Em 16 anos os bancos destruíram 35 mil milhões aos acionistas, diz Ulrich

Ao todo os acionistas perderam 35,5 mil milhões de euros com o investimento nos bancos. Já os contribuintes nos mesmos 16 anos perderam na banca 4,4 a 6,4 mil milhões de euros. "Não foram os contribuintes que pagaram a banca", conclui o banqueiro.

Cristina Bernardo

Foi numa reunião informal com a imprensa que o presidente do BPI apresentou, em estudo elaborado pela equipe do banco, a demonstração de que afinal quem tinha pago a limpeza do balanço dos bancos foram os acionistas e não os contribuintes. Este era o recado que Fernando Ulrich trazia ao mercado, para esclarecer aqueles que apregoam que os contribuintes pagaram os problemas da banca.

Essa era a intenção mas o timing da conclusão deste estudo não ajuda ao seu concorrente BCP, que vai amanhã para o mercado tentar angariar capital dos acionistas.

Entre 2001 e 2017, os acionistas dos maiores bancos em Portugal (incluindo o Estado na CGD) viram  seu capital destruído em cerca de 35 mil milhões de euros, o que equivale a 19% do PIB de 2016 “foi uma destruição de capital acionista colossal”, disse o banqueiro.

O que distorceu a concorrência e provocou uma distorção brutal na alocação de recursos da economia, ao ter “custos elevadíssimos em termos de redução do potencial de crescimento da economia e de criação de emprego”, explicou Fernando Ulrich.

O banqueiro defende que o custo suportado pelo Estado e contribuintes foi muito baixo quando comparado com os acionistas e com outros países.

Cinco dos maiores bancos portugueses – BES/Novo Banco, BCP, CGD, Banif e BPN – destruíram cerca de 35 mil milhões de euros em capital injectado pelos seus accionistas entre 2001 e 2017, de acordo com as contas feitas pelo BPI com base em informação pública.

As contas foram feitas já incluindo o aumento de capital do  BCP de 1,332 mil milhões de euros em curso e o aumento de capital anunciado para a CGD que só vai ficar concluído este ano.

O BES/Novo Banco foi quem fez o maior montante de aumentos de capital nos últimos dezasseis anos: 13,111 mil milhões de euros, incluindo 1,948 mil milhões de retransmissão de passivos em dezembro de 2015 e 548,3 milhões do passivo (obrigações) da Oak Finance que ficou no BES mau. Os acionistas nestes anos receberam em dividendos 1,4 mil milhões de euros. Ou seja os acionistas perderam no BES 11,711 mil milhões de euros em 16 anos.

O BCP, que entra amanhã com mais um mega-aumento de capital no mercado (primeiro dia de transação de direitos), pediu aos acionistas 9,405 mil milhões de euros desde 2001, e pagou em dividendos 1,837 mil milhões, o que significa que os acionistas “deram” ao banco 7,568 mil milhões de euros.

A Caixa fez 8,494 mil milhões de euros de aumentos de capital e pagou em dividendos ao Estado 2,183 mil milhões, o que significa que custou aos contribuintes o banco público 6,011 mil milhões de euros em 16 anos.

O desaparecido BPN teve dos acionistas 5,842 mil milhões de euros de reforços de capital e pagou de dividendos 123 milhões (só foi possível apurar os dividendos de 2003), a perda para os acionistas foi de 5,7 mil milhões de euros. Os montantes do BPN incluem as perdas do Estado até dezembro de 2015 apuradas pelo Tribunal de Contas e que incluem a situação líquida negativa actual de 2,2 mil milhões de euros.

O Banif, outro banco que sofreu uma medida de Resolução, pediu aos acionistas 4,713 mil milhões e deu em dividendos 181 milhões, tendo os acionistas do banco perdido 4,533 mil milhões.  Os valores do Banif incluem a injeção do Fundo de Resolução de 489 milhões de euros e a responsabilidade contingente de 746 milhões, bem como os 1,766 mil milhões de injecção pelo Estado.

Ao todo perderam os acionistas 35.524 milhões de euros com os bancos.

O BPI em 16 anos fez aumentos de capital de 853 milhões de euros e deu em dividendos 799 milhões de euros, tendo dado um prejuízo aos acionistas de 54 milhões de euros.

Ao todo os bancos pediram 42,4 mil milhões de euros aos seus acionistas e pagaram 6,8 mil milhões de euros em dividendos.

Quando se compara os aumentos de capital com o valor actual de mercado dos bancos a destruição é também colossal.

Só o BPI tem um valor em bolsa superior aos aumentos de capital que fez (853 milhões versus 1.651 milhões de euros). “Os bancos não são todos iguais”, voltou Fernando Ulrich a dizer e tornou-se já no seu slogan.

Os acionistas perderam 34,754 mil milhões de euros nos bancos.

Para a CGD o BPI fez o cálculo aplicando o Price to Book Value (Trata-se de um rácio que compara o valor em bolsa da empresa com o valor contabilístico dos capitais próprios) do BPI à situação líquida da CGD de Junho de 2016, acrescida do aumento de capital de 1,444 mil milhões, assumindo que os 2,7 mil milhões de aumento de capital em dinheiro, que está previsto, se destinarão à constituição de imparidades.

Esse dinheiro perdido pelos acionistas entrou no sistema e continuou a circular na economia e foi concedido em empréstimos que não se recuperam. Os destinatários desse dinheiro usaram-no de forma pouco produtiva.

Sobre a relação do Estado com os bancos. Ulrich disse que o BPI pagou ao Estado em juros entre 2012 e 2014 um total de 167 milhões e como o dinheiro que foi emprestado ao banco veio do FMI, a diferença entre o preço que o Estado pagou pelo dinheiro (3,3%) e o que recebeu do BPI em juros pelos CoCos foi de 102 milhões.

Os bancos do sistema receberam do Estado em capital 16,026 mil milhões de euros, dos quais perdidos estarão entre 8 e 10 mil milhões de euros. Já os ganhos do Estado com os bancos em comissões, juros e dividendos soma 3,969 mil milhões, o que se traduz numa perda líquida do Estado (contribuintes) com os bancos em 16 anos de 4,4 a 6,4 mil milhões de euros, ou seja 2,4% a 3,5% do PIB num ano.



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