Os tempos recomendam a multilateralidade e a colaboração entre países com interesses e adversários comuns, não o “esplêndido isolamento” de eras passadas.

Theresa May apresentou há dias uma nova proposta de entendimento entre o Reino Unido e a União Europeia após o Brexit. Embora manifestando abertura quanto aos termos das futuras relações comerciais com a Europa e expressando o desejo de manter o país integrado em diversas agências europeias, refutou liminarmente a vinculação ao Mercado Comum e à União Aduaneira. May insiste num acordo que não atende suficientemente aos interesses da União e aos limites do aceitável pelos seus ainda parceiros, consequência dos erros que os britânicos vêm cometendo desde o início do processo, bem como dos conflitos internos no seu Governo.

As autoridades britânicas, surpreendidas pelo resultado do referendo de Junho de 2016, não tinham, aparentememente, um plano de contigência para a eventualidade de uma vitória do Brexit, mostrando uma incompreensível impreparação, quer quanto aos termos da desvinculação da União, quer quanto às condições do futuro relacionamento com esta. A recusa de David Cameron em ser consequente com os resultados – quaisquer que eles fossem –  da consulta por si promovida, adensou o problema, legando à sua sucessora a árdua tarefa de delinear todo o processo, sem bases previamente esboçadas.

Por outro lado, os britânicos cometeram um erro de cálculo, pois presumiram que a UE, dividida acerca de quase tudo, se apresentaria à mesa das negociações sem uma posição robusta face a um parceiro negocial que, sendo um só, estaria em melhores condições de apresentar uma proposta coesa. Porém, a situação foi a oposta, pois a Europa tem-se mostrado surpreendentemente unida e o Governo britânico, pelo contrário, dividido quanto à forma a dar ao acordo.

Com efeito, o Governo de May divide-se entre os que pretendem uma uma futura relação cooperativa e os que desejam um divórcio litigioso, reclamando para o Reino Unido todos os direitos e regalias sem quaisquer contrapartidas. E a primeira-ministra mostra-se incapaz de pôr ordem na casa, carecendo das qualidades de liderança necessárias para fazer vingar o seu ponto de vista junto dos seus colegas de governo, antes tentando conciliar posições inconciliáveis, ora procurando ir ao encontro de uns, ora de outros, sem satisfazer nenhuns.

As mais recentes propostas de May, recebidas com cepticismo por Donald Tusk, confirmam o risco de não se chegar a um acordo que assegure um saudável e forte relacionamento entre o Reino Unido e a UE, que o contexto internacional instável torna absolutamente necessário para benefício das partes.

A Rússia assume uma posição expansionista e belicista, comprometendo a soberania territorial de um Estado vizinho, intervindo com violência assassina na Síria e não conseguindo escapar a fortes suspeitas de gangsterismo de Estado, de que o recente incidente com Sergei Skripal, episódio que parece saído da imaginação de Ian Fleming, é exemplo.

A China, por seu turno, pretende instaurar uma ditadura dentro da ditadura, ao perpetuar o seu presidente no poder, medida cujo alcance está ainda por avaliar, mas que não será decerto benéfica para o Ocidente. Nos Estados Unidos, reina a incerteza, pois a liderança de Trump é um desafio à racionalidade, da qual há apenas a esperar o inesperado.

Quanto ao Médio Oriente, as perspectivas de agudização de uma conflitualidade sempre presente, adensam-se. A Coreia do Norte, por seu turno, de forma real ou aparente, permanece uma ameaça à paz.

Sendo certo que o Brexit é um erro de proporções históricas, que a volátil situação mundial torna ainda mais evidente, não parece haver, porém, por parte dos britânicos, a disponibilidade para minimizar os danos potenciais decorrentes desta opção, através de um acordo que assegure uma intensa cooperação com a União. Os tempos recomendam a multilateralidade e a colaboração entre países com interesses e adversários comuns, não o “esplêndido isolamento” de eras passadas.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.




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