Da Banalidade: Violência, Democracia e Política

A violência vende. Vende para os meios de comunicação social, obrigados a sobreviver, e vende para os políticos em geral.

Não é pouco comum ouvirmos aqui e ali, ou mesmo pensarmos, que hoje em dia a violência é muito maior do que aquilo que era antes. Sendo este “antes” algo abstracto e cujos contornos temos algumas dificuldades em estabelecer. Mas esta nossa percepção é, maioritariamente, isso mesmo, uma percepção. Assim, a mesma é difícil de provar. Será que o que quase todos nós consideramos verdade absoluta – hoje em dia, o mundo é muito mais violento – é, de facto, verdade?

Não há evidência empírica, quanto muito a que existe vai na direcção oposta. Casos com dados recolhidos têm resultados muito díspares do senso comum. Situação diversa é a que conta como os meios de comunicação social reportam a realidade e sobretudo as situações de violência: a violência vende. Vende para os meios de comunicação social, obrigados a sobreviver, e vende para os políticos em geral (sobretudo se estão em campanha eleitoral e a tentar conquistar algum “lugar ao sol”).

Os episódios de violência invadem-nos por vários meios, com os crimes relatados pelos jornais diários e pelas notícias apresentadas na TV, desde o indivíduo que matou o vizinho, a mulher, a filha, etc., até às questões do armamento civil em países como os EUA, ao terrorismo – já não confinado a fronteiras antigas mas atingindo o chamado Ocidente –, à política levada ao extremo do conflito, muitas vezes de características étnicas, até ao confronto mais ou menos ético entre opositores políticos nas redes sociais através dos seus apoiantes, só para referir alguns exemplos. A violência parece espalhar-se e com isso transformar-se em algo banal. É perigoso e vários estudos têm-no demonstrado.

Mais. Quando há prova empírica e recente a demonstrar que actos de violência extrema, como as acções de diferentes tipos de terroristas, têm um nível e contágio, isto é, quanto maior a cobertura mediática de uma certa acção violenta (e não só cobertura mediática, mas a partilha nas redes sociais, etc.) maior a probabilidade de outros ataques do género ocorrerem, talvez devamos pensar (eu incluída) no que andamos a partilhar e a ler. Estes dados deixam-nos com dúvidas sobre o que é a liberdade de expressão e ao facto de sentimentos como a tristeza e a indignação, e de se dar atenção a um dado evento, poder contribuir para que haja um incentivo, ainda que indirecto, à sua repetição.

Na actualidade, a par do alegado aumento da violência, surge a ideia de descrédito da Democracia e dos valores democráticos. Esta descredibilização ocorre, especialmente, nos jovens “menos habituados ao jogo democrático”. Todavia, esta leitura parece ser incorrecta – é a mais fácil de fazer, mas é também precipitada. Uma recente investigação nas Ciências Sociais demonstrou que os jovens não estão menos interessados na Democracia. Estão interessados, mas de uma maneira diferente da que era mais comum nas gerações anteriores. Ora, se este não é um problema geracional, o que se passa? Como é que a violência prospera e acaba por ser aceite no dia-a-dia? O que é que nos traz essa banalização?

Não tenho respostas absolutas e não há aqui “lobos vestidos de cordeiros”. É muito mais complexo do que isso. Diria que o papel dos meios de comunicação e dos políticos (ou da política), do vale tudo, e do “atirar para os ombros dos outros” responsabilidades que são suas não ajudam, em nada. Mas posso estar enganada.

A autora escreve segundo a antiga ortografia.



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