Catalunha e Padânia: a estratégia do passo para o lado

Puigdemont preferiu dar um passo para o lado. Apelar ao diálogo. Uma proposta que Rajoy será obrigado a aceitar, sob pena do ónus da responsabilidade passar a recair sobre Madrid.

A proclamação unilateral de independência da Catalunha feita pelo presidente do Governo, Carles Puigdemont, seguida da imediata suspensão do ato acabado de anunciar, provou à saciedade a falta de um projeto independentista devidamente estruturado.

Uma situação que evidenciou a falta de unidade dos vários partidos que reclamam a secessão da Catalunha relativamente a Espanha. Algo que já se adivinhava quando Puigdemont se viu forçado a adiar por uma hora a leitura da mensagem.

Face à fuga das sedes dos bancos e das empresas que não desejam sofrer as consequências de uma guerra que não compraram, Puigdemont optou pela decisão que, na ótica independentista mais moderada, se apresentava como o mal menor.

Teve em conta a votação do referendo, mas não ousou enfrentar abertamente o Governo Central. Não recuou, mas não avançou com determinação. Preferiu dar um passo para o lado. Apelar ao diálogo. Uma proposta que Rajoy, embora não o assumindo no imediato, será obrigado a aceitar, sob pena do ónus da responsabilidade passar a recair sobre Madrid.

O PP sabe bem que foi sua a decisão de enviar para o Tribunal Constitucional o Estatuto de Autonomia da Catalunha. Um Estatuto que, até então, reconhecia a Catalunha como Nação. Um dos 14 artigos que o TC considerou inconstitucional. Uma decisão que fez crescer enormemente o movimento independentista. Um crescimento que Madrid não acompanhou devidamente. A Constituição como escudo protetor.

Desde há alguns anos, em Itália, a Liga do Norte, partido liderado por Umberto Bossi, também luta pela independência de uma região, a Padânia. Uma entidade que não existia geográfica ou historicamente. Um pormenor que obrigou Bossi a inventar os mitos e os símbolos que dessem conteúdo à história da Padânia. Uma criação tão perfeita que, quando a Liga do Norte aceitou fazer parte de dois governos de Sílvio Berlusconi, os seus ministros privilegiaram a ligação à Padânia e não a Itália.

Liga do Norte que, tal como aconteceu na Catalunha, também já declarou teoricamente a Padânia soberana e independente. Aconteceu em 15 de setembro de 1996. Só que, em vez de a proclamação ser feita no Parlamento, a Liga optou por fazer a declaração numa manifestação ao longo do rio Pó. Uma proclamação tipo ecológica.

Passados vinte e um anos, a Padânia, que alguns já reduziram a Pdemontania, uma vez que a Liga não consegue grande implantação nas maiores cidades do norte: Milão, Veneza, Turim, Génova e Bolonha, continua a ser parte integrante de Itália.

A Catalunha, apesar de alguns esquecimentos muito bem lembrados no sentido de enriquecer a sua história à custa do reino de Aragão, representa outra realidade. Dispõe de memória própria. As tentativas de independência vêm de um passado distante.

Puigdemont, com a estratégia do passo ao lado, salvou a face. Adiou momentaneamente a solução. Procurou estancar a saída de riqueza. O garrote estava a ficar apertado. O sonho comanda a vida, mas a realidade é que mais ordena.



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