Especial 2018: as opiniões dos protagonistas (III)

O Jornal Económico pediu a personalidades de diferentes quadrantes da sociedade portuguesa para projetarem as suas expectativas e ambições para o próximo ano. Leia aqui a de João Duque, Salomé Rafael, Elvira Fortunato, Agostinho Pereira de Miranda e Ascenso Simões.

“O arrefecimento que pode fazer diferença”

João Duque, professor universitário

A Economia portuguesa está a crescer maioritariamente à custa da procura externa e por isso os olhos devem ser postos fora e na forma como o exterior nos olha, particularmente a União Europeia para onde exportamos 70% dos produtos e serviços. Daí que espere também o continuar do arrefecimento do crescimento dos indicadores mais relevantes. Recorde-se como estão longe as projeções dos que de modo imaturo e precipitado começaram a projetar um crescimento de 3,5% para a economia portuguesa em 2017! Daí para cá foi sempre a perder gás…
Daí que o arrefecimento esperado para o crescimento europeu e a subida das taxas de juro na zona euro sejam de particular relevo, a par com as alterações nos preços da energia (petróleo). Assim notícias como o Brexit e os seus desenvolvimentos, a evolução da crise catalã e espanhola (25% das nossas exportações são destinadas ao país vizinho) ou outros casos que emerjam na economia e políticas europeias possam fazer a diferença nesta economia frágil com a nossa. Nos restantes casos destaco as relações com Angola que podem disparar pela positiva caso se dissipe o “caso Manuel Vicente”.
Internamente espero um acirrar das greves pois os parceiros de coligação do PS vão querer mostrar diferenças e já perceberam que é na “rua” que o podem fazer. E casos como a Autoeuropa podem ser icónicos para este ano de 2018.

“Trabalhar para o crescimento das exportações”

Salomé Rafael, presidente da NERSANT

Para 2018, o grande desígnio da NERSANT é trabalhar para que as exportações regionais continuem a crescer, de forma consolidada, tal como tem vindo a suceder nos últimos anos. De notar que, entre 2011 e 2016, as exportações regionais aumentaram 23,6%. Continuaremos a dinamizar um dos maiores Encontros de Negócios a nível nacional, o NERSANT Business, cujo impacto medimos recentemente e que permitiu que as empresas que nele participaram tivessem, no seu global, aumentado o volume de exportações em 31% de 2012 para 2016.
Por outro lado, aguardamos com muita necessidade, que sejam efetivamente concretizadas algumas das medidas previstas no Programa Capitalizar, quer no eixo da capitalização de empresas, quer na reestruturação empresarial. Consideramos também de grande necessidade, que sejam concretizadas medidas que respondam às necessidades de financiamento bancário das empresas e em particular das PME.
Em 2018, a Nersant continuará também a trabalhar nos eixos estratégicos que foram identificados até 2020, nomeadamente no apoio à internacionalização e desenvolvimento tecnológico, no empreendedorismo, na cooperação empresarial, na formação e qualificação dos recursos humanos das empresas, na melhoria das condições de financiamento das PME e no reforço da capacidade associativa e dos serviços prestados.
Considerando os grandes desafios que temos pela frente, designadamente a indústria 4.0, economia circular, digitalização da economia e algumas questões ligadas à inovação e transferência de tecnologia, estamos já a desenvolver projetos nessa área, que contemplam, entre outras coisas, a identificação de novas competências necessárias à indústria, benchmarking de boas práticas internacionais e capacitação dos empresários.

“Uma dose redobrada de bom senso”

Elvira Fortunato, cientista

Espero que 2018 seja um ano com uma dose redobrada de bom senso e acima de tudo mais inclusivo, em termos de respeito pelos outros e aceitação das diferenças, globalmente.
Relativamente a Portugal, não vou propriamente falar em perspectivas porque não tenho uma bola de cristal nem dotes de adivinha, mas acima de tudo dos meus desejos e ambições, que estão centrados em duas áreas com as quais tenho mais afinidade: educação e investigação.
Na área da educação gostaria que em 2018 se estimulasse fortemente a não desistência de alunos do ensino secundário e se perpectivasse a mudança de paradigma do ensino, onde o ano é levado, pelo entusiasmo das coisas, a participar e a fazer! De acordo com um estudo recente da OCDE (“Education at a Glance 2017”), 35% dos alunos desiste do ensino secundário sem o finalizar. Este dado é um dos mais elevados dos países que integram o estudo da OCDE, merecendo uma forte reflexão de todos nós: porque será que mais de 1/3 dos alunos desiste?
Gostaria de referir que um país só se desenvolve se tiver uma população cada vez mais qualificada e como tal capaz de intervir nas decisões e no futuro desse país. Isto é, a literacia cultural e científica é relevante, para que as escolhas do que queremos e precisamos, seja participativa e decisiva para a estratégia de futuro, em termos também dos produtos que queremos!
A segunda área tem a ver com a investigação científica, cujo sustentáculo é a educação! E, como todos sabemos bem, sem investimento em ciência e inovação, não vamos criar e inovar e portanto, promover mais crescimento económico e emprego, cujo valor acrescentado é o conhecimento!
Num estudo recente elaborado por um grupo independente de alto nível, nomeado pelo Comissário Carlos Moedas e coordenado por Pascal Lamy, são feitas várias recomendações, sendo que para além do reforço no investimento em ciência e tecnologia, se deve olhar para a resolução de um determinado problema como um todo e não de uma forma fragmentada (por exemplo a cura da doença de Alzheimer ou baterias de elevada eficiência) e aproximar a ciência dos cidadãos com a noção de missão, em que todas as partes envolvidas na cadeia são chamadas a intervir no processo de decisão e solução. Isto é, temos de ter um olhar transdisciplinar das coisas e saber explorar, de forma eficiente, o que de melhor criámos, com a ciência, e os passos gigantes que se dão, quando esta é disruptiva.

Ano de aceleração nacional e internacional

Agostinho Pereira de Miranda, partner da Miranda & Associados

“Aceleração” é a palavra que me ocorre para descrever o que espero para 2018. Seja no plano internacional, seja no nacional, na política, como na economia, vamos assistir – creio – ao crescente aumento da velocidade a que os acontecimentos se sucedem. Há quem, ao estilo anglo-saxónico, lhe chame tipping points. Tudo indica que as condições estão a amadurecer para um salto qualitativo em várias frentes. No Médio Oriente, na Coreia, ou na Ucrânia, poderão ocorrer, já nos próximos doze meses, acontecimentos de impacte crítico nas diferentes relações de forças existentes, há décadas, nessas regiões. O mesmo pode suceder na Europa, onde a debilidade da situação política alemã parece levar a França a acreditar que chegou a hora de liderar o processo de integração continental. Ainda assim, a ordem política mundial vai continuar refém da situação interna nos EUA, onde as crescentes dificuldades do presidente Trump face à investigação do Special Counsel Robert Mueller podem conduzir a uma crise constitucional.
Ninguém sabe ao certo o que se vai passar no domínio da estabilidade económica e financeira globais. Os sinais deixados por 2017 são até encorajadores. Mas, também neste campo, o experimentalismo fiscal norte-americano vai testar, porventura já no próximo ano, a resistência do sistema financeiro internacional. Um eventual aumento drástico do défice poderia fazer disparar a inflação e repercutir-se negativamente sobre as taxas de câmbio e o valor dos ativos financeiros, designadamente na China. Num tal cenário a Europa não teria muitas defesas. E Portugal, nenhumas. O turismo, o imobiliário e uma parte significativa das nossas exportações estão pendurados na precária estabilidade do sistema financeiro internacional. Um pouco como a Geringonça. Qualquer aceleração a desconjuntará.

“Ano da reforma da floresta e de medidas contra a seca”

Ascenso Simões, deputado do PS

O ano que chega será marcado, em Portugal, pela verificação das mudanças do âmbito da reforma da floresta e nas medidas que vierem a ser tomadas para se resolver a seca que nos assola.
Depois dos incêndios florestais deste ano não existirá qualquer folga política quer autorize novas situações de grandes ocorrências. O mesmo acontecerá perante uma realidade em que uma parte do país se veja sujeito a racionamento de água domiciliária ou destinada ás colheitas agrícolas.
Estas duas circunstâncias não desgraduam as restantes que se atravessam na vida desta governação especial. Desde logo a excentricidade do desempenho do presidente da Repúblicas e, depois, a descolagem, inevitável, dos partidos à esquerda antecedendo eleições europeias e legislativas de 2019.
É por isso que o exercício governativo se espraia na relação entre mais rendimentos e menos défice, se contém na linha assumida pelo ministro das finanças agora também presidente do Eurogrupo.
A governação exigente que se consagrou nestes dois anos não permite a energia suficiente para, em alguns setores relevantes da governação, se ir mais longe reganhando a iniciativa política. É aliás por isso, que importaria um reforço do sentido estratégico do governo.
No espaço europeu, com o fim do mandato da Comissão e a situação diferente em que se entrará na governação alemã, mesmo com as propostas arrojadas de Macron, não haverá novas nem se assistirá a qualquer reforma relevante.



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