“Encerramento vai ter um impacto muito violento”: Freguesia da Ajuda teme fecho do balcão da Caixa

Em entrevista exclusiva ao Jornal Económico (JE), que teve lugar na sede da junta e nas ruas da freguesia, Jorge Manuel Marques, presidente da Junta de Freguesia da Ajuda, em Lisboa, mostrou-se indignado com a decisão do banco. Freguesia vai retirar os 3 milhões de euros que tem depositados no banco público.

Jose Manuel Ribeiro/Reuters

O presidente da junta de freguesia da Ajuda, Jorge Manuel Marques revelou que vai transferir para outro banco os 3 milhões de euros que a junta tem depositados na Caixa Geral de Depósitos (CGD), em virtude do encerramento da única agência do banco público já no final deste mês de junho. Em entrevista exclusiva ao Jornal Económico (JE), que teve lugar na sede da junta e nas ruas da freguesia, Jorge Manuel Marques mostrou-se indignado com a decisão do banco, liderado por Paulo Macedo, relatando que os mais de 16 mil habitantes da Ajuda se sentem “abandonados”.

Quando tomou conhecimento do encerramento da agência da CGD na freguesia da Ajuda?

Tomámos conhecimento do encerramento do balcão da CGD no dia 12 de junho e foi um habitante da nossa freguesia, cliente do banco, que nos avisou depois de ter recebido em casa uma carta daquela instituição bancária a anunciar o encerramento da única agência da CGD existente na Ajuda. Fiquei surpreendido porque nós também somos clientes do mesmo banco e nunca fomos avisados da situação. Nas cartas enviadas aos clientes, a CGD também informa que os gestores de conta estão a ser transferidos para a agência do Alto de Santo Amaro, em Lisboa.

A CGD já informou que vai fechar cerca de 70 balcões, a maioria dos quais no final do presente mês de junho. E, em comunicado enviado no passado dia 11 de junho, revela que “foram tidas em consideração questões como as acessibilidades a outras agências da CGD e a mobilidade da população.

Nós compreendemos bem o esforço que a CGD está a fazer para se tornar mais rentável, isto é, para se tornar num banco mais eficiente. E percebemos também que o acordo [com as autoridades europeias, em 2016, relativo à recapitalização] obrigue a uma certa reestruturação. Aliás, eu pessoalmente, prefiro esse acordo a não ter um banco público, cuja presença no sistema financeiro português considero ser essencial. No entanto, depois, é necessário analisar caso a caso, se a medida [de encerrar uma agência] está correcta. E nós, no nosso caso, achamos que a administração do banco equivocou-se. Para os habitantes da nossa freguesia, o encerramento da agência da CGD vai ter um impacto muito violento.

Na sua opinião, por que razão acha que a CGD se equivocou ao tomar a decisão de encerrar o balcão na Ajuda?

Por factores sociais, que a CGD descurou na sua análise, mas também por factores económicos, que consideramos poderem ser geradores de negócio para o balcão da CGD.

À cabeça dos argumentos sociais, eu acho que um banco público tem a obrigação de prosseguir o serviço público, sob pena de se tornar num banco igual a todos os outros. Depois, é preciso ter em atenção que os habitantes da freguesia da Ajuda coabitam num ambiente comunitário que corre o risco de se desfragmentar à medida que se vão deixando de utilizar os vários equipamentos que sustentam a coesão social. Acresce ainda o facto que temos uma população composta em 30% por pessoas com mais de 65 anos que, naturalmente, têm dificuldade de utilizar as novas tecnologias e a banca eletrónica. São pessoas com dificuldades em utilizar o multibanco e são pessoas que têm a sua caderneta e os seus aforros na CGD. A relação que a comunidade tem com a CGD é, por isso, de grande proximidade.

Em relação ao contexto económico, consideramos um erro fechar a única agência da CGD na Ajuda – sendo que, só há outra do BPI. Estamos a passar por um período de transformação da freguesia, com a vinda de jovens e, acima de tudo, de outras pessoas com maior poder de compra, que se vêm instalar aqui. Mas mais: vamos construir um novo centro de saúde muito perto da agência, estamos a finalizar a construção de uma residência universitária com 200 camas e, através da Câmara Municipal de Lisboa, teremos brevemente cerca duas centenas de fogos a preços acessíveis [que irão atrair mais residentes]. Finalmente, como já referi, o encerramento desta agência terá um impacto muito violento na comunidade e nos comerciantes, que têm uma dependência muito grande no balcão ainda existente.

Chegou a falar com alguém da CGD? Alguém lhe explicou os critérios que levaram a esta decisão de encerrar o balcão da Ajuda?

Tivemos uma única reunião com uma diretora do banco, a quem expusemos a nossa situação, e tudo o que nos explicaram foi de forma muito genérica. A única coisa que nos disseram foi que a decisão é complexa e assenta em muitos critérios. Propusemos parcerias com o próprio banco, no sentido de o ajudar a ser rentável. E perguntámos ainda pelo número mínimo de contas novas necessárias para mantermos aqui a agência, mas foi-nos transmitido que já não estão a abrir contas novas. Nós estávamos dispostos a ir para a rua para angariar novos clientes.

Depois da reunião, enviámos um email ao Dr. Paulo Macedo a informar sobre os nossos próximos passos, cuja secretaria apenas acusou o respectivo recebimento. Finalmente, expusemos a situação junto do sr. ministro das finanças, mas não obtivemos respostas.

E que passos são esses, perante a inevitabilidade do encerramento do balcão?

Depois do encerramento, iremos transferir a nossa actividade económica da CGD para outro banco que prefiro não revelar já. Posso dizer que temos depositados na Caixa 3 milhões de euros, dos quais 2,5 milhões estão afectos ao nosso orçamento e os restantes 500 mil euros pertencem ao nosso fundo de aforro, com o qual gerimos problemas de tesouraria. No fundo, faremos o nosso caminho com outro parceiro. Daremos ainda todas as informações necessárias à população para também abandonarem a CGD.

Para além disso vamos ter duas manifestações esta semana, uma das quais vai ocorrer esta sexta-feira em frente à sede da CGD. Com estas manifestações queremos dar voz à população que quer expressar o seu descontentamento. Numa palavra, queremos demonstrar à CGD que lutaremos. Estamos também a recolher assinaturas com objetivo de enviarmos uma petição, em primeira fase, para a Câmara Municipal de Lisboa e, se tivermos assinaturas suficientes, equacionaremos ir à Assembleia da República. Grande parte destas medidas que temos tomado são respostas às solicitações da população.

 

Nota da redação: A CGD não prestou ao JE qualquer comentário relativamente a este tema, tendo remetido todos os esclarecimentos sobre este assunto para o comunicado endereçado à comunicação social a dia 11 de junho de 2018.






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