A maior parte dos investidores que aposta nas moedas digitais não tem noção dos riscos que corre, e a regulação ainda não chegou lá, até porque seria uma forma de legitimar este tipo de “moeda”.

As sucessivas crises financeiras têm sido resolvidas com a criação de bolhas de maior dimensão. Os problemas de fundo, esses, continuam por resolver e estão bem identificados.  No caso europeu são a rigidez e fraca mobilidade do mercado de trabalho interno; a ausência de reformas nos sistemas da educação e da justiça; a burocracia e custos de contexto, bem como os desafios de uma sociedade envelhecida e respetivo impacto na sustentabilidade da Segurança Social.

A compra de tempo por parte do BCE, mantendo taxas de juro negativas, teve como consequência a subida do preço dos activos financeiros e o aumento da desigualdade em termos de rendimento entre trabalho e capital. A bolha que se vive nos mercados financeiros continua a ter suporte, mas está a dar origem a outras bolhas .

A tentativa de conter os efeitos da bolha tecnológica teve como consequência a criação da maior bolha vivida até agora – a bolha imobiliária –, que terminou em 2007, com elevados custos para os contribuintes. A partir daí iniciou-se um processo lento de recuperação da economia real, assente na optimização de processos, no desenvolvimento de novas tecnologias e na alteração dos padrões de consumo de energia.

Estamos a assistir a uma bolha em desenvolvimento, paralela ao sistema financeiro e à economia real, que terá impacto nas nossas vidas. Não se trata da bolha imobiliária ou da subida verificada nos mercados de acções ou de obrigações, mas sim da bolha das criptomoedas como por exemplo a Bitcoin, Ethereum, Litcoin, Zcoin.

Este novo mundo, ainda pouco conhecido, não é regulado e já vale mais de 50 mil milhões de dólares. Uma gota de água tendo em conta o mercado global, mas surpreendente quando há cinco anos valia algumas dezenas de milhões de euros. O crescimento é tal que algumas “moedas” subiram mais de 500% nas últimas três semanas. O termo “ICO” ou “Initial Coin Offering”, similar a uma oferta pública de venda de criptomoeda, entrou no vocabulário à medida que o número de “moedas” foi aumentando – já atingiu as 830 –, com a particularidade de algumas garantirem pagamentos semanais aos seus detentores.

Não há dúvida que a desmaterialização do dinheiro será feita a seu tempo, até pelos custos de movimentação da moeda física, mas no dia em que as autoridades monetárias descobrirem um sistema de pagamentos infalível, irão apoderar-se dele e não irão abdicar da capacidade de imprimir dinheiro, agora “digital”.

A maior parte dos investidores que aposta neste tipo de moedas não tem noção dos riscos que corre, e a regulação ainda não chegou lá, até porque seria uma forma de legitimar este tipo de “moeda”. O Japão, responsável por mais de 50% das transacções em Bitcoin nas últimas semanas, introduziu regras para forçar as plataformas de negociação destes produtos a cumprir com as regras de branqueamento de capitais e identificação do cliente.

Não é por acaso que os pedidos de resgate, naquele que foi o maior ciberataque de sempre, ocorrido no dia 13 de Maio, foram feitos em Bitcoins.

O autor escreve segundo a antiga ortografia.

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