Cisnes, falcões, sereias e outros animais políticos

Se vamos pagar o preço da volatilidade, que seja para que se possam resolver algumas questões da paz podre europeia.

Nassim Taleb disse que a fragilidade é característica das coisas que estão sujeitas a volatilidade. Vindo de um profundo conhecedor do cálculo de probabilidades e dos mercados financeiros, é de ter em atenção. Vem isto a propósito do aumento da volatilidade que recentemente se deu nos mercados, e que tem como primeira e mais imediata explicação a incerteza quanto ao resultado das eleições francesas.

Nunca a extrema-direita francesa esteve tão perto do poder, e até o Presidente alemão já pediu aos franceses que são se deixem enfeitiçar por cantos de sereia, referindo-se a Le Pen sem a mencionar. Felizmente, este não é o cenário mais provável: é quase seguro que Le Pen perderá à segunda volta. A dúvida é com quem a disputará, o que explica a volatilidade.

Fillon, Macron, Hamon, Mélenchon, a única coisa em comum é que têm nomes que terminam em “on”. Os seus programas económicos são muito diferentes, de um Macron mais liberal a um Mélenchon que quer renegociar os Tratados Europeus e taxar os rendimentos altos a 100%, e que foi forçado a dizer que não fará da França a próxima Cuba. A volatilidade só acabará depois da segunda volta, quando se souber o que o eleito vai mesmo fazer.

Volatilidade significa risco, e risco cria custos: o spread entre taxas de juro alemãs e francesas triplicou desde agosto. Isto prejudica os investimentos e distorce a escolha em favor dos menos arriscados, entre projetos e entre países. E se a volatilidade do STOXX50, medida pelo VSTOXX, dobrou desde meados de março, o VIX (indicador de volatilidade sobre o S&P500) aumentou apenas em metade – o Presidente Trump, pelos vistos, é menos imprevisível que nós, europeus. Infelizmente, a volatilidade na Europa não acaba aqui.

A CDU/CSU e o SPD de Schulz estão empatados nas sondagens para as eleições alemãs, e a surpresa das eleições inglesas (em junho, tal como foi o Brexit – o raio cai duas vezes no mesmo sítio) torna tudo mais quente.

Se vamos pagar o preço da volatilidade, que seja para que se possam resolver algumas questões da paz podre europeia e gerar crescimento sustentado, ao nível adequado. Esperemos que os eleitores europeus reconheçam que para diminuir a volatilidade é errado andar atrás de objetivos nacionais quando os riscos são multinacionais e que apenas coesão e coordenação criam estabilidade. É que, citando Gian-Carlo Rota, há dois tipos de erros: os fatais, que destroem uma teoria, e os contingentes, que são um teste à sua estabilidade.

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