados pela agência Reuters acreditam o BCE anuncie uma redução da compra de ativos só em outubro. O consenso entre os 66 economistas entrevistados é que Draghi mantenha o Quantitative Easing até ao final do próximo ano.

“O mercado financeiro irá estar atento às previsões do BCE para a inflação e crescimento económico para a zona euro e a qualquer referência à forte valorização da divisa europeia”, refere Lagarto. “Apesar da última leitura da inflação ter mostrado uma subida, a mesma deveu-se essencialmente ao aumento dos preços da energia, com a inflação subjacente a manter-se inalterada face à anterior leitura”.

Os dados provisórios indicam que a inflação na zona euro tenham acelerado para 1,5% em agosto. O valor fica acima dos 1,3% de julho, mas mesmo assim longe da meta do BCE, de uma inflação próxima, mas abaixo de 2%. Já a inflação subjacente ter-se-á mantido estável em 1,3%.

“A forte valorização registada pela divisa europeia poderá pesar também nas revisões para a inflação, podendo Mario Draghi abordar aqui o tema EUR/USD. É esperado que o BCE possa rever em baixa as previsões para a inflação. Relativamente ao crescimento económico, o banco central deverá manter inalteradas as anteriores projecções”, acrescenta o head of research da Orey iTrade.



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