Édouard Philippe: o homem que vai ajudar Macron a transgredir

Nem à direita nem à esquerda, como o próprio Macron. O futuro primeiro-ministro de França já foi de esquerda e também já foi de direita. Agora, é do En Marche.

“A transgressão é superar as regras antigas para criar novas. Se Marine Le Pen, [vencer as presidenciais] vai iniciar uma revolução que não tem nada de romântico. E vão todos pagar um preço, financeiro, económica, político, humano, moral. Se Emmanuel Macron vencer, vai transgredir. Sairá do velho confronto cultural, institucional, confortável, da oposição entre a direita e a esquerda para constituir uma maioria de um novo tipo. É um caminho estreito. E arriscado. É difícil imaginar o famoso ‘sistema’ a permiti-lo.”

O texto acima foi editado a 3 de maio passado no jornal francês “Liberation”, depois de ser escrito por alguém chamado Édouard Philippe, à época presidente da autarquia do Havre. Desde segunda-feira passada, o presidente do Havre ascendeu à condição de primeiro-ministro, a convite do presidente Emmanuel Macron – sendo por isso a principal ‘ferramenta’ do novo inquilino do Palácio do Eliseu para… transgredir.

A transgressão – entendida como alternativa ao potencial destrutivo da revolução (apesar de ter sido a revolução que construiu a França contemporânea) – será a sua primeira função, desde logo porque, como Édouard Philippe escreveu no mesmo jornal em janeiro passado (numa altura em que o PS francês estava a meio das primária que levariam à escolha de Benoît Hamon como candidato) “a França detesta os partidos. Mas a democracia não existe sem eles”.

Philippe terá de governar para lá dos partidos, dado que o novo primeiro-ministro não sabe o que vale o movimento En Marche quando for preciso (nas eleições de junho) transferir o voto em Macron para a Assembleia Nacional, onde estarão também os velhos partidos de sempre. Édouard Philippe conhece-os bem: começou a sua carreira política no Partido Socialista e foi um dos apoiantes de Michel Rocard (um socialista que foi primeiro-ministro de François Miterrand entre 1988 e 1991), antes de rumar para as águas do centro-direita.

Nesse novo enquadramento, acompanhou Alain Juppé (primeiro-ministro de Jacques Chirac entre 1995 e 1997) na criação do UMP – União por um Movimento Popular, de que resultaria, pela sua dissolução, o partido de Nicolas Salkozy, Os Republicanos). Mas acabaria por afastar-se do partido, depois do escândalo dos empregos para a família protagonizado pelo candidato ‘da casa’, François Fillon. Talvez seja esta uma das razões para Macron o ter escolhido: Philippe deixou amigos por todo o lado por onde passou, e é possível que o novo presidente pretenda utilizar a sua agenda, com certeza recheada de números de telefone de socialistas e republicanos – bem necessária para abrir negociações, estabelecer compromissos e balancear uma governação eficaz.

Mas não é só: com os socialistas franceses em plena grande depressão (depois da derrota humilhante de 23 de abril), Os Republicanos (ou mais propriamente os seus eleitores) são a força a aliciar para o En Marche). Mas não será uma via fácil: tanto Os Republicanos (pela voz de Bruno Retailleau, líder do partido no Senado), como a esquerda à esquerda do PS – com o ex-candidato Jean-Luc Mélenchon à frente – já se queixaram de que a escolha só serve para ‘puxar’ votos dos partidos tradicionais para o En Marche (agora Republique En Marche) nas legislativas de junho.

A crítica irá com certeza ‘colher’ pouco: Macron encheu as suas listas de gente nova – que nunca teve nada a ver com política – e mesmo a recusa em aceitar o antigo primeiro-ministro Manuel Valls (porque não cumpria critérios internos por já ter feito três mandatos parlamentares) demonstra que o agrupamento (apesar de ter arranjado um compromisso interessante: não avançar com um candidato no seu círculo) não cede ao eleitoralismo puro e duro.

Seja como for, Macron apostou na surpresa: Édouard Philippe não fazia parte da ‘short list’ de cinco nomes que a imprensa francesa dava como certa para servir de escolha para o cargo de primeiro-ministro. Resta agora saber até onde vai o jogo de cintura do novo chefe do futuro governo: se é capaz de equidistância em relação às forças políticas tradicionais ou se irá ser trucidado no calvário da ingovernabilidade. De qualquer modo, a resposta definitiva a esta dúvida só poderá ser dada quando a França conhecer a composição da sua futura Assembleia da República.