Brexit obriga Carney a jogo de espera difícil

Preso entre a inflação acima da meta e a economia a perder gás, o Banco de Inglaterra hesita em alterar o rumo. “Até quando?”, perguntam os analistas.

Frank Augstein/Reuters

A decisão do Banco de Inglaterra (BoE) era bastante previsível, mas não foi por isso que deixou de causar ressonâncias nos mercados.

O banco central do Reino Unido manteve as taxas de juro de referência e a compra de ativos inalterados. “Como resultado, o impacto imediato foi um enfraquecimento da libra em 0,5% face ao dólar e ao euro”, explicou o economista-chefe da gestora de ativos BMO GAM, Steven Bell. “O índice FTSE 100, cujos membros geram a maior parte das receitas em moeda estrangeira, subiu como resposta em um terço de ponto percentual. As yields das obrigações a 10 anos caíram cinco pontos base”.Apesar de ser quase certo que o BoE não iria fazer alterações às taxas de juro ou à compra de ativos, havia ainda um grau de incerteza. A justificação está em Andy Haldane, economista-chefe do banco central e membro do Comité de Política Monetária (CPM) que disse em junho que podia vir a apoiar uma subida das taxas de juro ainda este ano. Os riscos de manter as taxas demasiado tempo em mínimos históricos são, segundo Haldane, maiores que os benefícios.
O discurso do economista-chefe aconteceu antes de serem conhecidos os dados mais recentes da inflação, que mostraram uma ligeira desaceleração, e Haldane não especificou quando é que poderia tomar essa posição.

Em junho, os cinco membros permanentes, incluindo o governador, tinham votado contra uma subida, enquanto os três membros externos tinham votado a favor. Desta vez, havia o risco de Haldane quebrar a tradição de os membros permanentes alinharem com Carney e apoiar a subida dos juros.

Tal não aconteceu. O resultado foi de seis contra para dois a favor, devido a uma alteração na composição do comité. Kristin Forbes, que tinha votado a favor de um aumento das taxas em junho, abandonou o CPM e foi substituída por Silvana Tenreyro, que apoiou a manutenção. No entanto, quando Haldane decidir implementar a sua mudança de posição, poderá alterar a conjuntura no comité.

Dilema do BoE

Apanhado na tempestade do Brexit, o BoE enfrenta uma escolha difícil, como explicou Andrew Oxlade, da Schroders. “O CPM enfrenta um dilema. A inflação está acima da meta, mas ao mesmo tempo a economia está a desacelerar. O impacto do Brexit na economia é algo que o comité tem de considerar”, disse. “O Banco de Inglaterra tem de decidir se a inflação que o Reino Unido está a viver é temporária ou permanente”.

Na conferência de imprensa após a reunião, Carney explicou que não quer condicionar as decisões do CPM, e por isso não deu uma data, mas adiantou que as subidas das taxas estão pensadas para os próximos três anos. Enrique Díaz Álvarez, diretor de risco da Ebury, referiu que “de forma algo surpreendente, os mercados ignoraram as afirmações do governador Carney que a taxa tem de subir a médio prazo e mais depressa que os mercados esperam”. Acrescentou que “a reação foi exagerada”, já que os aumentos “vão acontecer mais cedo que se esperava e a libra esterlina irá provavelmente subir face ao euro”.

Díaz Álvarez sublinhou que o BoE adotou um tom “bastante pessimista sobre as perspetivas da economia e do impacto do Brexit, revendo em baixa as previsões para o crescimento e os salários, que já eram cautelosas”.

Enquanto o BoE pondera a chegada desse momento certo, decidiu fazer uma alteração aos estímulos. O incentivo que acompanhou a descida dos juros, com o objetivo de transpor esta diminuição para a economia real, o Term Funding Scheme (TSF), não vai ser renovado quando atingir a maturidade, a 28 de fevereiro de 2018. Segundo Bell, esta foi a única decisão ligeiramente mais assertiva do BoE. “Isto vai causar um aumento ligeiro dos custos de financiamento”, afirmou.

“Onde é que vamos a partir daqui? Com os consumidores a sofrerem um aperto no rendimento real, o mercado imobiliário enfraquecido e as empresas relutantes em investir devido à incerteza do Brexit, é improvável que o Reino Unido veja uma retoma do crescimento por algum tempo”.

O economista-chefe da BMO GAM acredita que o CPM só deverá alterar os juros, apesar de cautelosamente, quando os rendimentos dos consumidores começarem a subir no próximo ano e a inflação gerada domesticamente emergir. “Taxas baixas por mais tempo mantêm-se as regras do jogo”.





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