‘Boom’, recessão, travagens e retoma tímida: a economia portuguesa vista por Blanchard

O antigo economista-chefe do FMI e o investigador Pedro Portugal analisaram a economia portuguesa nos últimos 20 anos e definiram prioridades para acelerar o crescimento. Reformar o mercado laboral e limpar o crédito mal-parado da banca são algumas das propostas.

O desemprego diminuiu, mas permanece elevado, enquanto a produção está muito abaixo do potencial. Esta é a avaliação de Olivier Blanchard sobre a economia portuguesa. O antigo economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI) voltou a olhar para o país e identificou os diferentes momentos que marcaram o o crescimento económico nas últimas décadas.

“Ao longo dos últimos 20 anos, Portugal passou por um boom, uma quebra, uma travagem súbita e agora uma recuperação tímida”, escrevem Blanchard e Pedro Portugal num estudo publicado pelo Gabinete de Estratégia e Estudos (GEE), do ministério da Economia, que se segue a uma análise semelhante feita pelo ex-economista-chefe do FMI em 2007.

Os anos de ouro da economia nacional aconteceram entre 1995 e 2001, mas o boom transformou-se em declínio em 2002 devido a uma quebra acentuada no procura interna. A isto, seguiram-se dois choques que abalaram o país: em 2008, a crise financeira que começou nos EUA e se tornou global e, em 2011, a crise da dívida soberana dos países da moeda única, incluindo Portugal.

Timidez deve durar, pelo menos, quatro anos

A “retoma tímida” é o nome dado por Blanchard e Portugal ao período desde 2014 e que se prevê durar até 2021. “Desde 2014, o crescimento do PIB tornou-se positivo, mas manteve-se baixo, com uma média de 1,1% entre 2014 e 2016”, dizem, lembrando que as previsões do FMI indicam um crescimento contínuo em torno de 1,3% nos próximos quatro anos.

Sobre a situação atual da economia nacional, os autores sublinham a diminuição do desemprego para 11,1% no ano passado, de 16,2% em 2013. “Olhando para o futuro a descida é, no entanto, muito lenta: até ao fim do horizonte da estimativa, a previsão para a taxa de desemprego ainda é 8,8%”. Acrescentam que “a competitividade melhorou, mas é necessário mais para manter a conta corrente controlada à medida que a economia recupera”.

Tanto a dívida privada como a pública continuam elevadas, legados dos momentos de boom, de travagem na expansão da economia e da paragem súbita. “Devido ao elevado endividamento e ao baixo crescimento, a recuperação continua frágil”, escrevem os investigadores.

“Com baixo crescimento, o rácio de dívida pública ou privada em relação ao PIB não deverá diminuir muito. A previsão do rácio da dívida pública face ao PIB é praticamente a mesma em 2021, que em 2013, 124% contra 129%. E, de forma mais preocupante, o baixo crescimento levou a um aumento constante da proporção de empréstimos improdutivos para empresas não financeiras, tendo atingido 19,8% em 2015”.

Crédito mal-parado trava o crescimento

Blanchard e Portugal definem as principais áreas que poderão desbloquear o crescimento económico nacional no futuro. “A primeira é o tratamento dos empréstimos improdutivos, que permitiria um aumento da procura a curto prazo e um aumento na oferta a médio prazo. Defendemos que, na medida em que tal tratamento requer recapitalização, pode ser sensato financiá-lo através de um aumento do défice orçamental, mesmo face à elevada dívida pública”.

“Não existe uma varinha mágica” para resolver os problemas da banca, lembram os economistas. No entanto, consideram que “a melhor opção” é limpar o crédito mal-parado das folhas de balanço dos bancos, adotar medidas de recapitalização adequadas e, nalguns casos, fazer alterações à estrutura governativa.

Segundo os dois autores, o Governo deve ainda intensificar reformas na produção e no mercado de trabalho. “A prioridade é diminuir o défice de produção remanescente e diminuir o desemprego mais rapidamente que nas previsões atuais”, defendem, fazendo uma ressalva sobre a forma como implementar as reformas em questão.

“Simultaneamente, também defendemos que, neste momento, algumas políticas não seriam aconselháveis, entre as quais uma consolidação orçamental mais rápida, medidas destinadas a diminuir os salários nominais e os preços, e a saída do euro”.





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