Dez anos depois da crise: três conquistas e três objetivos

Muitas lições foram aprendidas desde agosto de 2007 e, mesmo nos piores momentos da crise, há muitos aspetos a valorizar nas decisões dos líderes mundiais. Por outro lado, passada uma década desde o início da crise, há ainda muito a fazer para manter a economia mundial na sua trajetória ascendente, e para garantir que estamos preparados para enfrentar futuros tumultos.

Uma década depois do início daquela que foi uma das maiores crises financeiras da história, a recuperação começa a ganhar força. Nestes dez anos, várias foram as decisões que ajudaram a atingir a vigente estabilidade, afirma a seguradora COSEC, com base na última análise económica elaborada pela Euler Hermes.

Contudo, há ainda muito trabalho a fazer para se conseguir enfrentar uma futura crise, aponta a seguradora de créditos.

Três conquistas no panorama global

1. Os líderes mundiais conseguiram unir-se e agir de forma concertada: o G20 estabeleceu um padrão para as respostas monetárias e fiscais em situação de crise, uma unidade que se revelou um alicerce fundamental para a recuperação económica mundial. Iniciou-se com o London Summit em 2009 onde os Estados Unidos deram o mote com um contributo de cerca de 931 mil milhões de euros para tentar evitar a depressão global. A partir deste momento, os líderes mundiais tudo fizeram para dar uma resposta global a uma crise também global. O evento seria ainda um importante marco para fortalecer a cooperação mundial de forma a prevenir futuras crises. Certos órgãos internacionais, como é o caso do FMI, foram reformulados no sentido de fornecerem uma melhor rede de segurança financeira, à medida que os seus membros aumentavam a sua capacidade de concessão de crédito e reformavam as suas estruturas governativas.

2. A regulação do setor financeiro foi reforçada: durante este período, foram adotadas importantes mudanças na política macroprudencial, cujo objetivo é “tornar o sistema financeiro resiliente à absorção de riscos, garantindo níveis adequados de intermediação financeira e contribuindo para o crescimento económico sustentável”. Em primeiro lugar, foram estabelecidos para os bancos requisitos de fundos próprios com um rácio mínimo de 4,5% do ‘Common Equity Tier 1’. Em segundo lugar, foi criado um rácio, de 3%, para limitar a alavancagem permitida à banca. Em terceiro lugar, foram revistos os requisitos de liquidez das instituições. Os Acordos de Basileia III e o Regime Solvência II, assim como o Mecanismo Único de Resolução, da EU, foram fruto deste novo paradigma de regulação. Devido a estas mudanças, a atividade bancária é agora muito menos arriscada e mais segura para os consumidores. Nos EUA, a Regra Volcker, que procura limitar investimentos especulativos, a reforma da Lei Dodd-Frank, criada para evitar os excessos do setor financeiro norte-americano, e o Consumer Protection Act permitiram que o setor financeiro contribuísse para a recuperação económica.

3. O mundo aprendeu a pensar mais além: durante este período, foram criados e realizados vários testes de stress e a comunicação financeira quis-se cada vez mais transparente. Os riscos endógenos e de contágio também foram analisados ao detalhe. Esta postura foi especialmente evidente nas reformas que identificaram as Instituições Financeiras de Importância Sistémica (SIFI) e aplicaram uma maior exigência na adequação dos fundos, uma supervisão mais intensa e nas melhores ferramentas para a resolução, incluindo o estabelecimento do Conselho de Estabilidade Financeira na Basileia.

Três objetivos que o mundo ainda tem de alcançar

1. Restabelecer a prevenção multilateral: o G20 tem vindo a perder parte da sua força nos últimos anos, à medida que os riscos aumentam. Desde a dívida elevada à política monetária experimental, passando pelo risco político e pelo protecionismo – incluindo o protecionismo financeiro -, o mundo deve enfrentar estes desafios de forma proativa para evitar um maior afastamento. As entidades multilaterais devem fomentar políticas de coordenação, evitar reformas incompletas, e continuar a promover a utilização responsável das finanças, bem como o seu acesso, mantendo o nível de alerta e preparação para a próxima crise.

2. A regulação deve ser melhorada de forma global: a recuperação no sistema bancário tem ocorrido de forma desequilibrada. Alguns bancos continuam descapitalizados ao mesmo tempo que continuam a existir empréstimos maus. Além disso, a delimitação dos ativos fortaleceu a ligação entre os bancos e os governos. Nos EUA, a regulação financeira poderá ser reforçada numa altura de liquidez sem precedentes, criando novos riscos financeiros. De facto, um impulso de regulação assimétrica poderá criar competição desnecessária, especulação excessiva e comportamentos de elevado risco. Os vazios na regulação são tantos – por exemplo, os bancos sombra, nomeadamente nos mercados emergentes, e as responsabilidades não cobertas nos fundos de pensões públicos – tendo a regulamentação excessiva também promovido o excesso de poupanças e inibido o crescimento dos investimentos.

3. Há que mudar os comportamentos: o stress financeiro é evidente um pouco por todo o lado, seja ao nível da dívida pessoal como ao nível dos mercados das obrigações soberanas, passando pela volatilidade das classes de ativos. A resultante complexidade poderá trazer uma falsa sensação de segurança. Haverá sempre incerteza. A simplicidade, o pensamento crítico e, em parte, a autorregulamentação deverão complementar as mudanças regulamentares.





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