Coreia do Norte: dentro do país mais fechado do mundo

O embaixador José Manuel Duarte , o escritor José Luís Peixoto e o atleta Álvaro Leite foram dos poucos portugueses que entraram na Coreia do Norte e recordam ao Jornal Económico o que viram no país mais hermético do mundo.

Estão separados pela idade, motivações e experiência profissional, mas a opinião é unânime na hora de descrever o cenário que encontraram em Pyongyang: lojas vazias, cortes de energia constantes e escassez de alimentos. Ainda assim, não se vêem mendigos nas ruas. A imagem de prosperidade que a Coreia do Norte procura transmitir aos estrangeiros que visitam o país contrasta com aquilo que é o cenário real norte-coreano. “Tudo parece uma encenação”, diz o antigo embaixador português residente em Pequim e acreditado na Coreia do Norte. Na próxima terça-feira, dia 12 de junho, os Estados Unidos esperam que não haja nenhum “golpe de teatro”. Depois da cimeira entre o presidente norte-americano, Donald Trump, e o líder norte-coreano, Kim Jong-un, ter sido cancelada, tudo leva a crer que o encontro histórico irá mesmo acontecer em Singapura, podendo abrir caminho a uma maior abertura aos Estados Unidos – o mesmo país que há meses atrás ameaçavam com um ataque nuclear fatal.

O antigo embaixador José Manuel Duarte de Jesus deslocou-se por três vezes à Coreia do Norte, na década de 90, para representar os interesses de Portugal no país. Em entrevista ao ‘Jornal Económico’, o embaixador recorda que, na época, Portugal e a Coreia do Norte eram duas nações bastante próximas, fruto do relacionamento amistoso entre o marechal Costa Gomes e o então presidente da Coreia do Norte, Kim Il-sung. Além disso, José Manuel Duarte afirma que haviam duas razões que explicavam a proximidade entre os dois países: “Portugal desempenhava um papel particular, no sentido em que era o único que tinha relações com a UE e, como tinha vivido recentemente o 25 de abril, beneficiava de uma certa independência em relação aos blocos”. Aos olhos da Coreia do Norte, a UE era um ator internacional emergente, capaz de superar o poderio das grandes potências mundiais, e Portugal era a chave para chegar até esse mercado.

A nível interno, as dificuldades eram notórias. José Manuel Duarte de Jesus conta que durante o tempo em que esteve na Coreia do Norte em serviço teve a oportunidade de andar mais de 200 quilómetros entre Pyongyang e Panmunjeom, na zona desmilitarizada que separa as duas Coreias, sem ver nenhum carro e à noite as luzes nas ruas eram apagadas para poupar energia. Durante a sua estadia, jantou apenas em hotéis, que diz terem sido criados exclusivamente para estrangeiros, para dar uma falsa imagem de desenvolvimento. As poucas lojas que encontrou encontravam-se, na sua maioria, vazias e a autoestrada que liga a capital à fronteira com a Coreia do Norte está toda ela cerca com arame farpado. “Dá a impressão de se tratar de uma prisão de luxo”, afirma o embaixador.

O escritor José Luís Peixoto partilha essa impressão do país. A primeira vez que viajou para a Coreia do Norte foi em 2012 e, desde então, já regressou mais quatro vezes. “O modo como os norte-coreanos lidam com os estrangeiros tem vindo a tornar-se mais flexível, mas continuam a ser várias as limitações impostas para se poder cruzar a fronteira”. José Luís Peixoto conta que a chegada, todos os visitantes são revistados. Há uma série de artigos que estão estritamente proibidos e que devem ser deixados na fronteira: livros, CDs, DVDs e todo o tipo de roupa com algo impresso. Há ainda vários entraves às visitas autónomas.

“Quem visita o país deve fazê-lo sempre acompanhado por dois funcionários estatais, quer sejam turistas, associações não-governamentais ou diplomatas”, indica o escritor ao ‘Jornal Económico’. “Os estrangeiros que visitam o país fazem-no sob uma perspetiva privilegiada e o contacto com a realidade dos norte-coreanos é limitado. Ainda assim é evidente para quem visita a Coreia do Norte que a precariedade no país é grande e são várias as privações que os norte-coreanos enfrentam. Mesmo o tratamento que os estrangeiros recebem no país fica aquém dos nossos padrões habituais”.

Nas visitas à Coreia do Norte, os estrangeiros são escoltados aos lugares de culto dos  norte-coreanos. “Há uma divinização do líder na Coreia do Norte, que está muito presente em todo o modo de vida daquele povo. A Coreia do Norte criou um regime único em todo o mundo, que se caracteriza pelo nacional-socialismo, mas cuja raiz ideológica não é marxista”, explica o escritor. “Há a ideia de que o povo norte-coreano é uma raça geneticamente superior e de estão aptos para disputar qualquer guerra, pois possuem o Exército mais poderoso”.

Álvaro Leite, comissário de bordo na TAP, foi um dos portugueses que, em 2017, correram a Maratona de Pyongyang. O atleta, que terminou a prova em 3 horas e 23 minutos, recorda a emoção de ser “recebido” no estádio por cerca de 60 mil pessoas. O maratonista lembra que visitar um país como a Coreia do Norte não é permitido a todos e a presença de um estrangeiro no país é muito vigiada. As expectativas de Álvaro Leite eram muitas: “Viajar para um país completamente diferente do que estamos habituados e em que não temos qualquer tipo de autonomia, ou seja em que não se pode improvisar nada, cria sempre um pouco de nervosismo”. O atleta relembra ainda que esteve de viajar 8 horas de comboio para ir de Pequim até à fronteira com a Coreia do Norte, onde o esperavam duas horas de interrogatório.

Em Pyongyang, onde esteve três dias, recorda a propaganda política espalhada por toda a cidade, o silêncio e a limpeza (não enocntrou um único papel no chão). Para sair do hotel, Álvaro Leite era acompanhado por dois guias norte-coreanos e um chinês. Na véspera da maratona, só pode treinar dentro do hotel. Nas poucas conversas que manteve com norte-coreanos, sublinha o facto de ter sido dito que, “ao contrário das sociedades ocidentais, não existem ali grandes flagelos como o terrorismo ou haver o perigo de uma criança ser raptada na rua”.

Medalhas e cocktails

O encontro histórico entre o presidente norte-americano, Donald Trump, e o líder norte-coreano, Kim Jong-il, vai decorrer num hotel de luxo na ilha Sentosa, em Singapura. Esta cimeira será a primeira entre os dois líderes após quase 70 anos de confrontação iniciados com a Guerra da Coreia (1950-53) e de 25 anos de negociações fracassadas e de tensões por causa do programa nuclear do regime de Pyongyang. É em Sentosa, uma ilha com cerca de cinco quilómetros quadrados, que se poderá voltar a fazer história, depois de os dois líderes das Coreias terem assinado um acordo de paz permanente até ao fim de 2018 e se terem comprometido a desarmar todo o arsenal nuclear da península.

A imprensa internacional dá conta de que os trabalhos preparatórios no resort já foram iniciados. A fachada do Capella Hotel está a ser pintada, os tapetes vermelhos estendidos e a segurança reforçada. Singapura também já apresentou aquela que será a medalha comemorativa do histórico encontro. Num dos lados, uma pomba estilizada com um ramo de oliveira no bico surge entre a inscrição “Paz Mundial” e um ramo de rosas e magnólias, as flores nacionais de Estados Unidos e Coreia do Norte, respetivamente. No verso, duas mãos de homem cumprimentam-se com as bandeiras dos dois países em pano de fundo. A medalha foi feita com três metais preciosos (ouro, prata e zinco) e o preço varia entre os 31 e 1.180 euros.

A Casa Branca já tinha apresentado a sua moeda comemorativa da cimeira, onde o encontro surge descrito como “conversações de paz”. Ao mesmo tempo, o comércio local também quer aproveitar o encontro histórico. Nos pubs de Singapura já se podem pedir cocktails batizados com os nomes de “Trump” ou um “Kim”. Singapura tem várias vantagens para ser o local escolhido: neutralidade, garantias em relação à segurança e um longo histórico como país anfitrião de encontros internacionais. Por exemplo, em 2015, acolheu uma cimeira histórica entre os líderes da China e de Taiwan.

“Há uma grande expectativa em torno deste evento”, afirma o embaixador José Manuel Duarte. “É possível que sejam dados passos rumo à pacificação na região. Possível é, provável é uma coisa diferente. A desnuclearização tem de ser definida. O que a Coreia do Norte define por desnuclearização é diferente daquilo que define a Coreia do Sul, o Japão ou os Estados Unidos. Se se conseguirem iniciar negociações de paz, isso significará um desanuviamento das tensões e o fim do perigo nuclear na região”.

O escritor José Luís Peixoto mostra-se expectante para saber o que resultará das negociações entre Washington e Pyongyang. “Um acordo de paz seria o primeiro passo para que o país saísse do nível medieval em que se encontra”, afirma o autor do livro “Dentro do segredo”, que retrata a sua primeira viagem ao país. “O povo norte-coreano foi fortemente afetado pelas sanções económicas impostas pelas Nações Unidas”.

O atleta e comissário de bordo, Álvaro Leite, diz estar cético em relação à abertura do país ao mundo. “Mas este é um passo muito positivo para o diálogo com o Ocidente”, diz. O maratonista de Pyonyang destaca ainda “as enormes diferenças culturais e o povo tímido, mas muito acolhedor”.




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