Carlos Costa destaca “contributo decisivo” de Mário Soares no desenvolvimento do País

Governador e administradores do Banco de Portugal lembram figura central na democracia portuguesa e recordam colaboração de Mário Soares na comissão do ouro nazi.

Andrew Harrer/Bloomberg

O Banco de Portugal (BdP) expressou nesta segunda-feira, 9 de janeiro, um “profundo pesar” pela morte de Mário Soares, e lembra que foi “figura central” na democracia portuguesa e “determinante” para o desenvolvimento político, social e económico do país.

Numa nota do Governador e dos membros do Conselho de Administração do Banco de Portugal a propósito do falecimento do ex-Presidente da República, o regulador salienta que Mário Soares “foi uma figura central da democracia portuguesa e um defensor incansável da liberdade, tanto na oposição à ditadura como na construção do regime democrático após o 25 de Abril”.

Lembra depois que ocupou os principais cargos sob a atual Constituição – Presidente da República e primeiro-ministro – e teve, no quadro da sua ação política, “um papel fundamental na adesão de Portugal ao projeto europeu e na defesa dos seus ideais”. O BdP conclui que “por tudo isto, o seu contributo para o desenvolvimento político, social e económico do país foi determinante”.

A nota do BdP salienta o momento de ”perda e de consternação”, com o Governador e os membros do Conselho de Administração do Banco de Portugal a expressam à família de Mário Soares o seu ”mais profundo pesar”.

BdP lembra papel de Soares na comissão para estudar o ouro nazi
O Banco de Portugal sublinha ainda que teve “o privilégio” de manter com Mário Soares uma estreita colaboração, quando em 1998 aceitou presidir à comissão nomeada para estudar a questão do ouro recebido da Alemanha durante a II Guerra Mundial.

Recorde-se que o relatório sobre o ouro nazi, apresentado, em 1999, pela comissão presidida por Mário Soares, concluiu não haver motivos para se considerar que o governo de Salazar possa ser acusado de ter recebido, com conhecimento de causa, ouro roubado pelos nazis durante a II Guerra Mundial.

Segundo o jornal Avante de 12 de agosto de 1999, a historiadora norte-americana Miriam Kleiman sustenta, contudo, não haver dúvidas de que durante a II Guerra Mundial o Banco de Portugal sabia que estava a negociar ouro roubado pela Alemanha nazi. Citando um memorando datado de 1944 do Controlo Norte-Americano de Fundos Estrangeiros, bem como documentos do Departamento do Tesouro dos EUA, Kleiman afirma que Portugal adquiriu à Alemanha ouro no valor de 45 milhões de dólares (43 milhões de euros), dos quais pelo menos “23 milhões de dólares (22 milhões de euros) resultaram de ouro pilhado”.

Um outro documento do departamento do Tesouro norte-americano, datado de 6 de setembro de 1946, refere que, durante a guerra, Portugal adquiriu 123.827 quilogramas de ouro ao Banco Central alemão e ao Banco Nacional suíço. A questão do ouro foi negociada em dezembro de 1946 e, já na década de 50, Portugal aceitou devolver quatro toneladas de ouro, avaliadas em cinco milhões de dólares (4,7 milhões de euros). Uma gota de água, segundo os investigadores, já que se estima que o valor do ouro roubado recebido por Portugal ascenda aos 139 milhões de dólares (131 milhões de euros).

Recorde-se que os serviços secretos dos aliados chegaram a calcular que o montante de ouro recebido da Alemanha pelos portugueses chegava, na época, ao valor de 144 milhões de dólares, dos quais boa parte era de ouro belga roubado pelos nazistas. Durante a guerra foram entregues em Lisboa via Banco Nacional Suíço o equivalente a 127 toneladas de ouro fino (que na cotação atual daria algo em torno de 4,5 mil milhões de euros, quantia bem superior à suposta dívida de guerra alemã recentemente lembrada pelos portugueses). Em 1944 os carregamentos cessaram e o banco central português resolveu vender o ouro suspeito, encerrando a famosa “Conta C” de onde provinha maioritariamente o ouro que Portugal recebia dos nazistas.



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