Bashar al-Assad volta a ser suspeito de crimes de guerra

Condenação dos parceiros ocidentais da síria na guerra contra o Daesh deixa a Rússia isolada no apoio ao regime de Damasco. Desde 2014, Moscovo já vetou sete resoluções contra al-Assad na ONU. Trump ameaça com intervenção.

A acusação não é nova, muito longe disso, e as evidências são, mais uma vez, difíceis de desmentir: o ataque de há três dias sobre a cidade Khan Cheikhoun, na província de Idlib, perpetrado por aeronaves não identificadas – e que deixou para trás 86 mortos e três centenas de feridos – é da responsabilidade do regime sírio, liderado por Bashar al-Assad. Alguns dias antes, a 30 de março, mais de 50 pessoas ficaram feridas ou com sintomas de asfixia devido a ataques com substâncias químicas lançadas de aviões e helicópteros não identificados na província de Hama, que faz fronteira com Idlib.

Uma das primeiras reacções de repúdio pelo ataque veio de Ancara, com o presidente turco, Recep Erdogan, a responsabilizar, sem reservas, o regime de al-Assad pelo ataque mortífero, que resultou de pelo menos quatro bombardeamentos com bombas termobáricas que continham gás cloro e gás sarin.
Estados Unidos, Reino Unido e França – todos eles países envolvidos directamente na luta contra as posições do Daesh na Síria e no Iraque e, portanto, aliados de al-Assad – apressaram-se a condenar veementemente o ataque químico, entendendo-o como um crime de guerra e um crime contra a humanidade, que caem sob a alçada do Tribunal Internacional de Haia (a Síria enquanto Estado) e mesmo do Tribunal Penal Internacional (al-Assad enquanto indivíduo).

O gabinete de Erdogan divulgou também que o presidente turco – que abriu as fronteiras com a Síria para que as ambulâncias com os feridos pudessem aceder aos hospitais turcos – telefonou ao seu homólogo russo, Vladimir Putin, para lhe expor o seu repúdio total face à ofensiva de Damasco sobre o seu próprio povo.  Do lado de Moscovo, que se saiba, o episódio mereceu apenas um muito barulhento silêncio, mais tarde confirmado pela oposição da dipomacia russa ao texto apresentado pelos Estados Unidos, França e Reino Unido condenando o ataque químico. E um posterior desmentido: tanto a Síria como a Rússia desmentem o uso de gás ou de qualquer outro agente químico na luta contra os opositores ao regime de Damasco – afirmando, mais particulamente sobre o sucedido há dois dias, que o gás mortal estava na posse dos rebeldes e terá sido libertado na sequência de um ataque aéreo convencional. Os rebeldes já desmentiram a posse de qualquer arma química.

Sanções vetadas sete vezes
A oposição da Rússia ao texto deu-se pouco antes de uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU sobre o assunto, durante a qual o presidente francês, François Hollande, quis impor sanções à Síria, para além de pretender aprovar uma resolução daquele organismo internacional contra a Síria. O rascunho de resolução pede uma investigação exaustiva do ataque por parte da Organização para a Proibição de Armas Químicas e da ONU, exige a entrega dos planos e registros de voo das aeronaves envolvidas no ataque, os nomes de todos os comandantes presentes na operação, uma reunião com generais e outros oficiais de alta patente e uma visita às bases aéreas usadas.

A tentativa de impor sanções e uma resolução contra o regime de Damasco em sede da ONU tem, pelo menos, quatro anos. Desde 2014, altura em que a guerra entre a Síria e a oposição – entretanto ‘contaminada’ pelos fundamentalistas islâmicos – aumentou de intensidade, que a França e o Reino Unido (os dois países europeus que fazem parte do Conselho de Segurança, juntamente com a Rússia, China e Estados Unidos) o vêm tentando. Mas todas as diversas tentativas – a última das quais, a sétima, aconteceu em Fevereiro – foram bloqueadas pelo veto tanto da Rússia como da China. “O texto apresentado é categoricamente inaceitável porque antecipa os resultados da investigação e assinala os culpados”, afirmou, entretanto, um elemento da representação da Rússia na ONU, o que permite antever novo chumbo por parte da Rússia e provavelmente da China.

A incógnita Trump
Ora, o presidente chinês, Xi Jinping, estava precisamente nos Estados Unidos – em visita oficial de dois dias – quando ocorreu mais esta tragédia envolvendo novamente o nome de al-Assad. Não se sabe se Xi Jinping terá sabido de viva voz da parte do seu homólogo Donald Trump, mas o certo é que, ontem, a embaixadora dos Estados Unidos na ONU, Nikki Haley, disse que o seu país está a preparar-se para uma intervenção unilateral na Síria, se se der o caso de, por via da ONU, não for possível sansionar mais este desastre com a marca de Damasco. Haley – que não especificou o que quer diser ‘intervenção’ – pôde ouvir da representação síria na organização um repúdio veemente, que também se repete há vários anos, do uso de armas químicas, mas isso não demoveu a delegação norte-americana.

Resta agora saber-se se a ameaça de Trump é ou não para levar a sério. Segundo analistas citados pelos ‘media’, o novo inquilino da Casa Branca não tem nenhuma oposição de princípio em lançar as suas tropas numa operação militar numa qualquer parte do mundo. Antes dos acontecimentos dos últimos dias, era mesmo possível encontrar analistas norte-americanos que afirmavam que Trump andava à procura de uma boa razão para começar uma guerra – o mais longe possível, claro, do território norte-americano.

Agora, parece ter encontrado uma, e a sua representante na ONU afirmou também que os Estados Unidos, se decidirem uma ofensiva contra a Síria, estarão abertos à presença de forças de outras nacionalidades que queiram acompanhar mais uma aventura dos marines. O que ainda não se conhece é a reacção dos líderes da Europa – que estão ‘escaldados’ com o apoio que têm fornecido a Bashar al-Assad, mas não devem estar interessados em ter um conflito aberto entre os Estados Unidos e um qualquer país apoiado militarmente pela Rússia nas proximidades do seu território.
A posição da Europa é, neste quadro, muito difícil: é que, o repúdio a mais esta iniciativa beligerante de al-Assad não pode ser acompanhada pela diminuição do apoio militar à luta contra o Daesh, sob pena de colocar em causa uma vitória sobre os grupos fundamentalistas islâmicos, que há várias semanas está anunciada como iminente.



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