Cautela deve levar DBRS a ignorar “bonança perfeita”

Apesar do bom desempenho das finanças públicas, os analistas vêem a agência a manter a notação do país. A pesada dívida, as eleições em França e a dependência do BCE são os motivos de cuidado.

Durante muito tempo a pergunta era se a DBRS iria ‘atirar’ a notação de Portugal para o patamar de lixo, algo que teria implicações graves para o país. Não chegou a acontecer e a agora a questão é se a agência canadiana estará tão entusiasmada quanto o Governo português ao ponto de melhorar o rating ou a perspetiva.

A agência, que tem Portugal em BBB(low) e uma perspetiva estável, é a única que coloca a notação da República em grau de investimento – as outras três principais ainda têm o país em ‘lixo’  – e já confirmou que vai divulgar sexta-feira uma nova avaliação.  Ter pelo menos uma avaliação acima do patamar de lixo é o que classifica a dívida portuguesa para o benéfico programa de compras de ativos do Banco Central Europeu (BCE).

O ministro das Finanças, Mário Centeno, tem vindo a mostrar esperança sobre um movimento de melhorias nos ratings do país, sublinhando que a estabilidade política, o acelerar do crescimento económico e a consolidação das finanças públicas já merecem esse reconhecimento por parte das agências.

De facto, é difícil criticar o desempenho nessas áreas, especialmente nas últimas semanas, com a expansão económica do final do ano passado a conduzir revisões em alta das estimativas para 2017, com a redução do défice público para 2% em 2016 e com a cooperação dos parceiros na ‘gerigonça’ na validação do Programa de Estabilidade.

Será isto suficiente para corresponder à esperança do ministro sobre os ratings?
“Estamos neste momento num cenário de bonança perfeita. Podemos falar na tempestade perfeita quanto está tudo a correr mal e aqui em Portugal, neste últimos digamos quatro meses, temos uma bonança perfeita”, referiu Filipe Garcia, economista e presidente da IMF – Informação de Mercados Financeiros.

No entanto, Garcia não prevê que a DBRS concretize para já um upgrade à notação até por uma questão de coêrencia. “A determinado momento haveria aspetos fundamentais que até justificariam uma deterioração da perspetiva e a DBRS não o fez. Estou à espera da mesma prudência agora nesta fase em que os indicadores parecem ser mais positivos”.
Garcia sublinhou que mesmo com os números mais positivos, é de prever que a DBRS mostre algumas cautelas, e por diversas razões. Para começar, o otimismo em relação à economia portuguesa  “é muito recente, tem apenas semanas”. Em relação à estabilidade política lembrou que “apesar de a solução governativa parecer ser estável, não deixa de ser uma solução de compromisso, que também se pode modificar de um dia para o outro”.

Dívida pesada
João Pereira Leite, diretor de investimentos no Banco Carregosa também não antevê que a DBRS altere o rating português. ”Dificilmente haverá uma melhoria no rating da República portuguesa, pois apesar dos bons resultados no défice das contas públicas em 2016, a dívida líquida aumentou mais do que o PIB e continua a níveis proibitivos”.
Apesar de atingir, e até superar as metas do défice público, Portugal continua a ter um calcanhar de Aquiles na elevada alavancagem da economia, com o rácio da dívida pública face ao PIB nos 130,4% no final do ano passado, um nível que atrai críticas das instituições internacionais e dos analistas.

Pereira Leite explicou que para que a notação soberana “tenha uma expetativa mais otimista e seja revista positivamente, o rácio divida em relação ao PIB terá que baixar e dar sinais de que manterá esse curso”.

A equipa de research do BiG – Banco de Investimento Global concorda que a dívida será um fator determinante na ponderação da DBRS e sublinha que a “dinâmica” nesta área permanece “no mínimo desafiante”, o que deverá levar a agência a manter o atual rating .

Além da dívida, salienta que a “perspetiva de subida das taxas de juro com o eventual tapering do BCE exacerba os riscos”. O calendário desse processo, ou seja, do plano de redução gradual da compra de ativos da zona euro é a principal pergunta na política monetária nesta altura e Portugal é um dos países mais expostos às alterações.
“Ainda não se sabe como o mercado dívida vai reagir quando o BCE começar a estar menos presente. Ou seja, o bom momento de Portugal quer nos mercados quer em termos de otimismo tem várias premissas, uma das quais é sem dúvida a presença do BCE no mercado e dos juros baixos”, frisou Filipe Garcia.

Para o economista não é só a questão da compra de obrigações, mas também o financiamento a juros muito baixos. “Num cenário de dívida alta, que é o que temos, mesmo que os fundamentais comecem a alinhar, uma subida de taxas, seja pela via do risco seja pela via da taxa de juro de base da economia, desequilibra o plano financeiro”.

Alguém paga a banca
As agências de rating têm, nos últimos anos, referido os problemas do setor da banca como uma questão fundamental em Portugal e que têm penalizado as avaliações ao risco do país. Os últimos meses trouxeram desenvolvimentos nesta área, com a recapitalização da Caixa Geral de Depósitos,  um acordo inicial para a venda do Novo Banco ao fundo norte-americano Lone Star e alterações nas estruturas acionistas do BPI e do BCP.

Filipe Garcia vincou, no entanto, que “a forma como estas coisas se resolvem tem impactos”. Acrescentou que as soluções para a CGD e o Novo Banco “podem não contar para o défice, mas têm envolvimento público… Estas coisas, a prazo, pagam-se sempre. Não são neutrais”.

Mas mesmo neste critério, Portugal atravessa um período de sorte, pois as atenções estão viradas para outros países, como por exemplo o Deutsche Bank, a situação da banca italiana, ou o Banco Popular em Espanha. “A banca em Portugal tem de ser tratada, mas não está no olho do furacão e isso também é benéfico da perspectiva da percepção de risco externo”, salientou Garcia.

Entre os fatores externos que poderão levar a DBRS a demonstrar cautela, há um que é importante e imediato – as eleições presidenciais em França, com a primeira volta já este domingo. “Penso que seria mais ou menos evidente que uma vitória de uma das extremas, seja a esquerda seja a direita, traria convulsão ao projeto europeu e portanto os países periférico como Portugal à partida tenderiam a ter spreads da dívida mais alargados”, alertou o presidente da IMF.

Se não agora, então quando?
O consenso dos analistas é que a DBRS vai continuar a esperar para ver antes de melhorar a notação portuguesa. A agência canadiana volta a rever o rating a 20 de outubro, mas antes disso a Moody’s faz uma avaliação a 5 de maio, a Fitch a 16 de junho e a Standard & Poors a 15 de setembro.

O secretário de Estado adjunto e das Finanças, Ricardo Mourinho Félix, disse esta quinta-feira em entrevista à CNBC que as agências que não têm Portugal em grau de investimento já têm ampla justificação para fazerem revisões em alta. “Diria que essas três agências vão ter dificuldades acrescidas em explicar porquê e como é que mantêm o rating por um período tão longo, quando o Portugal de 2017 é muito diferente do de 2014”, defendeu Mourinho Félix. “Acho que essas agências percebem cada vez mais que a nossa história é credível e está a avançar”.

João Pereira Leite, do Banco Carregosa prevê, no entanto, que essas agências irão fazer upgrades somente “quando houver evidência de que as fragilidades atuais estão a ser ultrapassadas e que a probabilidade da dívida ser paga é elevada, ou seja, o rácio de dívida pública em relação ao PIB baixar antes de se iniciar um novo ciclo de subida de taxas que inflacione as taxas da nossa dívida pública”.

Para Filipe Garcia, a data poderá ser setembro, “depois do desfecho das eleições em França, quando poderemos ter uma noção mais clara do que vai acontecer à banca europeia porque uma série de coisas têm de ser resolvidas até ao verão e o próprio BCE também já será mais explícito sobre como vai fazer a estratégia de saída dos estímulos, portanto faz todo sentido esperar”.





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