Avós precisam-se

Quando era eu que estava de merecidas férias escolares, dá-me a sensação de que a família estava mais perto e de que era maior…

Chegámos àquela época do ano em que todas as rotinas se desconjuntam e salta à vista a assimetria existente entre a disponibilidade de tempo que pais e filhos têm nesta altura. Bem, quase todas as rotinas se desconjuntam, mas não todas, porque para os pais continua a existir a rotina diária do trabalho, só que, agora, com uma adaptação forçada à realidade das férias escolares.

A verdade é que os filhos têm o triplo das férias dos pais e, terminadas as aulas, mesmo para quem tem maior disponibilidade financeira, é um desafio a correria para escolher a melhor forma de os manter ocupados, em segurança, e, claro, chegar a tempo de encontrar vaga. Summer school, quando se tem mais do que um filho, não é uma solução para todos os verões e exige um cuidado planeamento financeiro, sob pena de esgotar todos os recursos disponíveis para a família ter praia; as viagens da Praia Campo estão sempre esgotadas; “temos as aulas cheias até setembro”, dizem da vela e do remo, explicando que os clientes são habitués, que vão marcando presença de ano para ano. “Talvez se houver alguma desistência”. Até podia ser, mas não há organização que resista a tantas possibilidades. Até porque as atividades são limitadas no tempo, duram uma semana ou, mais raramente, quinze dias. Por isso, temos de ter um plano A, um plano B e seguintes. Quando temos mais do que um filho com idades diferentes, quando entramos no campo das famílias numerosas, com três ou mais filhos, acho que não chegam as letras do alfabeto para contabilizar todas as variáveis possíveis.

Por vezes, dou por mim a tentar lembrar-me de como se resolvia este imbróglio, que é recorrente e que faz com que cheguemos tão esgotadas ao fim do verão, que ambicionamos ter férias das férias para podermos ter algum descanso. Pois, quando era eu que estava de merecidas férias escolares, dá-me a sensação de que a família estava mais perto e de que era maior. Lembro-me que aportávamos aos avós assim que a escola acabava; lembro-me de tios e primos; especialmente de primos, que formávamos bandos durante as férias, em casa de uns ou de outros. As correrias eram supervisionadas pelos avós, que é quem consegue ter a sabedoria para manter a ordem sem que fosse necessário um regime mais militarizado. E era mais disto que devia haver hoje: campos de férias de avós e netos. Sou capaz de incentivar a criação de uma startup inovadora, baseada nesta relação entre gerações. E proponho-me lançar uma iniciativa de crowdfunding e pôr anúncios nos jornais a dizer “precisa-se de avós”. E até arranjo clientes. Pelo menos um, eu. Vezes três.

 

Nota biográfica: Maria Calvet (n. 1976, Lisboa) é filha de mãe francesa e pai português, fruto de uma relação nascida de uma pós-graduação na Sorbonne. É supermulher por convicção e contadora de histórias por terapia. Por se rever num pensamento de mestre Da Vinci, fez dele mote de vida: “Tal como o ferro enferruja com o desuso e a água estagnada apodrece ou gela quando esfria”, também o nosso “intelecto perde” a não ser que lhe demos uso.

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