DBRS: após melhoria face há um ano, os fatores de risco para Portugal são externos

Em entrevista ao Jornal Económico, a co-diretora de ratings soberanos da DBRS diz que a longa maturidade média da dívida portuguesa oferece uma almofada no caso de uma subida nas taxas de juro e o fim dos estímulos do BCE. O país está mais exposto a alterações na conjuntura internacional como choques políticos na Europa ou nos EUA.

O nível elevado de endividamento de Portugal continua a representar um fator de vulnerabilidade, mas os principais riscos para o país neste momento são externos, referiu Nichola James, co-diretora de ratings soberanos da DBRS, em entrevista telefónica ao Jornal Económico.

A agência canadiana manteve hoje a notação da dívida portuguesa acima de lixo, no nível BBB(low) e a perspetiva estável. A decisão já era esperada e significa que a agência canadiana, que colocou o rating de Portugal neste nível em 2012, continua a ser a única das quatro principais a avaliar a República acima do patamar de ‘lixo’.

Nichola James salientou que o quadro económico na Europa beneficia Portugal e que o Governo, apesar de minoritário, está a implementar as medidas corretas. “Há uma retoma cíclica na Europa neste momento e isso naturalmente beneficia as receitas fiscais, isso é algo que não estava a acontecer nesta altura do ano passado”, referiu, salientando que “desde que não haja um desvio material, a expetativa é que a situação (em Portugal) se mantenha”.

Nos próximos meses há novas avaliações e o Governo espera que uma das outras três agências – a Moody’s, a Fitch e a Standard & Poors – coloque Portugal no mesmo nível da DBRS, ou seja, promovam a notação para grau de investimento.

Questionada sobre os riscos que Portugal enfrenta, James apontou para o stock de dívida do país, mas explicou que há fatores atenuantes, nomeadamente a longa maturidade média da dívida. Tendo isso em conta, James vê que “os principais riscos vêm do ambiente externo”.

“Contamos que um acelerar da recuperação global na indústria e no comércio vá beneficiar a Europa e Portugal, mas caso haja qualquer tipo de ventos desfavoráveis no campo político na Europa ou qualquer desvio na expetativa sobre o curso das políticas nos EUA, isso poderá tornar os mercados financeiros na Europa mais voláteis. Devido ao stock de dívida elevado, Portugal é um país exposto a aumentos nas taxas de juro”.

Em relação à questão do tapering pelo BCE, ou seja, da redução gradual do programa de compra de ativos, James realçou que o banco central já está a reduzir as compras. “O começo já aconteceu. Fizemos uma análise de sustentabilidade da dívida, olhando para o impacto de taxas de juro mais altas, e por causa da maturidade média da dívida (que é de oito anos em Portugal), qualquer tipo de aumento de taxas de juro no curto prazo é dispersado e, portanto, o impacto para o país será gradual”, explicou.

Alertou que se houver um período prolongado de taxas de juro altas e Portugal não estiver a beneficiar de um crescimento ao mesmo nível que os outros países na Europa, “isso poderia afetar negativamente as dinâmicas de dívida e isso pode ser mais preocupante, mas acreditamos que Portugal tem uma almofada na maturidade da dívida e que poderia resistir ao fim dos estímulos do BCE”.

Apesar do otimismo, ainda há caminho por percorrer. Nichola James explicou que após os progressos das reformas estruturais que aconteceram durante os anos da troika, o Governo tem agora a tarefa de implementar e acelerar reformas muito difíceis. “Há a reforma do quadro orçamental, para melhorar a coleta fiscal e o controlo da despesa – o Governo iniciou este processo, mas o progresso é inevitavelmente lento”. Salientou ainda outros desafios como a redução do desemprego de longo prazo, e completar da tarefa de melhorar a saúde do setor financeiro.

“Em todos estes aspectos, o Governo está a avançar, mas é muito difícil, não só para Portugal, mas para muito países”, disse.





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