“É difícil” analisar eficácia dos custos do combate à lavagem de dinheiro, alerta investigadora

Hanna Deleanu, da Universidade de Utrecht, esteve na 2ª conferência internacional sobre prevenção e deteção do branqueamento de capitais promovida pelo Observatório Português de Compliance e Regulatório. As estatísticas “não nos dizem se o dinheiro está a ser bem gasto ou não”, defende.

Cristina Bernardo

O Observatório Português de Compliance e Regulatório (OPCR) reuniu-se pela segunda vez para debater a prevenção e a deteção do branqueamento de capitais e do financiamento do terrorismo, numa conferência que contou com o Jornal Económico como media partner.

No painel dedicado aos custos do combate a estas práticas, a investigadora Hanna Deleanu, da Universidade de Utrecht, afirmou que “é muito difícil quantificar a eficácia e perceber o que acontece”, uma vez que há dados em falta e padrões de análise e metodologias diferentes.

A especialista da universidade holandesa tem trabalhado na análise da eficiência nas políticas de combate ao branqueamento de capitais implementadas pelos países europeus durante os últimos anos. Deslocou-se, esta quarta-feira, ao ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa para 2ª conferência internacional do OPCR para perguntar à audiência: “os custos são justificáveis?”.

A seu ver, as estatísticas presentes nos relatórios desta indústria não estão centralizadas e não apresentam uma visão holística, o que acaba por impedir que se faça uma boa comparação. “Não nos dizem se o dinheiro está a ser bem gasto ou não (…). Há riscos em focar a atenção no dinheiro que está a gastar em vez de na eficiência”, explicou.

Para resolver o problema, Hanna Deleanu salientou que se pode utilizar a experiência empírica e testar o sistema de captura aos “bad guys”. A perita internacional aproveitou a viagem a Lisboa para lançar outras sugestões: integrar e sincronizar bases de dados em tempo real, aproveitando as oportunidades como, por exemplo, a blockchain, e estandardizar a conversão da suspeição em ações e provas.

Miguel Trindade Rocha, presidente executivo do Observatório, também lançou propostas para uma melhor adequação do quadro legal europeu ao nacional, nomeadamente fomentar o “diálogo entre o setor financeiro e definir metodologias específicas” para cada segmento de atividade.

“Temos de ter bom senso e ser ponderados. Não é possível aplicar uma lista de mais de 160 indicadores de suspeição. Há tanta coisa em mudança que não é possível pedir a uma organização e a um cliente que cumpra com tudo”, completou, por sua vez, Pedro Lino, da Dif Broker.

Já o académico e senior researcher da Transcrime, Michele Riccardi, acha que “podemos falar da quarta diretiva [do branqueamento de capitais e financiamento do terrorismo] durante décadas”, mas lembra que ainda “há espaço para melhorar a investigação académica nas ferramentas operacionais”.

No mesmo encontro, a partner da Ernst & Young Portugal (EY) Rita Costa disse que, para a situação atual e para o que a próxima diretiva vai exigir, “a formação é essencial”, sobretudo para os mediadores e funcionários dos balcões das agências. “São muito poucas as instituições que monitorizam o beneficiário ao cliente (…). Os bancos e os seguros ainda não incorporaram no seu ADN toda a regulação”, argumentou a sócia da EY, acrescentando que “know your costumer deve ser know your contraparte”.






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