Do euro para o yuan: o que Portugal precisa para emitir dívida em moeda chinesa

Há interesse dos dois lados, mas para conseguir emitir dívida pública a investidores chineses, Portugal terá de ultrapassar alguns desafios primeiro.

O ministro das Finanças, Mário Centeno, deu pistas este fim de semana de que o Tesouro poderia estar a considerar emitir dívida pública em moeda chinesa e, dois dias depois, o Presidente da República revelou-se agradado com a ideia. A hipótese é possível e a China parece interessada, mas Portugal poderá enfrentar barreiras.

“Além de emitir em euros, Portugal tem dívida emitida em dólares. Emitir em moeda chinesa é a mesma coisa. O que muda é o risco cambial, mas de resto tudo é igual, incluindo o rating”, explica o diretor da gestão de ativos no Banco Carregosa, Filipe Silva sobre a ideia lançada por Centeno.

O ministro das Finanças afirmou que emitir dívida em renminbi (também conhecido por yuan) seria uma forma de alargar a base de investidores e de atrair financiamento para o país, no final de uma visita de três dias à China.

Durante a visita, onde esteve acompanhado pela presidente da Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública (IGCP), Cristina Casalinho, e pelo secretário de Estado do Tesouro, Álvaro Costa Novo, Centeno reuniu-se com responsáveis do banco central e dos principais bancos chineses: ICBC, Bank of China, Agriculture Bank of China e Postal Savings Bank of China.

Interesse na procura acompanha entusiasmo na oferta

O IGCP já emite dívida em euros e em dólares, sendo o procedimento semelhante. “O importante para Portugal é financiar-se a uma taxa interessante e com o volume de capital desejado”, destaca o gestor da corretora XTB, José Correia, que explica que a diversificação do investimento em Portugal pode resultar em juros mais baixos nas colocações.

Mesmo que haja interesse do lado da oferta, tem de haver procura para que a emissão seja bem sucedida. Nesse campo, parecem não existir obstáculos já que a Pequim tem mostrado interesse na internacionalização do renminbi para contrariar a hegemonia do dólar norte-americano.

“Há investidores que não compram dívida emitida em euros ou em dólares, porque não querem estar expostos ao risco cambial dessas moedas”, refere Filipe Silva, do Banco Carregosa. “Há fundos, em yuan, que não querem ter risco cambial e uma forma de o eliminar é, para além de fazer cobertura de risco – que tem custos – é investir apenas em dívida da sua moeda”.

José Correia, da XTB, acrescenta que “o principal interesse para investidores estrangeiros é a facilidade com que podem movimentar os seus recursos, neste caso o renminbi”. A comprar dívida portuguesa na moeda chinesa diminui o foco em fatores como taxas de câmbio, o que torna a movimentação de capital mais flexível e poderá resultar num aumento da procura deste evento.

Rating, défice e Europa podem dificultar os planos

Apesar de parecer que os astros se estão a alinhar para permitir uma emissão de dívida portuguesa em renminbi, há alguns fatores que travam o processo. A realizar-se, Portugal não será pioneiro, mas poderá vir a ser o primeiro país da zona euro a emitir dívida pública em moeda chinesa.

Na Europa, a Polónia já o fez, tendo emitido no verão passado cerca de 452 milhões de euros em obrigações do tesouro para o mercado chinês. No entanto, a moeda do país é o zloty e não o euro, pelo que a posição do Banco Central Europeu não é certa.

“Poderá haver algumas restrições dentro da zona euro, mas depois de a Polónia ter realizado um evento similar, as principais restrições são impostas pelas entidades chinesas que pretendem que Portugal saia do procedimento por défice excessivo para poder obter uma classificação de investimento de baixo risco por parte de uma das principais agências de rating, Moody’s, Fitch e Standard & Poor’s”, explica Correia.

Quanto à saída de Portugal do procedimento por défice excessivo, o Governo prevê que aconteça ainda antes do verão. Nessa altura, Portugal poderá ter melhores perspetivas para uma revisão do rating pelas três principais agências de notação que mantém a dívida portuguesa em nível de ‘lixo’.

“Por outro lado, é necessária uma agilização de processos burocráticos, mas Mário Centeno tem vindo a desenvolver essa parte com as entidades responsáveis para tornar realidade esta forma de financiamento”, acrescenta o gestor.





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