De Viseu a Marte, à boleia da Valkyrie

Um jovem programador português está na Escócia a desenvolver o software para a robot humanóide, que vai ajudar os humanos a instalarem-se em Marte.

Mafalda Falcão

Pesa 136 quilos e mede um metro e 80 centímetros de altura; chama-se “Valkyrie” e foi-lhe atribuído o sexo feminino;é, por isso, uma robot e está na Universidade de Edinburgh a ser programada por um português de 22 anos, para seguir para Marte, em apoio dos humanos.

Henrique Ferrolho, viseense, é aluno da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) é o programador. Frequenta o mestrado integrado em Engenharia Informática e de Computação e decidiu estudar no estrangeiro ao abrigo do programa ERASMUS+.

Em Setembro, aterrou em Edinburgh, cidade escocesa, para estudar na School of Informatics. E… por aí ficou, até hoje.

“Não estava à espera do convite. No final da cadeira de robótica, convidaram-me para ficar, por ter mostrado potencial, e foi também uma forma de me pôr à prova”, conta.
Ironicamente, nunca tinha pensado em trabalhar na área da robótica, que é a área profissional do pai.

“O meu mestrado é mais direcionado para a área da engenharia de software e o fluxo de saídas profissionais mais comum não é a área da robótica”, diz.

Foi convidado a fazer a tese de mestrado na Escócia, para trabalhar num robot da NASA. Só há quatro no mundo: um no Massachusetts Institute of Technology (MIT), em Cambridge, Massachusetts; um na universidade de Northeastern, em Boston; outro nas instalações da NASA e o outro está no Edinburgh Center for Robotics. Cada robot semelhante à “Valkyrie” custa cerca de 2 milhões de dólares.

A NASA e as universidades estão a trabalhar em conjunto para melhorar as capacidades do robot. A agência de exploração espacial construiu o “esqueleto” do robot, mas são os alunos de doutoramento e os investigadores do centro quem está a escrever o código que vai permitir que a “Valkyrie” construa estruturas para os humanos, em Marte. A versão final da “Valkyrie” deve estar pronta entre 2020 e 2030, uma visão optimista, segundo Henrique. “Mas estamos a trabalhar todos os dias para que isso seja possível”, afirma.

Mais recentemente, o português recebeu outra boa notícia: além de ser um dos poucos sortudos a trabalhar num robot de 2 milhões de dólares para uma missão marciana, conseguiu a única vaga de doutoramento em robótica na Universidade de Edinburgh para estudantes europeus – há quatro vagas, mas essas estão reservadas para estudantes do Reino Unido. A bolsa vai permitir que Henrique fique isento de propinas e receba cerca de 65 mil euros de financiamento para os próximos quatro anos.

“Pelo menos durante os próximos quatro anos vou focar-me neste robot para a minha tese de doutoramento”, afirma.

Antes disso, volta para Portugal em maio – “Para me focar em escrever o documento da minha tese de mestrado e, também, para ir à minha última queima das fitas, este ano como finalista“, diz, rindo. Depois, em Setembro, volta para Edinburgh: “Para começar a próxima fase da minha vida académica, que é o doutoramento”, explica.

Os alunos das várias faculdades que trabalham neste projeto estão, também, a reportar vários erros ou funções que podem ser melhoradas no hardware, além de programarem o melhor código possível para a “Valkyrie”. Ou seja, avaliam o corpo da robot construída pela NASA, olhando para aspetos como as articulações dos joelhos, calcanhares, etc.

Uma das perguntas que fazem muitas vezes às pessoas que estão a trabalhar neste projeto é “porquê um robot humanóide?”. A resposta é bastante simples, “a versão final da ‘Valkyrie’ vai para Marte construir estruturas para os humanos, então, é importante que o robot desempenhe as funções da mesma maneira que nós o fazemos; as mesas, cadeiras, as casas são estruturas que estão feitas à nossa medida, então queremos recriar isso, mas tirando partido das capacidades que os robots têm, claro”, explica.