Crescimento económico: por que é que 1% é o ‘novo normal’

População activa, emprego e produtividade são determinantes da evolução do crescimento económico e a margem de manobra para crescimentos robustos é escassa.

Durante muitos anos, os portugueses viram a economia nacional a crescer a taxas robustas. Apesar de inúmeros sobes e desces, das recessões profundas e dos momentos de euforia, a verdade é que nos anos 80 do século passado o produto interno bruto (PIB) português cresceu a uma média anual de 3,4% ao ano, exactamente o mesmo valor que se verificou na década seguinte. Habituámo-nos a olhar para o passado para projetar o futuro, assumindo que o sucesso devia continuar a ser medido por esta bitola. E nem 10 anos de estagnação económica, nem uma crise financeira, ajudaram a temperar estas expectativas: em 2008, o Fundo Monetário Internacional (FMI) ainda esperava que Portugal voltasse rapidamente a crescer acima dos 2%, um resultado que seria, ainda assim, medíocre.

As expectativas mudaram radicalmente nos últimos anos. Apesar das recentes revisões em alta das projecções económicas para 2017 (ligeiramente acima de 1,5%), quase ninguém acredita que a economia consiga manter este ritmo no médio prazo. FMI, Comissão Europeia e Conselho das Finanças Públicas estão de acordo: pouco a pouco, a economia vai lentamente convergir para crescimentos pouco acima de 1%.

Será este o máximo a que Portugal consegue almejar? Na verdade, há razões estruturais profundas para que as perspectivas actuais sejam bem mais baixas do que há uma década. Para perceber porquê, convém destilar o crescimento do PIB em três ingredientes principais: o número de pessoas disponíveis para trabalhar (população activa), o número de disponíveis que consegue de facto obter um posto de trabalho (emprego) e a produtividade de cada posto de trabalho. Destas três fontes de crescimento, uma está praticamente seca, e as outras duas dão um contributo cada vez mais marginal. Juntando todas as peças, crescimentos de 1% bem podem ser o “novo normal” para a economia portuguesa.

1. O peso cada vez maior da demografia
Pode parecer demasiado óbvio, mas este é um facto muitas vezes esquecido: um dos factores que mais influencia o número de pessoas disponíveis para trabalhar é a demografia. O envelhecimento não se limita a reduzir o número de pessoas que existe no país, também aumenta a fracção de pensionistas e reduz o peso dos trabalhadores em idade activa.

E Portugal é um dos países que está a envelhecer mais rápido. Durante décadas, a população em idade activa cresceu a uma média anual de 1%. Hoje, dá-se o movimento inverso: a população activa cai cerca de 0,5%. E este não é um problema transitório, causado pela emigração. Apesar dos fluxos migratórios terem sem dúvido reforçado este problema, há algo de estrutural a ganhar forma no horizonte. Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), a tendência deverá manter-se nas próximas décadas. E isto, só por si, faz com que o PIB deva crescer menos um ponto percentual do que nas décadas anteriores.

2. Contributo do ciclo económico perto do fim
O facto de o número de pessoas em idade activa aumentar ou descer não significa, por si só, muita coisa. Também é preciso que o mercado laboral consiga absorver estes potenciais empregados, dando-lhes a possibilidade de contribuir para o PIB. Em suma, as subidas (ou descidas) da taxa de desemprego também influenciam o crescimento económico.

Aqui também a margem para grandes crescimentos é cada vez mais curta. Depois de a taxa de desemprego ter ultrapassado os 16% em 2013, hoje está abaixo dos 10%. Ninguém sabe muito bem qual é o nível mínimo até onde ainda pode descer, mas a maioria das estimativas aponta para valores em torno dos 8% como as faixas mais prováveis. Ainda há algum espaço para alimentar o crescimento do PIB por este caminho, mas ele está a tornar-se cada vez mais estreito à medida que o desemprego se aproxima do nível “natural”.

3. A trágica história da produtividade
E chegamos à terceira fonte de crescimento: a capacidade de cada empregado de produzir mais ou melhores bens e serviços. Tradicionalmente, a produtividade portuguesa tem seguido de perto a produtividade dos países mais avançados, oscilando em torno de metade dos valores alemão e francês.

O problema é que a produtividade dos países avançados cresce cada vez menos. Quase todas as economias ‘de fronteira’ têm visto a respectiva produtividade crescer a taxas historicamente baixas, muitas vezes pouco acima de 1%. Robert Gordon, um economista que tem estudado o crescimento de longo prazo, tem até falado do “fim das grandes inovações”, antecipando um futuro negro para a produtividade nas próximas décadas. E se as economias avançadas têm dificuldade em estugar passo, Portugal terá, à partida, dificuldades semelhantes (a não ser, claro, que conseguisse ‘fechar a distância’ que o separa da liderança – um cenário pouco provável).

4. Juntando as peças
Quando se monta este puzzle todo, torna-se claro que a margem de manobra para crescer muito acima de 1% é escassa. A imagem ao lado mostra, de resto, o impacto que factores como a demografia ou a produtividade têm no PIB. Se a população activa crescesse em linha com o que se registou nas décadas de 80 e 90, a previsão de crescimento do FMI (1,2%) passaria automaticamente para algo entre os 2,2% e os 2,7%. E bastaria a produtividade subir 0,5 pontos percentuais acima da previsão actual para que o crescimento projectado voltasse aos 3% que foram a marca de água do Portugal pré-euro.

Aliás, é engraçado notar que, nos últimos três anos, todo o crescimento do PIB veio do segundo factor: a retoma cíclica da economia, que fez diminuir o desemprego. De resto, a população em idade activa mingou e a produtividade praticamente não mexeu.

Mas à medida que Portugal se aproxima da taxa de desemprego “natural” (a taxa mais baixa com a qual uma economia consegue operar sem gerar pressões inflacionistas), o crescimento económico será cada vez mais ditado pela força conjunta das difíceis pressões demográficas e da débil performance da produtividade. Crescimentos de 1% podem parecer pouco, tendo em conta a experiência passada. Mas, no “novo normal”, esse pode bem ser todo o crescimento a que podemos aspirar.



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