China, o aliado de peso de Nicolás Maduro

Xi Jinping é cada vez mais o poder alternativo a Donald Trump. Entretanto, na Venezuela, Maduro adiou a formalização da constituinte, mas a oposição promete não deixar as ruas nem aliviar a pressão.

Miraflores Palace/Handout via Reuters

Depois das eleições para a constituinte que decorreram na Venezuela no domingo passado, os Estados Unidos apressaram-se a aumentar o volume das sanções impostas ao país – e ao próprio presidente, Nicolás Maduro, a quem os bens sob jurisdição norte-americana foram congelados. A União Europeia, mais lenta, acabou por recusar aceitar os resultados. Mas, no meio daquilo que parecia ser uma hegemonia internacional em termos da reação aos resultados, a China optou por divergir.

Em comunicado oficial, o governo chinês afirmou não ter encontrado motivos preocupantes para duvidar dos resultados oficiais e explicou que, por princípio, prefere não interferir nos assuntos internos das outras nações – pelo que se abstém de outros comentários, para além de um apelo geral à conciliação e ao diálogo entre as partes em litígio.

Posição de força

No meio do espanto geral, alguns analistas descobriram na tomada de posição da China um intenção mais geral de se constituir como uma espécie de poder alternativo aos Estados Unidos – que têm no combate ao regime de Nicolás Maduro um dos seus pontos de ordem. Mas não só: a China também divergiu em relação aos Estados Unidos e aos seus parceiros – nomeadamente aqueles que estão acantonados na NATO – quando a confrontação, para já apenas verbal, entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte subiu de tom.

Será de recordar que o governo chinês aconselhou Pyongyang a parar com os testes balísticos em torno do míssil com capacidade para atingir os Estados Unidos, mas também não deixou de prevenir Donald Trump de que não via qualquer vantagem na demonstração de força que Estados Unidos e Coreia do Sul decidiram empreender como resposta: a organização de um exercício militar conjunto em águas territoriais de Seul.

A divergência entre a China e os Estados Unidos repetiu-se quando, a semana passada, a Coreia do Norte testou novo míssil, desta vez com capacidade para atingir a costa leste norte-americana. A posição de Xi Jinping sobre a Venezuela deixa claro que as agendas internacionais das duas superpotências não só não são coincidentes, como são divergente em alguns dos pontos mais sensíveis da cena internacional.

Para alguns analistas, o que se passa é que o mundo está a assistir a uma nova fase do equilíbrio de forças internacional, que paulatinamente irá substituir a fase anterior (o pós-muro de Berlim) e que parece resvalar para uma nova bipolarização- entre os Estados Unidos e a China, em substituição da entretanto desaparecida União Soviética. O que, a suceder, não será propriamente algo que não esteja desde sempre (desde a queda do Muro de Berlim mas principalmente desde a adesão da China à World Trade Organization, em 2000) nos horizontes dos poucos que acreditaram que o ‘casamento’ entre o maoismo e a economia de mercado podia não resultar necessariamente num nado morto.

Maduro hesita

Mesmo assim, e apesar de toda a retórica para consumo interno, Maduro pode não estar tão seguro quanto parece de que a assembleia nacional constituinte é a saída certa para a crise. Por uma razão: o adiamento da formalização e da tomada de posse dos membros eleitos, que devia ter ocorrido na passada quarta-feira e foi adiada para o dia seguinte em cima da hora.

Para isso terá contribuído o facto de a empresa que foi contratada pelo Estado venezuelano em 2004 para trabalhar o sistema de votação, a Smartmatic (cujo grupo está sediado em Londres), ter afirmado que os resultados oficiais da votação de domingo estão inflacionados – possivelmente em pelo menos um milhão de votos (para os 8,1 milhões oficiais).

Essas declarações, expressas pelo CEO da empresa, Antonio Mugicala, juntamente com a multiplicação das reservas sobre o ato eleitoral em termos internacionais pode ajudar a mudar qualquer coisa na Venezuela – tanto mais que o governo de Maduro sabe que, com o petróleo a cotar em volta dos 50 dólares nos mercados internacionais (e não acima dos 100 dólares, como nos tempos de Hugo Chávez), a superação da crise económica está nas relações comerciais internacionais.

É certo que a China é desde há muito o principal parceiro comercial da Venezuela – e também um país ‘hospedeiro’ de importastes investimentos da China no exterior – mas o facto de Maduro ter as portas ‘semifechadas’ tanto na União Europeia como na Organização de Estados Americanos, pode ter feito soar as campainhas do estado de sítio.

Oficialmente, Maduro afirmou que o adiamento se ficou a dever à necessidade de organizar em paz o protocolo, mas como os avatares protocolares nunca foram propriamente uma preocupação que a Venezuela partilhe com a Inglaterra, as declarações afiguraram-se a todos como sem qualquer sentido.

Entretanto, a oposição ao regime de Maduro promete não desarmar: os vários partidos que se lhe opõem preparavam manifestações de repúdio pela tomada de posse da nova assembleia nacional constituinte, que vai substituir o parlamento, e asseguravam que, como têm feito nos últimos quase quatro meses, não vão abrandar a pressão nas ruas. Que é mesmo que dizes que a violência também não vai abrandar – numa altura em que a oposição teme que o regime continue a perseguir e encarcerar outros vultos importantes da oposição, como aconteceu com Leopoldo López e Antonio Ledezma.

Artigo publicado na edição digital do Jornal Económico. Assine aqui para ter acesso aos nossos conteúdos em primeira mão.



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