Podemos alegar que grande parte do que fazemos com uma ligação à Internet no telemóvel é trabalho e é importante, mas os níveis de procrastinação e distração que causam acabam por tirar alguma força a esse argumento.

São frequentes as noites em que dou por mim a acordar de madrugada e a estender o braço para o telemóvel por cima da mesa de cabeceira numa ânsia de me atualizar sobre as últimas novidades nas redes sociais. É um hábito que se entranhou cada vez mais e tenho consciência das dificuldades em pôr-lhe fim.

Podia dar outros exemplos de tempo absorvido no scroll down das redes, em especial do Twitter, a minha rede predileta e que me permite manter-me informada sobre grande parte dos principais acontecimentos no mundo, em primeira mão e por vozes locais. Não sou certamente a única. Para onde quer que olhe, vivemos absorvidos pelos nossos smartphones.

Se me esquecer do telemóvel em casa, sei que isso irá gerar nesse dia um transtorno social e psicológico absurdo e difícil de explicar. O constante gesto de meter a mão na mala à procura do telemóvel é quase obsessivo-compulsivo, ainda mais ridículo quando sabemos que o telemóvel ficou esquecido em casa.

Com o acesso mais facilitado a dados móveis, tornou-se prática comum levarmos connosco para todo o lado os nossos amigos, colegas e família no bolso enquanto pressionamos o botão Gosto e esgrimimos argumentos nas caixas de comentários ou em conversas privadas. Se é verdade que socialmente deixou de ser aceitável estar à mesa com outros a olhar de modo compenetrado para o telemóvel, sub-repticiamente não deixamos de espreitar os ecrãs de quando em quando. E não é só nos jantares; é também a conduzir, a andar na rua, nos cinemas, ou seja, em sítios incompatíveis com a atividade de estar atento a um aparelho eletrónico.

Podemos alegar que grande parte do que fazemos com uma ligação à Internet no telemóvel é trabalho e é importante, mas os níveis de procrastinação e distração que causam acabam por tirar alguma força a esse argumento. E que atire a primeira pedra quem nunca procurou conforto emocional através das redes sociais. Antigamente ligava-se a amigos, agora mergulhamos em realidades alternativas onde podemos ser e dizer o que quisermos, um pouco à semelhança do protagonista adolescente que escapa para a realidade virtual do OASIS como forma de não enfrentar o seu mundo em autodestruição no livro “Ready Player One” de Ernest Cline.

Julgo que foram dois momentos que me fizeram parar e tirar os olhos (a custo) do telemóvel e pensar nos hábitos saudáveis da nossa sociedade: ver as crianças, desde tenra idade, a sere entretidas pelos pais com ecrãs a toda a hora, e a facilidade com que a terceira idade também aderiu aos novos tempos. Já não é de maneira nenhuma algo limitado a gerações mais novas ou tecnologicamente aptas.

Quero deixar a ressalva de que não é nenhuma desconfiança ludita da tecnologia que me impele a escrever, mas a nossa incapacidade de admitir que perdemos o controlo da gestão do nosso tempo. Ainda acreditamos que é aceitável ou normal entregarmo-nos a um infinito scroll down das vidas de outros, descurando nesse processo as nossas próprias vidas.



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