Direita tem de imitar a esquerda se quiser viver

O risco de a direita não querer imitar a esquerda é deixar António Costa no poder durante dois ou três mandatos.

1. A direita tem de entrar nos temas fraturantes da Europa, justiça, desemprego ou minorias, tal como fez a esquerda há 15 anos. Se o não fizer deixa o PS à vontade para uma maioria absoluta, com o PSD encostado às tábuas e o CDS a caber num táxi.

O que está em causa é a capacidade do eleitorado em ouvir algumas verdades simples, que estão à frente dos seus olhos, mas que não quer ouvir e/ou ver. Ainda esta semana o INE fez uma revisão em alta do crescimento do produto, o que é uma excelente notícia, mas a verdade é que o país, logo a generalidade da população, está mais pobre. O défice não inverte, pelo contrário. As obras públicas retomam a progressão e a generalidade do eleitorado aprova. Os estudos feitos por reputados economistas, de que a austeridade foi o remédio errado porque excessivo, ainda criaram mais adeptos de teorias do consumo. Nenhuma destas mensagens entra no ouvido do eleitor comum.

O ex-PR veio a terreiro nestes últimos dias a falar um pouco do mesmo e repetiu o que ninguém queria ouvir, com a agravante de que cometeu o erro de afastar a ideologia das decisões do mundo atual. Cavaco quis ser pragmático e atacar o alvo central, o atual Presidente da República, criticando a verborreia frenética ou a postura pouco institucional de quem vai ao MB pagar as contas. Cavaco está convencido de que quando Marcelo precisar de tomar decisões difíceis não será capaz de o fazer.

É a ideologia misturada com temas fraturantes que poderá cativar o difícil eleitorado do centro-esquerda. E este tem um historial ideológico vincado. O risco de a direita não querer imitar a esquerda é deixar António Costa no poder durante dois ou três mandatos.

2. Tema Autoeuropa. A greve é um direito usado pelos ricos e não nos iludamos com a Alemanha, a França ou o Reino Unido, onde há greves sistemáticas. Nos países ricos este é um direito profusamente usado. Os alemães estão habituados a negociar mas, claro, as economias evoluem e os compromissos nas relações industriais são hoje diferentes e precisam de ser adaptadas. Mais do que os 3% que representa de exportações para o país, a Autoeuropa vai ser o barómetro das forças políticas da geringonça. Já se escreveu que Bloco e PCP estão a mediar forças. Estamos no período pós-Chora, durante o qual a unidade industrial atingiu um nível de competitividade invejável. A história do “banco de horas” foi o benchmark europeu nas relações entre entidades patronais e sindicatos. Talvez hoje seja diferente. O tema não está testado. Aquilo que se percebe é que aquele é um espaço para dois partidos da geringonça medirem forças e posicionarem-se. Uns pensarão que se o PS ganhar as próximas legislativas manda os dois parceiros “à fava” e cada um destes parceiros tem de perceber o que quererá no futuro. O PCP tem estado muito ativo entre a opção de voltar a ser o partido sindical ou o parceiro ativo na geringonça. O Bloco não quer deixar de ser poder. Os equilíbrios estão a ser afinados. O risco está do lado do país.



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