Chegou o momento de viragem para a Fed e o BCE?

Basta uma palavra diferente de Janet Yellen ou Mario Draghi para os mercados pensarem que perceberam determinada mensagem subliminar. A política monetária volta a estar em destaque com a publicação das minutas da última reunião da Fed e discursos de vários membros do BCE.

Carlos Barria/Reuters

Tanto na Europa como nos EUA, os mercados começam a aguardar estratégias de política monetária mais focadas em subir as taxas de juro e em diminuir os níveis de estímulos à economia. Apesar de Janet Yellen, da Reserva Federal norte-americana, e Mario Draghi, do Banco Central Europeu, continuarem a guardar os detalhes entre os segredos dos deuses, os próximos dias podem trazer pistas sobre os planos destes bancos centrais.

Na última reunião da Fed, Yellen anunciou uma subida, já esperada, do intervalo da taxa de fundos federais em 25 pontos base, para entre 1% e 1,25%. O aumento foi o segundo do ano e era previsível, portanto o foco é agora se a Fed vai voltar a subir as taxas dos federal funds até ao final do ano. É isso que os investidores estarão à procura de perceber esta quarta-feira, às 19 horas, quando forem divulgadas as minutas da reunião, que aconteceu entre 13 e 14 de junho.

Os olhos estarão postos no tom. Analistas consultados pela Reuters acreditam que é provável que os juros se mantenham ao nível atual até ao final do ano. No entanto, se as minutas mostrarem confiança por parte dos membros do Federal Open Market Committee (FOMC), os mercados poderão ficar à espera de uma terceira subida.

O economista-chefe da Amherst Pierpont, Stephen Stanley aponta para o discurso público semelhante entre os diferentes responsáveis da política monetária norte-americana. “Parece quase uma mensagem concertada dos membros da Fed sobre as condições financeiras como sendo muito fáceis, talvez demasiado fáceis. Seria interessante ver se o comité discutiu isso e qual foi a retórica”, aponta, em declarações à CNBC.

Além das taxas de juro, a Fed anunciou há três semanas que vai acelerar a normalização da política monetária. Assim, o banco central pretende diminuir a folha de balanços, reduzindo o número de títulos de tesouro e títulos de hipoteca, adquiridos sobretudo durante a crise financeira entre 2007 e 2009 e no período de recessão.

O estrategista de economia global da VTB Capital, Neil McKinnon, explicou, em entrevista à Bloomberg TV, que a Fed já está numa “posição de apertar ligeiramente a política monetária”, mas ressalva que a estratégia é cada vez menos dependente da evolução da inflação, do crescimento económico ou da situação do mercado laboral.

“Já não é dependente dos dados, o que é interessante, e mais focada no facto de a Fed estar a tentar reduzir a folha de balanço até ao final do ano”, disse.

Draghi prepara-se para seguir Yellen no caminho da normalização

A retoma da economia da zona euro tem sido, desde o início do ano, robusta, com a região a expandir a um ritmo mais acelerado que os EUA. No entanto, a zona euro está ainda em pleno programa de estímulos monetários, em que o BCE compra 60 mil milhões de euros em ativos por mês, enquanto os EUA estão já numa fase de fim dos reinvestimentos.

Apesar disso, Draghi poderá estar a preparar-se para seguir a homóloga norte-americana. O presidente do BCE agitou as águas na semana passada com um discurso que deu a entender aos mercados que ia começar o tapering – o fim gradual dos estímulos – ou pelo menos foi assim interpretado.

“Na semana passada, o Fórum sobre bancos centrais do BCE foi muito interessante. Podemos estar a chegar a um ponto de inflexão em termos de futuro da política monetária”, acrescentou McKinnon. “Vimos o BCE a dar pistas que pode começar a regredir no programa de quantitative easing (QE) e os estrategistas falam de que o QE pode chegar ao fim até ao final do ano. Poderemos ver mais tapering já em outubro”.

O analista prevê assim uma aceleração do fim dos estímulos por parte do BCE, mas Peter Praet, um dos mais influentes membros do Conselho de Governadores, deu esta terça-feira indicações em contrário. “Temos de ser pacientes e persistentes”, disse o economista-chefe, que é responsável pelo desenho das propostas de política monetária, num evento em Roma.

“À medida que as perspetivas económicas se tornam mais brilhantes, a expetativa de maiores retornos no investimento das empresas tornarão as condições de financiamento cada vez mais atraentes. Isso, por si só, reforçará a acomodação e assegurará que a inflação converja de forma sustentável para a nossa meta abaixo, mas próxima de 2%, no médio prazo. Mas a nossa missão ainda não está terminada”.

Outros dois membros do BCE – Jens Weidmann e Ewald Nowotny – vão estar esta quinta-feira no banco central da Áustria para discutir o futuro do euro. Os mercados estarão atentos para tentar perceber novas pistas sobre o rumo da política monetária europeia.





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