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O número de hoje está relacionado com a zona euro e uma das principais medidas de política monetária aplicada nos últimos dois anos para estimular a inflação e o crescimento económico.

Leonhard Foeger/Reuters

Um bilião, quatrocentos e oitenta e um mil milhões, duzentos e dezasseis milhões de euros. Em dígitos ou por extenso, o número, divulgado ontem, é gigantesco e representa o arsenal total que o Banco Central Europeu (BCE) já gastou desde março de 2015 em compras de obrigações no Programa de Compra de Ativos dos Setor Público (PSPP), chamado por alguns analistas de ‘bazuca’ do banco central para estimular a inflação e o crescimento económico.

A 22 de janeiro de 2015, o BCE anunciou que ia começar a comprar bonds soberanos, obrigações do tesouro, para “responder aos riscos de um período demasiado longo de inflação baixa”, explicando que os principais indicadores da inflação tinham sido arrastados para perto de mínimos históricos pela crise financeira. “A situação requer uma resposta musculada em termos de política monetária”, disse, na altura, o banco liderado por Mario Draghi.

O anúncio foi bem recebido pelos mercados e pelos media: “Agressivo”, dizia o norte-americano Wall Street Journal, enquanto o britânico Telegraph classificava o programa como “enorme”.

Lançado em março de 2015, o programa previa a compra de 60 mil milhões de euros de ativos por mês até setembro de 2016. Nos primeiros 14 meses, o BCE nunca chegou a atingir essa meta,  tendo registado uma média mensal de 50,3 mil milhões. No entanto, confrontado com uma renovada ameaça de deflação, o banco central anunciou em março de 2016 que a partir do mês seguinte ia aumentar as compras em um terço, ou seja, para 80 mil milhões por mês, e ainda adicionou dívida corporativa de grau de investimento à lista de compras, numa altura em que as perspetivas do crescimento económico na zona euro tinham sido revistas em baixa.

A medida foi imediatamente visível com as compras a totalizarem 78,5 mil milhões de euros em abril e atingirem um pico de 79,6 mil milhões no mês seguinte. A partir daí iniciou-se um período de volatilidade, com o montante a regressar para perto dos 50 mil milhões em agosto do ano passado antes de estabilizar perto dos 70 mil milhões nos primeiros três meses de 2017.

No início deste mês começou a ‘terceira vida’ do programa, com uma redução do patamar de compras para 60 mil milhões por mês e um prolongar do prazo até, pelo menos, o final deste ano. A decisão, anunciada em dezembro, agradou os mercados, mas também inspirou perguntas sobre se o BCE estará a começar a ver o final do programa.

Draghi disse no anúncio do programa que estava confiante na eficácia das compras. Em termos das taxas das obrigações da dívida soberana na zona euro, o resultado foi imediato e permitiu que ficassem muito abaixo dos patamares vistos durante a crise. Em relação ao aumento da inflação, demorou mais, mas já atingiu resultados que ironicamente já causam algumas dores da cabeça a Draghi.

O italiano tem sido pressionado para inverter o rumo da política monetária e a desaceleração do ritmo dos estímulos poderia dar sinais nesse sentido. No entanto, Draghi tem referido que ainda não é o momento certo para tapering, ou seja a redução gradual do programa de estímulos.

O economista-chefe do BCE, Peter Praet, também referiu na segunda-feira que a diminuição da compra de ativos prevista desde dezembro não deve ser vista como uma mudança de estratégia. “O ajuste não sinaliza o início de uma redução gradual das compras – o tapering“, disse Praet em entrevista ao jornal espanhol Expansíon. “No geral, consideramos que a nossa presença no mercado garante uma transmissão mais duradoura das medidas de estímulo”.

A inflação é o fator determinante para o ajustamento do programa de compra de ativos do BCE. Em fevereiro, as vozes mais críticas aos estímulos, principalmente da Alemanha, viram a inflação na zona euro em 2% como um sinal claro de que Draghi tinha de recuar. Porém, a inflação desacelerou para 1,5% em março, dando mais margem de manobra ao BCE e força aos argumentos de Draghi de que ainda não é o momento para o tapering.

Veja aqui alguns dos números-chave do programa:

Média mensal das compras desde o início: 59,25 mil milhões de euros.

Mês com valor máximo total: 79,67 mil milhões (maio de 2016).

Mês com valor mínimo total: 42,83 mil milhões (agosto de 2015).

País com maior valor total de obrigações compradas: Alemanha (355,6 mil milhões).

Total das compras de obrigações portuguesas: 26,62 mil milhões

 





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