Especial 2018: as opiniões dos protagonistas (I)

O Jornal Económico pediu a personalidades de diferentes quadrantes da sociedade portuguesa para projetarem as suas expectativas e ambições para o próximo ano. Leia aqui a de João Alves, Pedro Soares dos Santos, José Manuel Bernardo, Sikander Sattar, Daniel Proença de Carvalho e Maria Cândida Rocha e Silva.

“O ano de preservarmos o estado de graça”

João Alves, Country Managing Partner da EY

Em Portugal, entraremos em 2018 com todas as condições para que este seja um ano bom – grande procura do nosso país como destino de eleição (simpático, seguro e belo), exportações de bens transaccionáveis em alta, taxa de desemprego em tendência decrescente, e, muito importante, a economia a crescer e a confiança e consumo da nação em alta. Parte da conjuntura atual deve-se ao bom desempenho do nosso setor privado e parte, como em qualquer economia aberta, deve-se a factores exógenos – ao que chamo o alinhamento das estrelas. Compete-nos a todos preservar este estado de graça: aos privados – continuar a investir na inovação e no desenvolvimento do conhecimento como fator de diferenciação; às forças de trabalho e seus representantes – preservar o ativo da confiança que os investidores depositaram na nossa capacidade e não sucumbir a ideologias míopes e desajustadas aos tempos que correm; ao Estado – resistir às tentações de intervencionismo desnecessário e estrangulamento fiscal das empresas e classe média que já pagam praticamente a totalidade da fatura.
No plano internacional, antecipo uma UE mais coesa e afirmativa, com uma orientação mais determinada e esclarecida. Extra-UE, espero que prevaleça uma postura conciliatória e sensata entre governantes e ainda que consigamos reverter algumas das práticas que estão a destruir o nosso planeta, como os plásticos nos oceanos. Falando em sensatez, ainda não desisti da ideia da reversão do Brexit.
E finalmente, gostava muito de poder ir ao Jamor ver o troféu Jules Rimet em exposição, enfeitado com fitas verdes e encarnadas.

“Indicadores positivos, mas ainda pouco sustentáveis”

Pedro Soares dos Santos, presidente da Jerónimo Martins

2018 será um ano de muita instabilidade e incerteza a nível internacional. As tensões políticas crescentes, nomeadamente na Europa e no Médio Oriente, podem impactar fortemente os mercados e as economias dos países mais expostos à dívida, o que me leva a olhar para o próximo ano com alguma reserva.
Portugal tem vindo a apresentar números que indicam uma retoma do crescimento com a consequente descida do desemprego, o que são indicadores positivos, mas que considero ainda pouco sustentáveis. A ausência de reformas estruturais, o excesso de endividamento das famílias e o desequilíbrio das contas públicas continuam a ser factores de risco para Portugal. É fundamental para a sustentabilidade da nossa economia que sejamos capazes de atrair investimento estrangeiro, através de políticas de médio e longo prazos que deem estabilidade jurídica, fiscal e laboral, e garantam uma justiça célere. Tudo o resto, Portugal tem!

“Perspectivas pouco risonhas, mas com crescimento”

José Manuel Bernardo, presidente da PwC

No plano social e político, antevejo que 2018 seja uma continuação daquilo a que assistimos em 2017, com os ideias nacionalistas e extremistas a fazerem-se sentir pelo mundo, com implicações negativas de longo prazo no plano social e económico, por via de destruição do trabalho de anos na abolição de barreiras ao livre comércio e à livre circulação de pessoas e bens entre diversos países e regiões. Continuaremos a assistir a tensões no médio e no extremo oriente, potenciadas pela recente decisão dos EUA de mudar a localização da sua embaixada em Israel para Jerusalém, pela disputa da posição de referência regional entre a Arábia Saudita e o Irão e pelo comportamento beligerante da Coreia do Norte. Embora do ponto de vista político e social as perspetivas para 2018 não sejam risonhas, tanto mais se pensarmos que também na Europa temos um Brexit em curso, Catalunha e Espanha em ebulição e sérias dificuldades em formar um governo estável na Alemanha, globalmente a economia continuará a crescer a bom ritmo à semelhança de 2017. Este período de crescimento deverá ser aproveitado em particular na Europa, e também em Portugal, para se avançarem com soluções de fundo para resolver os problemas estruturais existentes nos sistemas de proteção social, cada vez mais custosos de manter, no mercado de trabalho e no nosso caso também na redução da dívida pública.

“O desafio de não descurar o equilíbrio das contas públicas”

Sikander Sattar, presidente da KPMG Portugal

Em termos globais continuaremos a assistir ao processo de digitalização das economias, com a disrupção a emergir dos mais variados quadrantes, acelerando o ritmo das transformações. Acredito que poderá ser um ano muito positivo, com um desempenho económico mundial acima do esperado. No entanto, as incertezas no campo geopolítico recomendam alguma ponderação.
Para Portugal, o principal desafio passa por não descurar o equilíbrio das finanças públicas, mantendo a trajectória positiva que tem vindo a apresentar, não só em termos económicos e sociais, como na capacidade de cumprir com os compromissos assumidos internacionalmente, o que tem permitido reforçar a credibilidade junto dos observadores externos.
A atracção de investimento continua a ser fundamental, tal como a convergência e os entendimentos entre stakeholders, para que as empresas que operam a partir de Portugal aproveitem este contexto de transformação para capitalizar as oportunidades de crescimento, internacionalização e valorização das suas marcas. Se assim for, o país estará em melhores condições para atrair e reter os melhores talentos, promovendo uma nova geração de líderes para o futuro.

“Utopias”

Daniel Proença de Carvalho, sócio presidente da Uría Menéndez – Proença de Carvalho

Se a história seguisse lógica e bom senso, 2018 seria um bom ano. Podemos sonhar:
A economia mundial está em recuperação; Trump e Kim Jong-Un, após tratamento psiquiátrico e com a ajuda da China, baixariam o tom bélico, ambos reconheceriam a dimensão da tragédia caso algum deles desencadeasse um ataque; o Reino Unido e a União Europeia encontrariam um acordo de divórcio que preservasse a indispensável cooperação no essencial do projeto europeu; a “química” que parece existir entre Trump e Putin levaria a um acordo global que pusesse termo aos conflitos na Síria e na Ucrânia; na sequência da mudança da embaixada dos EUA para Jerusalém, seguir-se-ia uma ofensiva diplomática que, finalmente, conduzisse ao reconhecimento dos dois Estados com um tratado de paz e cooperação entre ambos. Nas próximas eleições no Brasil, seria eleito um presidente prestigiado, que lideraria uma reforma política que colocasse o País numa rota de estabilidade.
Por cá, as perspetivas também são positivas; a economia cresce, o défice e a dívida pública descem, o turismo continua em bom ritmo, persiste a criação de empregos, o Governo toma medidas sérias para evitar novos trágicos acontecimentos como os que ocorreram em 2017. Não haverá reformas na Justiça, mas neste tema já estamos habituados e conformados.
Claro que sonhar é fácil; a história não segue um rumo lógico e sensato, por isso não me atrevo a prever 2018.

“Ano de aceleração”

Maria Cândida Rocha e Silva, presidente do Banco Carregosa

No Banco Carregosa já se vem tornando hábito todos os anos, em novembro, fazermos uma reflexão sobre o que devemos esperar para o ano seguinte. Com os nossos clientes, oradores convidados e os nossos especialistas debatemos o que podemos esperar, de melhor e pior. Uma das palavras mais usadas este ano foi a “aceleração”. Aceleração tecnológica, aceleração científica, aceleração económica, aceleração dos preços (no mercado de dívida, mas também nalguns mercados de ações), aceleração das taxas de juro… dizia um convidado nosso: “o mundo está muito acelerado, mas muito pouco equilibrado”. Para uma empresa como a nossa, de tradição secular, num sector exposto à grande concorrência tecnológica, o desafio não podia ser maior. As fintech abrem caminhos que não sabemos onde nos levarão. Como serão os bancos no futuro? Quem, para além dos bancos, poderá fazer banca? É grande a curiosidade. A digitalização, a robotização, a inteligência artificial são realidades cada vez mais próximas do nosso quotidiano. Se não podemos ceder tudo à tecnologia, tão pouco a devemos recusar. Falamos de empresas em quem os mercados acreditam mas cujo valor só pode vir do seu potencial. Falamos igualmente de empresas que, por não estarem “na moda” são descuradas por esse mesmo mercado. As alterações que iremos observar nos ajustes necessários entre a cotação e o valor das empresas poderão levar a convulsões no mercado.



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