A atuação de Costa, no caso do Panteão Nacional como noutros casos, vem revelar uma grave deriva do primeiro-ministro em direção ao populismo.

Há um ano atrás escrevíamos que António Costa era um político astuto, um verdadeiro discípulo de Harry Houdini, o célebre mágico, capaz de fazer uso dos maiores truques que é possível imaginar, conseguindo alcançar o impensável.

Um ano passou e Costa continua a mostrar a sua habilidade política, sendo capaz de rivalizar com o maior dos profetas e com o mais virtuoso dos feiticeiros, multiplicando, qual Jesus Cristo, pães e peixes.

Tendo sobrevivido incólume à tragédia dos incêndios que este verão assolaram Portugal, matando mais de 100 pessoas e afetando moral e materialmente milhares de famílias, numa clara demonstração de uma total ausência de coordenação e de meios que se esperaria pudesse manchar decisivamente a imagem do primeiro-ministro e do seu Governo, Costa aproveita todo e qualquer incidente para desferir sucessivas estocadas nos seus antecessores, culpabilizando-os de todos os males que se verificam e recolhendo o mérito por todos os sucessos que acontecem no nosso país.

Veja-se o que se passou recentemente com o célebre caso do Panteão Nacional, utilizado pelos organizadores da Web Summit para aí realizar um jantar na companhia de alguns dos “nossos” mais notáveis, como os escritores Almeida Garrett, Guerra Junqueiro, Aquilino Ribeiro, João de Deus e Sofia de Mello Breyner Andresen, os antigos presidentes Manuel de Arriaga, Óscar Carmona, Sidónio Pais e Teófilo Braga, o militar e político Humberto Delgado, a fadista Amália Rodrigues e o futebolista Eusébio da Silva Ferreira.

Usado há mais de uma década para a realização de jantares e outros eventos, o Despacho n.º 8356/2014, de 24 de junho, adotado pelo governo de Passos Coelho, limitou-se a regulamentar a utilização dos espaços sob tutela da Direção Geral do Património Cultural, sendo certo que, a acreditar nos dados da DGPC, já se realizaram dez jantares no Corpo Central do Panteão nos últimos 15 anos.

Durante muito tempo, os eventos passaram despercebidos, só vindo a ganhar mediatismo por intermédio de Paddy Cosgrave e seus amigos que, recorrendo às redes sociais, transformaram o mais famoso dos mausoléus portugueses numa questão politicamente delicada, pela pena (teclado) do Embaixador Seixas da Costa. O diplomata português, utilizando a sua página de Facebook, publicou o seguinte texto, que rapidamente se tornou viral: “Acham mesmo normal que o jantar final da Web Summit tenha sido entre os túmulos do Panteão Nacional?”.

Sem perder tempo, Costa apercebeu-se da oportunidade para dar mais uma bicada no anterior executivo e enviou uma nota às redações na qual referia que “a utilização do Panteão Nacional para eventos festivos é absolutamente indigna do respeito devido à memória dos que aí honramos”. E, atirando a culpa para os seus antecessores, afirmava que “apesar de enquadrado legalmente, através de despacho proferido pelo anterior governo, é ofensivo utilizar deste modo um monumento nacional com as características e particularidades do Panteão Nacional. Tal como já foi divulgado pelo Ministério da Cultura, o Governo procederá à alteração do referido despacho”.

Na ânsia de culpabilizar o anterior executivo e daí retirar dividendos políticos, o primeiro-ministro parece ter-se esquecido de que a decisão de autorizar o malfadado jantar pertenceu a um organismo tutelado pelo Ministério da Cultura, pelo que, em última instância, a responsabilidade pertence ao Governo de Costa e não ao de Passos.

Não mencionou, para além disso, que ainda recentemente (há menos de um mês), a NAV (empresa pública de serviços de tráfego aéreo), realizou, no mesmo local, um jantar em tudo idêntico ao da Founders Summit, exceção feita ao evidente menor mediatismo do primeiro, que, assim, não pôde ser utilizado como arma de arremesso político por António Costa.

Mais preocupado em instrumentalizar politicamente a situação do que em preservar a memória dos “Nossos Grandes”, o primeiro-ministro viu o tiro sair-lhe pela culatra, ao fazer com que os portugueses se apercebessem que o seu derradeiro objetivo consistiu em denegrir a imagem do anterior secretário de Estado da Cultura e do governo a que o mesmo pertencia.

Se é aceitável que, como defende o Bloco de Esquerda, se advogue a inadmissibilidade de utilizar monumentos nacionais para “arrecadar receita”, “mercantilizando-se espaços que não podem ser mercantilizados”, numa prática tributária, segundo os mesmos, do mais baixo capitalismo selvagem, já a desresponsabilização constante a que recorre o primeiro-ministro quando as coisas não lhe correm de feição parece estar a atingir os limites do insustentável.

Vergonhoso não é, em nosso entender, poderem ser usados monumentos para a realização de atividades privadas, pagando os operadores que recorrem a estes espaços um valor pela sua utilização, apesar de se defender que as autorizações devem sempre atender à natureza do monumento e das atividades que aí se pretendam realizar. Intolerável é que muitos dos nossos monumentos estejam praticamente entregues ao abandono, a necessitar de intervenções urgentes e de uma política de difusão que os torne atrativos para nacionais e estrangeiros.

A atuação de Costa, neste como noutros casos, vem revelar uma grave deriva do primeiro-ministro em direção ao populismo. Mais do que habilidoso, Costa está perigosamente a resvalar para a demagogia, sendo capaz de manipular e de utilizar argumentos falaciosos em proveito próprio. Como diriam os compatriotas de Paddy Cosgrave, “shame on you Mr. António Costa”.



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