Catalunha ficou completamente ingovernável

A estratégia de Mariano Rajoy para solucionar a crise catalã deixou tudo um pouco pior. Restam ao chefe do governo poucas opções. Demitir-se é uma delas. Assegurar um lugar nos compêndios de História é outra – mas isso é mais difícil.

Primeiro as boas notícias (na ótica de Madrid): o bloco pró-independentista da Catalunha – formado pelo JuntsxCAT (de Carles Puigdemont), Esquerda Republicana (ERC) e Candidatura de Unidade Popular (CUP) – perdeu dois deputados, tendo passado de um agregado de 72 lugares para apenas 70 na nova composição do parlamento catalão; o partido mais votado, o Ciudadanos (37 lugares), é constitucionalista e não quer a independência do território; e finalmente, a esquerda mais radical, a CUP, perdeu parte substancial da sua força (passou de 10 para apenas quatro lugares).

Depois as más notícias (na ótica de Madrid): a esquerda pró-independência, menos dada a conluios com os constitucionalistas que os pró-independentistas de direita (Puigdemont), reforçou a sua posição no parlamento, tendo passado de 32 lugares – a ERC no âmbito do Juntos pelo Sim mais a CUP – para 36 (ERC mais CUP); e o Partido Popular praticamente desapareceu, assegurando agora três lugares em vez dos 11 anteriores, dando mostras do pouco apreço que os catalães têm pelo chefe do governo de Espanha.

Finalmente as notícias ainda piores (na ótica de Madrid): apesar da vitória e da promessa de apoio já manifestada por Rajoy, o Ciudadanos pode nunca conseguir chegar a formar governo, dado que não tem um agregado não-independentista que lho permita – pelo menos sem o recurso a negociações que ninguém sabe com quem poderiam ser mantidas, mas que seriam obrigatoriamente com os independentistas.

Se isso vier a acontecer, Rajoy será confrontado com três possibilidades: aceitar uma solução à portuguesa, com o bloco independentista não vitorioso mas maioritário a conseguir formar um governo estável; fazer o famoso artigo 155 regressar ao ativo, chamando a condução do governo catalão para as mãos dos respetivos ministros do governo central; ou marcar novas eleições na Catalunha.

Se optar pela primeira hipótese, Rajoy faz regressar a Catalunha ao período anterior a 1 de outubro, data do referendo não autorizado à independência – perdendo a face política e aceitando que a solução proposta pelo PP foi pura perda de tempo. Se aceitar a segunda arrisca-se a iniciar uma guerra – talvez apenas política, mas nunca se sabe! – com resultados impossíveis de determinar. Se marcar novas eleições, os resultados serão quase de certeza muito semelhantes, se não piores – dado que as reservas às soluções emanadas de Madrid tenderão a crescer no interior da autonomia.

Entretanto, a envolvente é cada vez mais adversa ao líder do PP: o PSOE, que alinhou com os populares na ativação do artigo 155 da Constituição – que suspendeu a autonomia catalã – já disse que agora é tempo de os populares apresentarem uma solução para o problema; Carles Puigdemont afirmou estar interessado num encontro fora de Espanha com Rajoy, mas o chefe do governo apressou-se a rejeitar a hipótese. A ver vamos durante quanto tempo poderá Rajoy manter a rejeição. Finalmente, o apoio parlamentar (em Madrid) com que o PP conta por parte do Ciudadanos pode esbater-se aos poucos – com o seu líder, Albert Rivera, a fazer contas: em eleições antecipadas em Espanha, talvez o seu partido possa passar a ser o mais importante da direita espanhola, substituindo o desgastado PP.

Por falar em eleições antecipadas, Mariano Rajoy já disse que não as convocará. Mas uma coisa é o que se diz, outra é o que tem que se fazer – e se houvesse eleições antecipadas, Rajoy teria de sair da liderança do PP. E o chefe do executivo de mostra de tanta incapacidade de gerir a crise catalã, que o seu lugar pode bem estar em causa. Se essa vier a ser a saída, Ragoy ficará para sempre como o primeiro-ministro que enterrou o seu futuro político na Catalunha. Nada de novo: o seu antecessor, José Maria Aznar, enterrou o seu futuro político no País Basco. O que de algum modo é interessante: as autonomias são uma força dinâmica de tal ordem na sociedade espanhola, que a tentativa de a subalternizar ou diminuir-lhe a importância acaba sempre mal – mesmo que não seja tão mal como correu a Carrero Blanco.

Resta ainda outra hipótese, que seria talvez a mais criativa e mais estrutural: a de Mariano Rajoy se comprometer de imediato com a alteração da Constituição e com as leis das autonomias (possivelmente passando pelo federalismo) – tudo isso com prazos bem definidos – e propor que, até lá, todos os partidos do parlamento catalão aceitem um governo minoritário do Ciudadanos, como se fosse apenas um veículo de gestão a termo certo. Para isso era preciso que Mariano Rajoy mostrasse um desprendimento da coisa política que nunca mostrou antes – mas em contrapartida assegurava um lugar confortável (que de outra forma nunca terá) nos compêndios de História de Espanha.




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