“Da Amazónia às Malvinas”: um livro político e corajoso

“Não tínhamos lido Walter Benjamin, mas submetíamo-nos a uma metafísica da presença, deslocando-nos no espaço com vontade de fazer outra viagem, paralela, pela História da América. Por isso, a nossa viagem cumpria uma função utópica."

Marta Teives

Beatriz Sarlo é um grande nome das letras argentinas. Nascida em 1942, esta professora, crítica literária e escritora, uma das maiores vozes dissidentes durante a ditadura militar, foi cofundadora da revista “Punto de Vista”, que dirigiu durante 30 anos, entre 1978 e 2008, e estava inédita em Portugal até à recentíssima publicação pela Tinta da China da obra “Da Amazónia às Malvinas”, na qual recorda viagens feitas na América do Sul nos anos 1960 e 1970.

Com pouco mais de 20 anos, Beatriz Sarlo e alguns amigos procuravam a essência latino-americana numa época de fortes convicções políticas – passa na Bolívia pouco antes de Che Guevara chegar para fazer a revolução. Escrito vários anos depois, este livro é, para além de um relato de viagens, uma reflexão sobre o ato de viajar. Mas é também uma forma de olhar para o passado e prestar contas, sobretudo a si própria. Por exemplo, quando recorda o tempo que passou numa aldeia de índios, algures na fronteira entre o Peru e o Equador – países que estavam, na altura, em guerra –, sem saber absolutamente nada sobre eles, lacuna que só viria a colmatar anos mais tarde quando a convidam para leccionar nos EUA e procura, finalmente, encontrar informação na biblioteca da universidade norte-americana.

E é precisamente esta distanciação temporal que torna este livro tão interessante. As relações que estabelece, o conhecimento que aporta e a enorme capacidade de refletir profundamente sobre aspetos tão fundamentais da História recente da América Latina soa tão mais estimulante quanto parte de um olhar nativo do continente.

Para melhor ilustrar do que trata “Da Amazónia às Malvinas”, fica um excerto, dos vários possíveis: “Não tínhamos lido Walter Benjamin, mas submetíamo-nos a uma metafísica da presença, deslocando-nos no espaço com vontade de fazer outra viagem, paralela, pela História da América. Por isso, a nossa viagem cumpria uma função utópica. Dois meses por ano, partíamos para caminhar. Não nos considerávamos turistas, nem pensávamos que o território percorrido era o que hoje se chama um ‘espaço turístico’. Nisto tínhamos razão, porque não era: inacessível, naturalmente hostil pela sua topologia, pela água poluída, pela altitude e pela humidade, pelos animais. Tinha sido o espaço dos aventureiros (capitalistas, exploradores de borracha, gente à procura do ‘ouro dos incas’, negociantes de armas) e ainda era território de missionários católicos e evangélicos. Era a Amazónia anterior ao turismo.”

Com a bagagem que a idade aliada à intelectualidade permite, Beatriz Sarlo proporciona-nos um livro político e corajoso como já não se escrevem muitos por cá.

A sugestão de leitura desta semana da livraria Palavra de Viajante.