Se o sector privado ainda não se transformou no sentido de abraçar toda a população nacional que, nos últimos anos, se qualificou, compete ao Estado fixar essas pessoas.

Numa altura em que Portugal está a conseguir obter bons resultados ao nível do crescimento económico e do equilíbrio das contas públicas, começa a ser tempo de pensar estratégias de investimento, para garantirmos um futuro próspero e sustentável.

No passado, e desde a nossa adesão à União Europeia, principalmente nos tempos de Cavaco Silva e de José Sócrates (enquanto primeiros-ministros), as apostas feitas, ao nível do investimento público, passaram muito por pela construção de infra-estruturas.

Algumas eram necessárias e tiveram retornos positivos a longo prazo, mas muitas eram desnecessárias e, sobretudo, foram mal concebidas e geridas, com processos de promiscuidade e corrupção abundantes, tornando todo esse investimento muito mais dispendioso do que era necessário. Ainda assim, Portugal era um país com fortes carências infra-estruturais em 1986. Hoje já não o é.

Para além disso, o investimento que tem mais retornos a longo prazo não é o investimento no betão, é o investimento no conhecimento. Esse investimento tem uma natureza eminentemente pública – porque o sector privado está mais preocupado com resultados no curto prazo, e porque o conhecimento beneficia de externalidades positivas que ditam um subinvestimento pelos agentes individuais, face ao óptimo social.

Portugal continua com défices relativos muito grandes, em termos de stock de conhecimento, quando comparado com os seus parceiros europeus ou os países mais desenvolvidos.

Hoje, como sempre na história de Portugal, o que nos falta é qualificar as pessoas. Não há melhor investimento do que esse – diversos estudos internacionais confirmam os elevadíssimos retornos do investimento público no conhecimento. Isso significa que temos que investir maciçamente em tudo que é conhecimento e cultura. Qualificando as nossas gentes, estaremos a potenciar ao máximo os nossos recursos.

Não existam ilusões: esta qualificação custa dinheiro, mas é dinheiro muito bem gasto. Na prática, isto faz-se contratando pessoas para os sectores da educação, da saúde, da administração pública, da justiça, da cultura, que venham trazer novos contributos para uma melhor organização destes serviços e um aumento da produtividade global.

Mais, Portugal precisa desesperadamente de rejuvenescimento demográfico. Isso só se consegue fixando as pessoas (e atraindo os que daqui fugiram) com empregos estáveis e bem remunerados. Se o sector privado ainda não se transformou no sentido de abraçar toda a população nacional que, nos últimos anos, se qualificou, compete ao Estado fixar essas pessoas.

Daqui a uns tempos (já se começam a ver alguns sinais), um novo tecido empresarial português surgirá, com capacidade e necessidade de absorver, conjuntamente com o Estado, toda a nossa mão-de-obra que, entretanto, se qualifica.

Este não é o tempo de desperdiçar o verdadeiro recurso natural de Portugal – as pessoas. Este é o tempo de continuar a apostar na sua formação e na sua fixação no país. O que se gastará hoje, retornará em múltiplos no futuro, permitindo Portugal ter contas equilibradas, dívida controlada e uma economia florescente. Os países nórdicos, a Alemanha ou o Japão fizeram essa aposta no séc. XIX (e continuam a fazer). O resultado está à vista.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.



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