As piores 24 horas para um ministro das Finanças

Eduardo Catroga teve a impressora encravada na véspera da entrega do OE. Bagão Félix não podia faltar ao jantar de aniversário da mulher. Teixeira dos Santos fazia longas caminhadas a pé entre as Picoas e o Terreiro do Paço para relaxar da pressão.

A preparação de um Orçamento do Estado (OE) é um período de extrema agitação para os ministros das Finanças. Teixeira dos Santos, titular da pasta entre 2005 e 2011, recebia telefonemas madrugada fora. Trabalhava, em média, 18 horas por dia e mal tinha tempo para sair do gabinete. Os almoços e jantares, sobretudo sandes e bifanas, eram passados à mesa de trabalho. “Dormia três ou quatro horas e regressava”, lembra Teixeira dos Santos ao Jornal Económico.

Para o antigo governante, o OE de 2011 foi o mais difícil. “O País já atravessava grandes dificuldades com a crise da dívida soberana e o comportamento dos mercados financeiros. Este OE lançava reformas importantes num quadro macroeconómico que não se antevia muito favorável”, diz o antigo ministro.

Para espairecer, ao longo dos meses de preparação do Orçamento saía de casa, em Picoas, e caminhava até ao Ministério, no Terreiro do Paço – fazendo a pé parte do percurso. A música (clássica e jazz) sempre o acompanhou nos momentos mais complicados. Antes de adormecer também aproveitava para ler – os temas sobre a história de Portugal estão entre os preferidos. Porém, a leitura de fim de noite nos primeiros dias de outubro restringiu-se às páginas do documento.

“É um período muito intenso. Todos os números têm de bater certo e, claro, há sempre correcções de última hora”, acrescenta Teixeira dos Santos.

Por norma, o Orçamento começa a ser preparado mais intensamente a partir do segundo semestre do ano, com uma previsão do estado da economia. Depois, vêm as restantes fases: a simulação das receitas e despesas, a distribuição pelos ministérios e as negociações com os partidos políticos. O ministro das Finanças consegue cumprir boa parte das tarefas no horário normal de trabalho (entre as 09h00 e as 21h00), mas a semana que antecede a entrega do documento na Assembleia é frenética. As noitadas tornam-se inevitáveis. E a fase da revisão, da elaboração de relatórios, da preparação para as perguntas dos jornalistas e, claro, dos imprevistos.

A impressora encravada

Eduardo Catroga lembra-se bem desses tempos. Para o ministro das Finanças de Cavaco Silva, o grande pesadelo do Orçamento do Estado não foi a parte política ou financeira. O problema aconteceu onde menos esperava: na fotocopiadora do ministério, em outubro de 1994. “O Orçamento estava pronto, mas guardei para a véspera a reprodução do documento por motivos de confidencialidade. Só que, na altura, quando dei ordem para imprimir, a impressora encravou”, recorda o ex-ministro, que assumiu a pasta entre 1993 e 1995.

Na época, o documento só podia ser entregue em papel – milhares e milhares de páginas transportadas em três ou quatro caixotes até à Assembleia por funcionários e guarda-costas do Ministério. Para evitar fugas de informação, a impressão fazia-se apenas 24 horas antes. A avaria provocou grande ansiedade, mas acabou por ser resolvida.

OE no aniversário da mulher

O episódio da impressora aconteceu há mais 20 anos e, apesar do avanço na tecnologia – hoje em dia, o documento é entregue numa ‘pen’ digital. No entanto, há uma característica comum a todos os ministros: o stresse. Bagão Félix recorda que o pior momento deu-se durante a fase de execução para o Orçamento de 2004. “Estávamos a preparar uma solução para as receitas extraordinárias, para que o défice não fosse superior a 3%”, lembra. Estas receitas consistiam, entre várias modalidades, na venda de imóveis do próprio Estado, mas em Dezembro desse ano, as autoridades europeias estavam renitentes. Uma das soluções passou por ir buscar parte dos fundos da CGD.

O ex-ministro das Finanças, que sempre fez questão de ir almoçar e jantar casa, já sabia que nesta altura era quase impossível manter a rotina. “Comia um prego no pão e uma salada de frutas. Brincar com o papagaio (Pelé), ler o jornal A Bola’ e livros sobre botânica foram o meu escape neste período”, acrescenta Bagão.

No dia 15 de Outubro de 2004, entregou o Orçamento na Assembleia, passou o dia em contactos e foi jantar com a família. A data coincidiu com o aniversário da mulher. “Como sou previdente já lhe tinha comprado a prenda semanas antes”, lembra.



Mais notícias