Do sonho ao pesadelo: França tira o sono aos mercados

Da esquerda à direita, há candidatos para todos os gostos e os mercados já decidiram qual é a melhor e a pior opção. No meio, vêem a virtude.

Dos 11 candidatos na primeira volta das eleições presidenciais francesas este domingo quatro são vistos como tendo hipótese a chegar à próxima ronda, um número inédito. Mas não é o número que está a preocupar os mercados, é o facto de metade desse elenco representar os dois extremos do espectro político.

Num calendário eleitoral europeu pleno de incertezas, as eleições gaulesas são a preocupação central. Os mercados antecipam o dia 23 há meses e a panóplia de eventuais reações é tão díspar quanto a diversidade das agendas que podem chegar ao Eliseu. A ameaça Marine Le Pen tem sido vista como um dos fatores de instabilidade este ano com a hipótese de a líder do partido de extrema-direita Frente Nacional vencer. Sendo França a terceira maior economia europeia, o futuro do país tem impacto não só interno, mas em todo o continente.

“A primeira volta das eleições presidenciais em França poderá causar uma volatilidade considerável nos mercados”, anteviu a gestora de ativos BlackRock. “A corrida tornou-se mais renhida a quatro. A incerteza sobre quem vai chegar à fase final é prejudicial para o euro e lançou a yield das bonds francesas a 10 anos para a maior diferença em seis semanas face ao par alemão. Uma surpresa anti-establishment comporta o maior risco existencial para o euro e para a União Europeia”.
As bandeiras de Le Pen têm sido o combate à imigração, o abandono do euro e da União Europeia, bem como o encerramento das fronteiras. Da direita para a esquerda no espectro político, segue-se o conservador François Fillon, que defende menores quotas de imigração e defesa dos trabalhadores. O centrista Emmanuel Macron também se foca na segurança, mas através de mais investimento na defesa e segurança. Já o comunista Jean-Luc Mélenchon é pro-imigração, mas também defende a saída não só do euro, mas também da NATO.

Le Pen e Macron são os candidatos que se têm mantido na liderança nas sondagens desde o início da campanha. Fillon arrancou bem, mas vários escândalos envolvendo uso indevido de poder e dinheiros públicos causaram-lhe um rombo nas preferências dos franceses. Mélenchon experienciou a trajetória contrária e só começou a ser considerado como um forte adversário nas últimas semanas, depois dos debates televisivos.

Extremos assustam mercados
“Se assumirmos uma corrida a quatro neste momento, classificaríamos Macron, Fillon, Mélenchon e Le Pen como do mais para o menos animadores para os mercados”, explica o departamento de research da XTB sobre o impacto da eleições nos mercados financeiros.

“Macron é claramente pró-Europa e impulsionador dos negócios e seria, por isso, o mais positivo para o euro e para os índices bolsistas europeus. Por outro lado, Le Pen é um risco existencial para a UE e a vitória poderia ser prejudicial para o euro e para os mercados acionistas. Fillon pode ser um pouco mais positivo, mas também não é um entusiasta do euro, enquanto Macron e Mélenchon poderão ser negativos devido às propostas económicas populistas”, refere a análise da XTB.

Numa sondagem divulgada esta quinta-feira Le Pen e Macron continuam a liderar as intenções de voto, mas a margem de diferença entre eles aumentou. O centrista, que nunca disputou eleições mas pode ser agora o próximo presidente da França, terá a preferência de 25% dos eleitores contra 23% para a candidata de extrema-direita. O cenário mais provável é, assim, que cheguem os dois à segunda volta.

Caso isso aconteça e com uma diferença mínima nos votos, como as sondagens indicam, não se esperam grandes alterações nos mercados, que se deverão posicionar em modo de espera até à segunda volta a 7 de maio, segundo a XTB. No entanto, se a diferença for de mais do que cinco pontos percentuais a favor de Macron, os mercados irão assumir que o centrista já tem a vitória garantida e as cotações do euro face ao dólar e face ao iene, bem como a bolsa parisiense CAC40 iriam sair beneficiados. No cenário contrário, ou seja, de vantagem para Le Pen, os mercados deverão ficar mais nervosos e a moeda e a bolsa poderão ser logo penalizados.

Tanto Mélenchon como Fillon contam com 19% das intenções de voto, mas um cenário em que um deles passa à segunda volta não está fora de questão. Se a segunda votação for entre Le Pen e Fillon, os mercados poderão tremer com a certeza de que o próximo presidente será de direita, mas as chances são reduzidas.

A combinação Macron e Fillon “é o cenário de sonho para os mercados e poderia ser extremamente positivo para o euro e CAC40, mas também parece muito pouco provável”, refere a XTB. Já o par Le Pen e Mélenchon “é o cenário pesadelo, com a escolha entre a catástrofe económica e o risco de Frexit” e o resultado seria “muito negativo” para os mercados. Fora da equação fica o socialista Benoît Hamon, que começou bem a campanha, mas não passa, agora, além dos 7,5% nas sondagens.

Le Pen não é igual a Frexit
A equipa de research do BiG – Banco de Investimento Global concorda que o maior risco das eleições presidenciais francesas é a possibilidade de Le Pen chegar à presidência, “devido às políticas populistas, anti-imigração e União Europeia/euro”. No entanto, o banco sublinha que mesmo que a líder da Frente Nacional se torne presidente, terá de enfrentar alguns obstáculos para implementar o que promete.

“No cenário de uma vitória de Le Pen na segunda volta, o caminho para Frexit persiste moroso e complexo”, refere o banco. À partida, o primeiro problema será conseguir apoio parlamentar. “A Frente Nacional tem uma presença irrisória no parlamento e os outros partidos não apoiam a saída da UE. Apenas uma vitória da FN nas eleições parlamentares em junho levaria Le Pen a seguir para negociações em Bruxelas com o apoio do seu parlamento”.

Além disso, seria provável que a UE tentasse negociar com a presidente e dificultar o processo ainda antes da realização de um referendo dado que, depois do Brexit, um Frexit poria em risco o projeto europeu. Concebendo que Le Pen ultrapassava todos estes obstáculos, as sondagens indicam que 64% dos franceses não apoia o Frexit, enquanto 53% consideram o euro como positivo para França. “No cenário dificílimo de Le Pen conseguir realizar o referendo e o Frexit vencer, a candidata invocará o artigo 50 e terá que alterar a constituição francesa”, explica o BiG. “Mesmo uma vitória de Le Pen é diferente do cenário Frexit”.



Mais notícias
PUB
PUB
PUB