César San Juan: “Os clubes são na verdade empresas e têm de sobreviver financeiramente”

Com o ‘fair-play’ financeiro e a prática de valores elevados na compra de atletas a colocar o fator sustentabilidade em foco, olhar para a estrutura financeira dos clubes de futebol é importante. O Jornal Económico entrevistou o especialista em finanças desportivas espanhol César San Juan, da Escola do Real Madrid.

César San Juan, durante a aula Understanding the Finances of Professional Football Clubs” | Foto cedida

A Universidade Europeia promoveu na terça-feira, 13, uma aula com César San Juan, consultor e professor da Escola Real Madrid, no campus de Carnide, em Lisboa. Denominada de “Understanding the Finances of Professional Football Clubs”, San Juan falou de como uma sociedade anónima desportiva (SAD) e os clubes desportivos criam condições de sustentabilidade financeira na indústria do futebol.

O orador convidado pelo departamento de desporto da Universidade Europeia analisou tendências evolutivas de receitas e despesas dos clubes, bem como a estrutura de ativos, capitais próprios e capitais alheios pode influenciar o funcionamento de uma organização desportiva.

Com o ‘fair-play’ financeiro e a prática de valores elevados na contratação atletas de classe mundial a colocar o fator sustentabilidade em foco, olhar para a estrutura financeira dos clubes de futebol é relevante. E falando em valores elevados e aspectos financeiros, aproveite o casinoportugal.pt bonus para ganhar uma receita extra e melhorar as suas finanças.

À margem do evento, o Jornal Económico entrevistou o especialista e doutorado nas áreas de economia e das finanças, que já produziu estudos sobre o estado económico e financeiro dos maiores clubes de futebol, que resumiu: “O futebol é um negócio”.

A sustentabilidade das finanças das SAD’s e clubes desportivos é uma prioridade. Analisando o panorama do futebol europeu, podemos dizer que essa é uma realidade visível?
A experiência que temos em Espanha é que, por regra geral, os clubes são entidades com muitas dívidas e com uma abordagem pouco profissional. Quando há uma abordagem profissional, principalmente na parte financeira, o cenário é diferente.

No caso do Rela Madrid, quando Florentino Pérez chegou fez questão de profissionalizar a abordagem ao funcionamento do clube, particularmente nas finanças. As contas financeiras estão mais sólidas desde então, com uma abordagem ao capital e ao património. Tudo isso melhorou.

Tratam-se, claro, de clubes desportivas, que na verdade são empresas e têm de sobreviver financeiramente.

O ‘fair-play’ financeiro é hoje uma preocupação para os clubes europeus. Acredita que esta medida veio colocar um sentido de justiça naquele que deve ser o balanço entre vendas e aquisições?

Sim. O ‘fair-play’ tem claramente influência e uma influência positiva. Em Espanha também temos que o cumprir. É algo importante e isso nota-se na sustentabilidade financeira dos clubes. E há a Liga de Futebol Profissional [La Liga] que controla as transferências.

E o Real Madrid? Como lida com o ‘fair-play’?
É preciso ver o quadro completo. O Real Madrid é uma empresa de grande dimensão, com um capital muito significativo, e, claro, tem que tentar incluir mais coisas. O que não é fácil, mas dentro da lei e das regras desportivas estão a fazê-lo corretamente.

Nas últimas épocas temos assistido ao incremento, quiçá irreal, do valor dos passes dos jogadores. Já se deu 222 milhões de euros por Neymar e fala-se agora já em 400 milhões numa eventual transferência para Espanha. Isto é sustentável?
Essa é uma questão de difícil resposta. Primeiro porque 400 milhões é uma exorbitância e é calculado de acordo com os parâmetros atuais, que poderão ser outros no futuro. Quando há uma transferência de Neymar, paga-se por ele um valor global, próprio do mercado futebolístico – vindo de todas as partes, comprador e vendedor. E há o valor contabilístico e o valor estimado. Mas do ponto de vista contabilístico, uma estimativa não significa nada. O valor dele pode ser menor ou pode até ser maior.

Para o clube que compra há um investimento e do ponto de vista financeiro vejo Neymar como um jogador rentável.

É uma ativo intangível. Entra na balança comercial é colocado, pagam-se as comissões e a partir daí amortiza-se. Há um gasto e a partir daí vai gerando lucro. A partir daí pode avaliar-se a transação do ponto de vista teórico.

Mas não diria que este [400 milhões] seja o preço de Neymar. Este é o seu valor estimado e temos que ver como foi estimado, considerando todos os parâmetros. No fim das contas o preço será definido pela equipa que o comprar.

Como encara os mecanismos que os clubes encontram hoje em dia para fintar o ‘fair-play’ financeiro? Há o caso de Kylian Mbappé, no Paris Saint-Germain.
Isso depende da equipa que detém o direito de transferência do jogador. Chegando ao final do empréstimo essa equipa se quiser pode fazer uma proposta e se a outra parte quiser comprar, paga e pronto. Mas estão a criar-se muitas condições para esses casos, pois este é um mercado com um volume de negócios muito grande.

A principal fonte de lucro dos clubes é a venda dos jogadores, embora seja muito importante ficar com alguns para poder vendê-los caro no futuro.

Os clubes procuram sempre mecanismos para que os seus jogadores se valorizem muito e para que o valor da compra de um passe seja o valor mais próximo da clausula de rescisão.

E como ficam os clubes de menor dimensão, nesse cenário?
Aí está o problema. Normalmente nas ligas espanhola e portuguesa não existem casos destes. Na NBA, por exemplo o melhor atleta pode jogar no pior clube. Isso gera mudanças.

Uma das mudanças importantes – a NBA é um exemplo – é que nem sempre ganha o mesmo. E em Espanha ou Portugal ganham quase sempre os mesmos. Há uma alternância e, dessa forma, as equipas pequenas acabam por não conseguir vender direitos de transmissão, bilhetes, merchandising na mesma medida que os grandes clubes fazem, porque não ganham tanto. Isso gera um fosso gigante.

Como se pode mudar isso?
Com fair-play financeiro ou com um ‘draft‘. Um ‘draft‘, como na NBA, por exemplo, que controle os preços, que organize o poder financeiro por quotas, por expectativas de época, por valor dos jogadores ou dos clubes. Algo que permita às equipas mais pequenas comprar aos grandes clubes. O cenário já está a mudar, mas é um cenário muito complexo.

Isto [futebol] é um negócio. Clubes como Real Madrid e Barcelona ou Benfica e Porto, não querem perder os passes dos seus jogadores. Todos têm os seus interesses.




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